quinta-feira, outubro 26, 2006

Estou confusa há quase seis dias. Seis dias e muitas horas que foram se tornando outros muitos minutos. E pensei, sonhei, suspirei e não consegui chegar a raciocínio absoluto ou realista nenhum. Nem certo nem errado.
Simplesmente ele apareceu e eu fiquei sem saber.
Sem saber de beijava ou olhava. Se olhava e falava. A boca seca deixava qualquer palavra mais árdua, a proximidade assustava. Logo eu que nunca me senti assim, sem saber bem como era assim, senti-me bem assim.
Num primeiro encontro com gosto de primeiro encontro.
A primeira impressão não tem segunda chance. Isso diz ele.
Eu nem isso sabia dizer!!!
São muitas as frases que lembro. E as guardei tão bem que não consigo dizê-las, e no entanto, ao tentar, é timidez que parte.
Foi a hora demorada, de tão curta.
E depois o telefone.
E a saudade.
As conversas...
Sim, como sempre, a espera,
... não desistas de mim... ou ele murmurou, ou imaginei. Quem sabe queria que ele tivesse dito...
Ai minhas sensações, ai minhas deusas, protejam-me.
Sinto que estou para me perder...

Maria Odila

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quarta-feira, setembro 20, 2006

Misturas

Misturo.

Não é verdade!!!

Confusiono, esqueço e agrego. Nem cozido de carne em horas de fogão entranha mais que as minhocas de minha cabeça.

Minhoca não tem frente nem verso, dizia Tadeu. Primo mais velho,

Roubei dos primos, muito. Carrinho de rolemã. Rolava a descida sem breque e eles subiam carregando seus carrinhos. Incentivados na ladainha Na descida todo santo ajuda, na subida a coisa toda muda.

E os santos! Em época de prova, melhor escolher os menos conhecidos. As santas folhas tinham menos pedidos de boas notas para promessas de muitas rezas de convictas e beatíssimas meninas estudantes.

E se Santo Antonio até hoje não arruma minha sala, a nota era boa demais. Não rezava nada. O santo não tinha cumprido sua promessa que eu havia lhe dado o rpazer de fazer

Santos sem credibilidade em épocas escolares.

Nunca tirei dez e a sala continua desarrumada até a Nice chegar, quase ás dez.

Um dia dei festa e ganhei um perfume do Luiz, de quem esqueci o nome duplo e sobrenome, mas sei que era o menino mais lindo da escola. Não importa ser acidente, emergência e a consulta na casa da gente. Meu pai médico e o bonitão, em casa. Ele foi e era isso o que contava. E assim contei.

Un, deux, trois,... passé. E na curva pós jetê, eu e as pernas, os pés, estourávamos no chão, um lindo balé e eu o som — tomate esborrachado. Semana sim outra não, pés enfaixados. Não sei como me levam até ontem.

Hoje aulas de dança, de salão. Primeira aula, não fui. Segunda, agüentei 15 minutos. Terceira fui um estouro: 40 minutos. E o joelho nunca mais esqueceu de mancar. Pior, não manca, falha. Dou um passo, e no segundo a perna parece boba, amolece o joelho e vai pra frente. Ando em duas alturas.

Eu bem que queria escrever bonito igual ao Paulo, mas hoje acordei embaraçada, que fazer?



Odila Goulart





Eu misturo as coisas.. Eu gosto de misturar.
O que no princípio confunde, depois ilumina.
Misturo mas não me perco - ou se perco, depois acho!rs
Misturo as palavras alheias, para as pessoas que amo.. Paulo B. P.

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sexta-feira, maio 12, 2006

Outono

Outonos.
Camomila, cidreira, doces ervas em meu chá.
Correntes fazem a areia permear olhos que mal entreabrem. Vestido, qual bandeira, animava-se entre cabelos, pernas e braços. Os pés reclamam às pedras, são ásperas.
Os olhos pedem água apesar do céu que nem é escuro, nem está acinzentado.
Somente o vento que carrega a areia.
Não é uma tarde ensolarada. Com alguma dificuldade, iluminada.
Só.
Nas alamedas nem amoras, nem framboesas, arbustos aqui e ali. Nas folhas, verdes bichos da seda conversam com seus galhos, tecem seus segredos, criam novos pontos, tricotam outras frutas. Mais adiante as pedras estouram junto às ondas. Não é o mar, novamente a areia a criar imagens. E o vento assovia entre os dedos, entre os cachos, entre as pernas desnudas.
Corria protegendo os olhos com o braço.
A cada passo um segredo, era inevitável.
Correu até chegar e bater, com empenho, portas e janelas.
Fôlego curto deixou-se cair no chão da cozinha.
Chamou os cães. Nem som, nem sinal. Só o zunido das frestas.
Não era de assustar-se com facilidade, porém quase sentiu a nuca arrepiar.
Na cesta amarela encontrou pêras, morangos e folhas de hortelã.
Ainda no chão sacudiu a areia dos cabelos, mastigou duas folhas de hortelã.
Vagarosamente subiu até a mesa. Carregava no braço a cesta e na mesa espargiu os morangos.
Não sei no que pensava. Acho que nem ela.
Acontece que a ausência foi chegando e os olhos foram saindo, assim, dali, de lá, esgazeados.
Quando vi, estavam a desaparecer, fechados, piscando, pouco abertos. Morangos dançavam nos dedos, nos lábios, até os olhos avermelhavam. Os dedos miúdos apertavam a fruta, desapercebida. O chão de areia, salpicado de vermelhos, era como as luzes, vespertino. Às vezes comia um, às vezes caiam entre seus pés. Sem vontade, comia outro.
Não sei nem se viajavam os olhos ou o pensamento, não sei.
Os morangos pela mesa, triturados em sua mão, a boca manchada, o colo vazado, a roupa respingada, os pés rolando a areia.
Ruído irritante.
Alisava um seio, o outro, os cabelos, os lábios e os dedos faziam do caminho, cor de morango.
Mastigava devagar, deslizava a língua, outra fruta, a mordida, outro bicho fazendo seda.
O vento abriu a porta que bateu na bancada. Levou ao alto a saia, cabelos e os morangos voaram
Ela não se moveu.
Os cachos escuros, a boca saboreando, as mãos fazendo tinta a escorrer entre dedos, manchavam e desenhavam no vestido e na areia.
Do colo às pernas uma sinuosa estrada rubra.
Distraída, ela não via. Distraída, comia.
Comia morangos, no outono.
Maria Odila

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quarta-feira, março 15, 2006

Aos primeiros... encontros.

As unhas lixadas, não esmaltadas.
O corpo, bem, é o mesmo, e ainda o de ontem. Na última hora não adianta correr, subir escadas, relegar os doces para o fundo da geladeira. Na última hora serei, como de costume, a de sempre.
Rosto praticamente sem rugas. A idade chega, os talhos não. Apropriadamente não são talhos, mas estes cortes horizonto-verticais marcam e como marcam. Graças não os ter. Vontade de agradecer o dom dos risos sonoros.
E a ansiedade, essa companheira de vida, bem que poderia relevar os doces engolidos às pressas enquanto o telefone não tocava, enquanto os dias não mudavam o calendário.
Alguns meses, sim, alguns, e o meu mais melhor de mim, não aproveitado.
Os primeiros encontros esperam, provocam, agonizam. Porque são primeiros, porque são novos e porque... porque... oras nem sei mais quais porquês me assustam.
Se penso, vai dar errado? Se mudará, se a idéia vai ficar, se vai desistir, se vai chegar na hora, não, nunca saberei antes, e depois, bem depois não será mais o primeiro.

Maria Odila Goulart

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segunda-feira, fevereiro 20, 2006

A quem...

Não sei a quem o tempo obedece mas certamente não é a mim.
Todas as noites, à janela, espero.
Saio, entram pensamentos, volto, entram palavras.
Músicas tocam.
Não chegas, não vens.
Dia, dia e meio, pretérito.
E antes, a ausência.
Impressões, nostalgias, cumplicidades.
Fatigada, busco o tédio à perfeição.
E o seguinte dia, também espera.
Trocar as diferenças, colorir nuances, lapidar facetas.
Dia esse, outro também.
Vem, vou desarrumar-te.
Todo, todas às vezes.
Saudade.
Saudades.

Maria Odila

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segunda-feira, janeiro 16, 2006

Conversas de madrugada

Perdi o sono
Quem sabe por conta de querer ouvir Nicolas Krassic, não sei, mas enfim fui a teu Teto, agora ouvindo a outra faixa. Ah essas músicas... Acredita que cheguei a ouvir nosso Hino madrugada destas? Pois ouvi sim e com Nicolas.
Paro antes que me diga: — Quem esse Nicolas? (aviso de amiga, como seu francês é péssimo, não se esqueça que a pronúncia é Nicolá)
Um francês como aquel´outro, também do violino, também apaixonado por música.
Voltando ao pretendido, ainda bem que este correio eletrônico funciona na madrugada. Carteiro algum conseguiria fazer minhas vontades entregatícias. Imediatista que sou quero que leias logo, quero que logo respondas.
Ah, sim. Outra vez me perdia. Ao teu Teto digo que só pensei, senti, reli e nem sei dizer o quanto gostei. Clau deve ter escrito abduzido, cheguei a pensar. Diferente este. Não sei. Quer dizer sim, sei. Acho que escreveu apaixonado. Não meu querido, não é aquela minha mania de querer que tu te apaixones, namore, mas agora te vejo apaixonado por letras.
Sinto que tenhas sumido de quase todos os amigos. Não te vejo tem quase um ano.
Quem sabe apareças antes do Carnaval?! Sei que não és de festas e que esse meu jeito de contenteza sempre te irrita. Brigue comigo mas apareça, sim?
E não esqueça de sua cartinha a Papai Noel. A minha mandei, em novembro e ainda nada. Papai Noel meio vesguinho deixou a filha com namorado e eu, sonhando, sonhando e apaixonada. Sabe Clau, melhor se prevenir e mandar a sua antes do meio do ano. Acredite, o Natal chega cada vez mais cedo...
Troco meu presente de aniversário, que tu não deu, pela coca cola que tu me deve. E troco os dois por um jogo de xadrez, desde que se comprometa a novamente perder. Não é que não saiba perder é que gosto de ganhar mesmo quando você diz que não sei jogar porque fico rindo e te futricando o tempo todo. E não é melhor o jogo assim? Levar jogo a sério deve causar rugas...
Esperando que logo respondas vou tentar novamente o sono. Amanhã, que já é hoje, mostra sol na janela e a feira começando e como ainda nem dormi esse amanhã não consegue chega.
Se vier hoje passe na barraca do pastel e me traga um de carne. Com garapa também para a azia ser completa.
Agora verdadeiramente vou dormir. Se chegar antes que acorde a chave está escondida nas barbas do Papai Noel ainda esquecido do lado de dentro da porta.
Toque a campainha. Quem sabe acorde, te dê a chave e volte a dormir.

Maria Odila

Ah, sim. O Teto está aqui DESCONCERTOS
www.desconcertos.com.br

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sábado, janeiro 07, 2006

Cotidiano I

O lençol já foi branco e o varal novo.
A casa ainda é habitada. Só as pessoas não são vistas.
Todo dia, pela manhã, são outros os lençóis, outros os pregadores. Ninguém a ver as trocas, ninguém sabendo das horas.
Amanheceu e o de ontem não será o de hoje.
Quinta-feira rosas estavam lá, penduradas, cabos no varal e pétalas entre os lençóis.
A cada quinta, novas rosas. Nas terças, flores amarelas e nos sábados cravos que de tão rubros, pareciam enlutados.
Relógio e calendário ficaram em casa.
A vida corre melhor entre encardidos lençóis e alvas-coloridas flores.

Maria Odila

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sábado, dezembro 31, 2005

2005

Depois de um certo dia o tempo cansa e o ano muda. Não necessariamente no primeiro dia do ano porque no primeiro de janeiro muda o ano datado. E no entremeio mudam os aniversários de vida, os de conhecimento, os de casa nova, os de morte até.
A cada final dizem que o ano foi mais corrido, adiantado. Impressão, impressão.
Este ano, ao soar a primeira badalada saibam: — ele chegará atrasado de um segundo... Coisa de astrônomos. Ou quem sabe a terra tenha se perdido no meio do caminho, quem sabe?
E assim desejo que no novo ano vocês invertam.
Tudo e a todos.
Troquem velhas idéias conhecidas por outras desconhecidas, anônimas, casuais e alheias.
Invertam as palavras, os sentidos, as sensações.
Desfaçam feitos, refaçam desfeitos.
Criem conceitos - o abstrato como concreto, a posse como perda e o real como etéreo.
Jamais pergunte, jamais explique, vá vivendo, siga sentindo.
Saudade é só de quem partiu. Dos outros leve nostalgia, enfrentamento e incompletude.
Maturidade, descarte. Responsabilidade, passe ao largo. Certezas? Mude, mude. Não, jamais apregoaria irresponsabilidades. É que a vida pede tanto que temos em demasia todos estes conceitos. Troque os antigos pelos recém-chegados, conceitos de nada como determinantes de tudo.
Leve a vida como conhecida de outrora, tal qual coisa lontana, como um quase que.
E no mais desejo a vocês as letras e os carinhos que tenho.
Insubmissa decido: não desejo nada a ninguém!?!
Construam seus votos e venham me contando até o último ano do dia do ano que vem.

Maria Odila

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quinta-feira, dezembro 01, 2005

Querido Papai Noel

Meu aniversário é em novembro, meio do mês. Comemoro há quase meio século sempre sabedora que depois dele, chega Natal.
Mas este ano, não sei... em outubro, panetones. Antes que mudasse meus anos, as ruas iluminadas, as árvores enfeitadas.
Mais que perdida, senti-me desarvorada.
Como Papai Noel saberá de mim se a hora ainda não é essa? Será que antes da época ele também lê as cartinhas? Ou será que preciso correr e fazer pedidos antes que perca o prazo?
Na dúvida, melhor pecar pelo excesso. Escrevo agora e escrevo em dezembro, novamente.
Querido Papai Noel.
Se o natal corre assim, sentir-me-ei mais velha mais rapidamente. E se os anos não cumprirem seu prazo de durar um ano, Papai Noel, como poderei decidir o que quero?
Rapidamente penso e escrevo, antes que o tempo seja senhor de mais senhores.
Desejo uma casa. Pequena não quero. Que vivam confortavelmente as meninas e eu, portanto 4 quartos se fazem necessários. Da sala, sentada, (quero sofá também que não tenho um há mais de 3 anos) quero ver o por do sol, essa novidade de todos os dias e á noite. Quero sonhar com a lua, namorada solitária, como eu. Quero saber que os carros andam, mas tão vagamente que sentirei os sons, não os verei. E que a casa seja ali pelos lados da rua Morás e apartamento, daqueles novos.
Depois da casa, queria pedir Papai Noel para que o senhor dê, vez em quando, uma espiada nos meninos. Andam tão perdidos da vida estes meus guris... Acho que é a falta do pai, mas como o pai está no céu com o senhor, pergunte que ele saberá como lhe ajudar, nos cuidados com nossos meninos.
Não sou de muito pedir. Como todos, adoraria quitar as dívidas que nem são tantas, mas aquelas corriqueiras. Devo atenção às meninas, devo mais trabalho às minhas outras moças, as que trabalham comigo. Devo cozinhar mais em casa, devo também ouvir mais a vida dura de Nice, a minha desordenada ordenadeira.
Devo ainda algum dinheiro para ter todas as partes do carro. A viagem que dividi em módicas muitas prestações e o aluguel que aumenta, aumenta...
Me deixe continuar recebendo o justo salário de todo trabalho que faço.
Gostaria ainda Papai Noel que o juiz do inventário acabasse com essa agonia. Segurar um morto por tanto tempo é no mínimo, cansativo.
E por quase fim, desejo Papai Noel não terminar sozinha os meus dias. Tenho as meninas, bem sei, mas elas farão suas vidas, seus amores. Tenho os meninos, mas estes há tempos estão em novas casas, fazendo suas outras famílias. Tenho pai e mãe e estes sabem... eu que saí fazer minha outra família.
O marido não tenho. Está bem aí, a seu lado, olhando as crias crescerem. Mas não será ele, Papai Noel quem me deixa assim sozinha? Vai ver continua ciumento, vai ver...
Não me dê namorado nem outro marido, mas conceda amigos sinceros, conversadores como eu, passeadores nas madrugadas e de tantas outras afinidades. E quando a solidão chegar, me dê o carinho das lembranças. Elas ainda me aquecem os olhos e molham as memórias
Mas se com tudo isso o senhor ainda achar que mereço me apaixonar, que seja logo Papai Noel que ando me sentindo tão sozinha...

Maria Odila

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segunda-feira, novembro 14, 2005

III

Moço, quase.
Carente, não diria.
Seco, talvez.
E adorava namorar.
Meia idade, ela.
Decidida, quem sabe?
Aprendia agora os nãos da vida.
E adorava namorar.
Não se encontraram.
Ela chegou cinco minutos mais tarde e ele três horas antes
Teria sido um caso, não fosse o desamor.


Maria Odila

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segunda-feira, outubro 31, 2005

II

Dizem que o dia finda nas tardes. Dizem, não sei.
Nas horas vespertinas ideogramo os sentidos, sentidos inexplicáveis, dissimulados e dúbios.
Nada fácil rever mistérios e deles fazer outro dia.
Lentos os regressos, antigas as felicidades.
Assim indago e pratico, descreio até. Novo dia não se pré-dispõem, não se deixa conhecer.
Dias novos almejam ser... dias novos.
Por isso acordo nos de sempre, acordo ontem.



Maria Odila

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segunda-feira, outubro 24, 2005

Continhos I

Eudóxia colecionava maçanetas. Mamãe, chaves. E por ser da família, fiquei com as portas.
Quando não tive onde guardá-las mudei para minituras pintadas e depois para quadros com portas. E finalmente passei a olhar portas. É mais prático.
Na rede, só fazia cismar. Por que portas? Nunca abri, nunca entrei, não sei qual o outro lado... Seria de alguém? Não ter resposta não me importa. Não ter as portas é como perder todos os botões de minha única blusa.
Receio, quem sabe? Melhor assim, sem camisa.

Maria Odila

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domingo, outubro 09, 2005

Meses

Janeiro

Os começos são sempre sérios, comprometidos e comprometedores. Arrumação cai bem. Usar terebentina acaba com os mofos... até aqueles d´alma.

Fevereiro

Antiga escolar agradeço... não tenho aulas, não tenho lição, meu santo dos estudantes em época de prova e reprovação, Amém. Essa parte... já cumpri.

Março

Todo março é de verão, lava-se as águas. Todo 19 quando chega, tem por santo um José. Todo italiano, se José, tem zépollos, bolinhos da devoção, às Marias.


Abril

Busca de felicidade, incerta, curta e intensa. E independente de ontens e hojes, duradoura, para o tempo que resolver resistir.


Maio

— Maio é mês de Cinderela.
— Melhor ter cuidado porque depois da meia noite ela dança.
— Tá errado cara. Depois da meia noite, vira plebéia.

Junho

Prometo nesse dia cumprir a lei. Não sei qual delas mas é bom que alguma seja assim lembrada, para ser cumprida, não necessariamente obedecida. Executada, somente.

Julho

Tralhas, roupas, memórias. Julho começa quando o semestre se renova. Não tenho o que deitar fora porque sou fora de guarda, descautelada. Fecho a porta do sábado, entro nos domingos e peço à vida que fique de fora.

Agosto

Decomposto, reposto, deposto. Fosse país e seria a guerra. Fosse gente, uma epidemia. Fosse eu, intestinas revoltas.

Setembro

Para desafeto, os desconhecidos. Para as idéias, a saudade das palavra e para mês, sempre o próximo.

Outubro


Uma sonatina deveria sempre começar em outubro. As promessas, descumpridas e os encantos mantidos. Ah Mozart... do,do, sol, sol, lá, lá, sol....

Novembro

Não quero morrer antes que consigam me matar, mas aniversários são assim, inovações d´eu com eu mesma e minhas todas eu. Algumas morrem, outras aprendem, outras ainda correm...

Dezembro

Sentimentos nunca vêm com garantia e o destino, qualquer seja ele, sempre vai a caminho do mar.


Porque os meses não precisam ir e vir, não têm pressa e nem solução. Meses são como as árvores... não há nenhuma que o vento não tenha oscilado.

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quinta-feira, setembro 29, 2005

La Noche Caliente

Nada de diferente neste convite... estava na Argentina representando o Brasil e fui informada que precisaria ir a uma festa Beneficente. Festas? A d o r o então concordei.
Estava sem meu tradutor mas portunhol... quem não entende? Convite tradicional, formal. Sondei o motorista e ele me disse
- La bruja, ah la bruja...
Claro, bruxa, finados, era um haloween, logo uma festa à fantasia. Fui me certificar relendo a invitaticion
El Gobierno... tarátátá... la Casa Rosada...(como se eu não soubesse o que é a casa rosada).. invitamos la señora Odila Goulart.. tátátá... La noche caliente...nem continuei a ler
Convite padrão. Prova do meu bom portunhol é que ontem tinha saído com Juan: ele conversando em frânces e espanhol e eu em português e quase italiano. Nos saímos muito bem. Quase entendi o que ele falava a maior parte das palavras troquei... mas isso é de somenos importância. Tinha certeza que me sairia bem na festa, mesmo estando sozinha.
A festa, no dia de finados ...e dos mortos também, como dizia minha avó italiana, era hoje.
E eu, atrasada cheguei na camareira e perguntei onde poderia alugar uma roupa de festa. Ou comprar uma hacienda - como vocês não sabem ensino, hacienda é fazenda em espanhol - porque se não encontrasse a fantasia eu mesma costuraria uma.
- Una fiesta? Hacienda?
- Ahãã??! Não! uma festa... hoje...Na casa... longe. É uma missão que recebi.
- Las Missiones? Hacienda? Su novio? Ah, su padre, su madre mira que barbaro
- Que missa que nada. Sem madre. Sem padre sem novo.
- Su padre? Novio? Bodas?
- Ô meu Deus do céu. Guria vê se me entende... Una fiesta, hoje, na casa da mulher aquela lá... rosada
- La Bruja?
- Isso, isso, onde posso alugar roupa?
- Mira que bárbaro. Hoy?
Falando comigo há tanto tempo e só agora lembrou de dar um oi? Por isso que a Argentina não vai pra frente, povo mais distraído.
HO-JE TE-NHO UMA FES-TA NA...
- Entiendo, entiendo. Na Recoleta ... su ropa..
- Tendi. E lá alugo?
- Alquilo?
- Kilo? Ai meu caramba FES-TA... A-LU-GUEL... entiendes? Como estava quase berrando com a moça achei melhor ir até o Boulevard. Pateo como falam... Shopping Center, hum! nem isso eles conhecem.
Fui e voltei de táxi porque estava sem paciência para esperar o moço da embaixada chegar.
Alquilei una fantasia linda. Decidi que seria a mais bonita da festa que estaria cheia de fantasmas e caveiras.. seria a bruja sensual.
Corpete preto, e meia rendada, saia rodada, presa do lado esquerdo na cintura, mostrando bem as pernas, saltos altíssimos, decotadíssima. Uma capa preta de fazenda transaparente e para finalizar um enorme chapéu pontudo, com véu... acabei misturando as fantasias. Meio bruxa, meio fada, mas tudo em Negro.. Queria ser a melhor. The Best. Primeira e única. Afinal, representava o Brasil nesta reunião argentina.
Oito em ponto desci. Pontualmente atrasada já que a festa começava ás sete e minha idéia brilhante era chegar atrasada só para ver o frisson do pessoal daqui.
O motorista me olhou de rabo de olho... eu sabia que estava ótima.. ele resmungou quedaste loca?... não disse? estava estonteante... o motorista confirmava minha ótima idéia.
Cheguei na casa Rosada... todos me olhavando... Não pensei que estivesse assim maravilhosa. Mas os olhares masculinos, estranhos, confirmavam o meu bom gosto.
Entrei ... e entrei maus... era uma festa black-tie para los carentes e eu, uma tola, ao ler La Noche Caliente achei que fosse uma festa a fantasia e associei a bruja do motorista com a bruxa de bruxa. Como ía saber que era esse o apelido da Presidente Isabelita?!?
Porque não me avisaram? O motorista e a camareira?
Tive que permanecer a festa toda sendo “comida” pelos olhos daqueles gáuchos tarados... que ficavam me dizendo:
ó se le gusta hacier una tonteria..
uma bruja? hoy? Vienga...
pero se le gusta tomar un trago en mi habitación..


se pego aquela camareira... mato o motorista

Maria Odila

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sexta-feira, setembro 23, 2005

Inventário de quarta

Cansada, às três da madrugada não consigo pensar em mais nada a não ser escalda-pé e massagem.
E dias, dias sem trabalhar. Com pés desdoloridos.
Mas bem antes falhei e dormi.
Dormi para acordar novamente em saltos altos.
Mas de hoje não passou.
Chá para os pés e de erva doce. Não sei bem se é do gosto deles mas para mim foi excepcional... até consegui andar sozinha pro banho...
E voltei pra cama quase arrastada. Incrível que pés doloridos signifiquem tanto.
Durante vinte anos, obedientemente, saltos nos pés, maquiagem e cabelos impecáveis. Um primorzinho de esposa para ser vista e pouco ouvida.
Mas aí veio a vida e estou viúva.
Também estou cuidando de outras como eu, quase 450.
E por isso os sapatos, os sapatos, a saia e os cabelos.
Creio que se chegar de tênis, jamais serei atendida no Tribunal. De calça nem pensar, não chego nem nas escadas.
E no entanto adoro esse meu trabalho, mesmo porque estou criando essa nova assessoria.
Mas não podia ser sem salto?
Seria mais crível... até para os amigos ouvirem minhas histórias.

Maria Odila

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segunda-feira, agosto 29, 2005


Meu querido

Hoje é quinta, dia de acordar mais cedo, dia da feira aqui na rua. Desde a madrugada os sons chegam, corriqueiros, algo indistintos. Os ônibus sobem a rua ao lado e eu a tudo ouço com preguiça de sair da cama.
Embaixo da nossa janela gritam os preços da banana e da batata.
— Porque banana e batata ficam lado a lado? Você perguntava, eu ria.
— Coisas da feira meu bem.
Acreditar você não acreditava, mas fazia sins com a cabeça e interrogações nas mãos.
— Cidade enervante, irritante, resmungava. Feira no meio do transito, ruas paradas e frutas com batatas...
Mesmo que não queira o despertador me chama pela segunda vez. Levantar neste frio... bem que poderia deixar de trabalhar em dias gelados. Infelizmente não encontrei até hoje chefe que pense assim, então levanto e mais cedo, porque é dia de feira.
Desci correndo.
As laranjas estão secas, as verduras murchas, por isso trouxe papaias e abacaxi, maçãs, pepino e aipo. Queijo não, porque ainda temos alguns e bolachas deixei para comprar no chinês ali da esquina. Não se esqueça que já desidratei a hortelã para teu suco. Estão na caixinha azul, terceira prateleira do frezzer. Os morangos estão lavados, e as batatas cozidas com a mandioquinha, ainda em cima do fogão.
Adoro sopas nas quintas.
Lúcio manda avisar que seu pastel de banana veio a meio termo hoje. O vidro caiu na perua que agora está perfumada à canela mas os pastéis, hoje, só açúcar.
Ovos vermelhos, grandes, nenhum. Alias acho que precisamos viajar para Minas, trazer doces e ovos de duas gemas. Como será que sabem que as galinhas duplicam as gemas nesse ou naquele ovo? Para mim isso sim que é enervante... loteria de ovos e gemas.
Mamãe fez seu bolo de fubá. Mandou uvas também. Já as meninas arrumaram a mesa e a sala. Não estranhe o excesso de flores... são todas para você.
Sua mãe e seu pai chegaram, cansados e mandaram lembranças. Marquei almoço com ele no clube. Espero que goste.
Quando acordar, me ligue. Prepare seu café que sai um pouco corrida.
Ah sim, eu que calcei suas meias, seus pés estavam gelados, gelados.
Boa quinta, meu bem querido. O pão deve estar quase pronto quando acordar. Deixei no forno fraco, só para ele acabar de subir e dourar. Desligue antes que eu novamente queime a casa.
Beijos
Maria Odila

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terça-feira, agosto 23, 2005

Constatações

Ficar viúva tem complicações, claro, regalias é que eu não sei.
Sinto falta, enorme falta de ter alguém com quem conversar. Tenho as filhas, mas são crianças que mesmo crescendo, continuarão filhas... e crianças. Coisa de mãe, penso, que tem nos filhos sempre seu contingente mais novo, qualquer seja a idade deles.
Espero que elas cresçam e cresçam bem, mas esta espera não tira o meu despovoamento das palavras.
Espero muitas coisas, mas enquanto espero, fico assim quieta, sem um alguém que me conte seu dia, sem dar meus contos para outro que não seja eu.
Então vou me fechando, até nas letras, até ficar sem sentindo. E fico mais e mais sozinha. Recolhida como diz um amigo
Não que me recolha, pelo menos eu não acho. Mas aquieto-me bordando, relendo o que gosto e vendo romantismo na tela. Só essa semana revi Hamlet seis vezes e em múltiplas versões.
Sim, sim, alguns açucarados quebram Shakespeare vez em quando.
Melhor criar novos campos de conhecimento, retruca novamente esse amigo. É, seria melhor... melhor se pelo menos eu soubesse o que procuro.
A vida é indistinta.
Solidão não vende livro nem dá prestígio, mas dói pra cacete. Já falar abobrinhas cansa mas parece ter algum retorno.
Não que eu esteja pensando em fazer ou vender livros... estava só pensando como é difícil não ter com quem falar.
Diz o mesmo amigo que isso é solidão. Não acho. É não ter com quem falar, oras!!
Mas meu amigo é teimoso e reitera – SOLIDÃO.
É porque ele tem com quem conversar. Mas já se sentiu muito só mesmo tendo e amando esse alguém.
E na verdade nem deveria falar nada... as pessoas não querem saber da sua solidão, diz aquele amigo.
A solidão é perversa e não perdoa a ilusão de se estar acompanhado. Das coisas que fala Paulo, esse meu precioso amigo.
Não há solidariedade entre solitários, outro de seus ditos.
Continuo dizendo... é complicado conviver, viver então...

Maria Odila

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quarta-feira, agosto 17, 2005

Passeios Italianos

I

Firenze.
Águas turvas, quase fétidas, que extraem memórias como gôndolas em tênues e curvos caminhos. Novamente alvenarias, nuas de braços que há muito esperam. Outra vez, outra vez... mudar... outra vez descontinuar.
Indagar, hesitar respostas. Diga-me o que quero que não te ouvirei jamais.
Acusa-me o peito, mãos esgarçam o decote, ansiosas. As pernas que descruzam, incomodadas.
Ontem houve inverno. Hoje, não.
Você saiu e eu ouvi.
Hamlets circundam, famílias que hei de não ter.
Heranças italianas.
Herdar... e deixar de ser a mesma.

Maria Odila

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domingo, agosto 07, 2005

Lendo Mario Benedetti

Não gosto da eternidade, do comprometimento do sempre, do nunca raivosamente escutado, do adeus eternamente dito. Pesam mais as palavras, o sentido a elas atribuído? Não sei, não gosto nem de ouvi-las.
Talvez suporte algumas mudanças; talvez a escrita, talvez o tempo que circunda e a arenga que o devolve.
Mesmo nas coisas, de igual modo com os sentidos.
Crio como meus os lugares, como incontínuas as águas. Acorrento os encadeados sentimentos, fluentes as dúvidas.
Pensamentos submetidos e vinculados.
Para fluí-los é mister fazer poços, na água e nos céus; furos no véu e nos ventos e escavovar redores, muitos redores. Cair livra-me dos aprisionamentos.
Havia um tempo, havia... habitavam em mim eu e meus sentimentos.
E então a vida.
Não sei ler, não tenho compromissos, vazo continuamente as posses.
Estou carente, carente de livros, carente de ser lida, carente de tentar, carente de ser Maria.
Vejo, leio Mario Benedetti... abro o livro e aprendo... as atas do rancor.

Maria Odila

As atas do rancor
Do livro "Perguntas ao acaso"
Tradução de Julio Luís Gehlen

Pouco a pouco o rancor vai me invadindo
animaliza minha anima lisa
me empresta garras iras maldições
me sobressalta a paciência boba
dá brilho ao ódio como para abutres
me põe em áscuas e ascos

abro o livro e aprendo
a história do rancor seus pormenores
seus desenvolvimentos e suas pautas
seus herdados instrumentos

Mario Benedetti

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segunda-feira, agosto 01, 2005

O dia que nunca...

A lua, que em Minas nunca é azul, aturde o céu, difusa.
Dizem que a lua não tem luz própria. Que engano... não sabem que a lua carrega destinos?! Leva-os, não porque queira, mas por incumbência do vento que os abriga, cioso, ora atrás das nuvens, ora trás-os-montes.
Convém a esta hora partilhar sortilégios, desalembrar de onde se partem os encontros, enumerar os silencios bissextos .
Restritivo, o dia em Minas lentamente se aquece de pretextos e passos. Olvida, sometimes.
O véu que aperta a noite, por lá carrega, cansado, minérios, mineiros, cismas e montanhas. Espreguiça em Minas seu lavor depois de escurecer o sol e esclarecer a lua.
Indistinto o dia passa, como passam pelas estradas muares, enxaquecas, sabendo que ao norte, o cristo, sempre ele.
Minas é de Gerais idiossincrasias, subterrâneos misteriosos, rios cercados em águas.
Lá estava, lá fiquei, sentei, li e reli, perdida nos dias.
Fosse o que fosse, meu ar é um Pessoa, Fernando ou Alberto. Diria José, até assim, Ricardo. Como toda saudade é um cais de pedra onde os encontros não se fazem.
Nada acontece em Minas. Nada se deixa acontecer... nas minas.

Maria Odila

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