O vermelho de José
Tenho dormido tarde.
Não fosse o medo... acho que é assim que realizo o tempo em mim, construindo o espaço de existir.
E então, afrontada pela fadiga, quando olhos e corpo pesam, e tomada de tristeza, saio das letras lidas e caminho para a cama rumo as letras sonhadas. Não sem antes vagar casa à cata de fantasmas, que não sei onde tranquei. Ando sem fantasmas.
Tenho um ritual que religiosamente desobedeço. Sozinha, sento-me. No chão. Dele, subo para a cama. Desolada, rosto no braço, apoio a mão entre as pernas dobradas. No peso do dia, escapo e me prendo.
Cansada, a mão de escrever cobre os olhos, fundos de secas seqüências.
Arrumo os travesseiros, encosto. Não consigo dormir. Mudo a música. Desligo. Ligo de novo. Sento, recosto, encosto e coisa nenhuma. Até febril sinto. Nada muda. Noite após noite procuras, todas.
Deito na cama onde sempre quis que você estivesse. Lembra-me pedra, teus braços me chamando, recostado na parede.
Mas recordo, toco o volátil que faço a frente e enterneço. Penélope chamo os fios de Ariadne, para ser perdida em labirintos. Faço e desfaço nas vezes da espera, de ver Ulisses.
Triste, deito. Puxo as cobertas. Sem que ninguém veja, tiro de dentro dos panos a camisola vermelha. A que primeiro viu, a que mais molhei.
Amar pode ser bom, mas não é importante.
O gostar feminino é como as águas. Mulheres são o mar, abertas. Homens, águas escondidas, águas de bicos, amarelos, montanhas de gritos. Perdidos.
Gosto quando fico com marcas tuas em mim. São elas que me dizem que esteve, tomou posse, e ficou mais tempo do que deveria ficar
Encosto no rosto a camisola que perfumei.
Adormeço. Só assim não acho os fantasmas que encontrei em você.
Só assim, escondida, retorno as águas de onde, vênus nebulosa, saí sem ter sabido.
Digressiva Maria
digressões atemporais, sensibilidades, letras e o que mais vier.
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