quarta-feira, março 17, 2004

Transitiva.


Janeiro, pelos ocidentes de cá, versa com água, ainda que sem rimas.
Infestação de chuvas, anoiteceres rápidos em dias ensolarados, trovões acordantes fazem assim o tempo verão. Do solstício ao equinócio.
Com toda essa água, no norte é a estação das secas.
Sinto que o meu verão é meio nortista. Por mais que a água queira me lembrar de amores, calmos e sem remorsos, é esta a mesma água que me deixa ir. Nem abstrato, nem desesperançado, meu amor em estado latente de apavoramento, supera até as águas de março e reserva-se.
Não há quem não tenha ouvido falar do amar. Mas há quem não ame.
Sou dos leves gostares que de tão leves fazem ficar. Ficam em ventos. Alíseos, pacientes, evaporam-se no inverno. É a pressão do contato.
Nem tão serena, anseio por um outono onde quem sabe, amores terríveis aconteçam, incompatíveis com meus verões e primaveras. E é então que lembro a ordem das coisas. Primavera, verão, outono, inverno. E descubro a inconciliável causa do meu coração espartano. Que perde batalhas, não ganha guerras, mas teimoso, segue em frente.
Há uma concordância explícita que o prazer é controverso. E por não saber amar ofereço-me para cultuar as infelicidades da caça. Os prazeres.
E quando em inverno, floreio primaveras, pintadas de escaldantes veranicos, que ao chegar do outono, repousam, vivas, em estrondosos amarelos esperançosos de vermelho.
É do rubro que se faz o amor.
E por deixar passar, sigo a ordem das coisas. Procissão de reza, estação de madalena. Implorar a nada leva. Verão, outono, inverno, quem sabe um dia pule a primavera e desponte amante.
Quem sabe?


11.2.2004

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