quinta-feira, abril 29, 2004

Quartas maléficas


Honestamente garanto que a raiva é branca. Pálida do ódio, lívida do pavor e translúcida da malevolência.
O engano é decepcionante. Não mais que o normal, mas é. Em todas às vezes, desgastante. Passei parte do dia curtindo minha ira. E o único mantra que me vinha à cabeça era –
preciso bater em alguém,
preciso bater em alguém.

A razão do mantra é dolorosa. Há precisos 365 dias atrás minha filha mais velha foi capotada, três vezes, num acidente onde foram perdidos o carro, postes, farol, a paciência dessa mãe e a inabilidade de um irmão mais velho. Que quase matou a irmã com suas loucuras pós –adolescente.
No hospital, deitada, minha filha. Imobilizada pelo colar cervical, sua preciosa calça Maria Bonita-Extra estraçalhada, só um dos brincos, a faixa de crochê por mim feita, sumida. O rosto repleto de micros cortes, todos sem sangues e ao mesmo tempo com minúsculos pedaços de vidro e a urgência em saber dos danos — se eram ou não intensamente graves.
Eu, preocupada, afinal uns 14 meses antes atestei, lá, o óbito do marido.
Outra morte?
Outro velório?
Mas nem nunca que eu deixaria acontecer. Entrei, autorizado ou não, entrei. Onde ela foi, junto fui levada. Em momento algum deixei essa menina sozinha.
E depois de exames, dores e preocupações ela me chama e diz, chorosa:
— Mãe, quero sair daqui.
— Não pode filha. Não disse mais nada. Estava fazendo um esforço enorme para não cair em choro.
— Mas mãe...
— Filha, olha, por favor, mamãe tá aqui com você. Vamos agüentar juntas está bem?
— Tá mãe. Ela é doce essa minha menina.
— Mas mãe... e ela me chamou mais perto e disse... mãe, tô com tanta raiva, mãe, tanta raiva... mãe, arruma alguém pr´eu bater?
Na hora achei que era nervosismo dela.
E depois porque tudo segue a vida, isso virou brincadeira aqui em casa.
Mas hoje entendi bem a raiva da minha guria.
É a impotência do acontecido. O injuriamento da confiança e o desespero da decepção.
O processo me fez uma mãe indigna. Desastres de um saber atrapalhado, inepto creio, causado por outrem. Madrasta, sou a viborenta para minhas filhas.
Assim me fizeram.
Assim me sinto, ainda.
Os ventos são sempre presentes em todas as praças centrais, em todos os ocasos jurídicos, em todas as decisões nevrálgicas. Hoje não foi diferente.
Como o vento, o mal-feito rápido chega. O desfeito pode até aparecer. Mas não na primeira página.
Desculpas não merecem manchetes.
Dores injustas não vendem jornais.
Ela tinha razão.
Eu também queria bater em alguém.



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segunda-feira, abril 26, 2004

Definitiva somente a certeza de ter trocado o dia pela noite. Mesmo apreciando muito a madrugada, sei que o sono funciona bem melhor no escuro que no dia claro. Pelo menos foi assim que avós e mães nos ensinaram.
Devo ter feito a inversão de obstinada que sou.
Razão, sim, penso que existem algumas. Factíveis até. Anteontem fui intimada. Uma reintegração de posse.
Coisas da lei brasileira. Devo entregar um imóvel que não habito há meses e prestar conta de documentos que não possuo.
Acho incrível como em momento algum fui chamada à colação. Coisas jurídicas, coisas que hoje pouco entendo.
Minha primeira providência, feminina, foi caminhar à geladeira. Mas um antigo aviso ali grudado de Vale a Pena? funcionou. A segunda, tipicamente masculina, foi enfartar. Real ou não, pouco importa. A dor aguda no braço esquerdo que vem, irradia, sobe e aperta o peito, me pegou certeira.
Infelizmente, no meu caso, dores trazem lembranças. E a memória próxima passada se disse presente.
Nessa outra casa que não mais é minha, aliás, nunca foi... naquela outra casa... cheguei a ser. Pensei que sim. Fiz meu porto em terra alheia esquecendo que é em mim que devo criar raízes.
Tive livros, mais de mil, bem mais que mil os meus livros. Que o tempo pediu a venda. Fiz música e lá deixei. Os anos foram vergando os dedos e ressecando as teclas, outrora travadas. Tive até uma bateria e a lembrança de aulas no Clam.
A posse pede, cobra. Mas ter é meio caminho de perder e deixei sim, com gosto e vontade, esperança, estima e devaneios.
Como podem pedir, agora, reintegração de fatos? Posse e propriedade?
A casa, bem, não vivo nela há tempos. Os documentos, estes, foram idos em fogueiras da vaidade, feitas nos quintais da casa, pelo falecido marido, a cada ato de insubmissão meu.
A emoção me leva a ser quase maria. Lembro minha avó Madalena dizendo que na dúvida melhor refazer o caminho e voltar ao fundamental.
Voltei. Voltarei.
Tem razão o Oficial de Justiça quando me pede a casa.
Ando vagando, só, sempre descompassada, perpetuamente em retiro.
Preciso reintegrar a minha posse, examinar meus documentos, cuidar das intimações e fazer o que deve ser feito.

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sexta-feira, abril 23, 2004


Um tema, sempre o tema.


E enfim, parece ser este, sim, o meu destino.
Meiga.
Depois de assim ser chamada, pela quinta vez, em menos de dez minutos, vejo-me obrigada a acreditar.
Mesma coisa precisei fazer em relação a ser brava. Esbravejava ao me ouvir assim, o que só corroborava o bravejamento.
Faço literatura. Que ás vezes é realista e sou eu mesma a me mostrar. Em outras, sou eu mesma a me dar existência.
Bordo para as filhas. Linhas que contam histórias, cores que amadurecem e um desejo que elas se criem em suas próprias felicidades.
Não adianta reclamar que vivo no mesmo tema.
Vivo.
Um dia, e sabe-se lá em qual deles, mudarei.
Pelo menos espero.
Enquanto isso, escrevo, esperneio, me recuso a ir em encontros escolares... mas pelas filhas, hei de tudo. E quem sabe, um pouco a mais.
Meiga? Não creio.
Brava?! Prefiro quando me chamo — decidida!
Honesta? Ah, sim. Sempre. Pelo menos porque é mais fácil, mais honesto.
E no mais, continuo na paixão por escrever, na procura e sempre à espera do encontro.
De que ou de quem, nem eu, que sou mais boba, ouso arriscar comentários.

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terça-feira, abril 20, 2004

Li outro dia Ana e seu auto retrato inspirou-me outro.
Agora, com seu consentimento, coloco-me aqui.


Quem sabe, seja eu.

Talvez, apenas talvez, escrever seja um vício. E quem sabe, minha imperfeição.
Talvez — e quem sabe das incertezas? — eu goste de ler. E além de ler, aprecie este caminho incerto que é o tempo.
Entretanto, nos concertos que faço, toco. Músicas, inclusive.
Hortaliço meus comeres mesmo quando não tenho fome.
Inconstante e des-regrada, sigo trilhas, verdadeiras, entre vida e viver.
Um dia irei a Minas. Um dia conhecerei Portugal e outro dia, amanhecerei em Firenze.
Amo, claro. Só não sei a quem.
Preciso disciplina, corretivo, consertativos.
Talvez, me conhecer.
Talvez entender que preciso, é de mim, me desfazer

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sábado, abril 17, 2004


Sob medida


Se você crê em Deus
Erga as mãos para os céus
E agradeça
Quando me cobiçou
Sem querer acertou
Na cabeça
Eu sou sua alma gêmea
Sou sua fêmea

Acordei assim, perfumada de festa. Sem ressaca, sem dor. Um acordar terno como há muito não lembro ter.
As pernas, uma esticada e a outra flexionada, joelho quase na altura da cintura. De bruços aproveito o final escuro do quarto, quase iluminado pelas poucas nesgas que o sol teimam em mandar pelas frestas de fim de festa. O rosto, amarfanhado, muda de lado tentando fugir dessa irritável claridade matutina. Espreguiço os braços. Involuntariamente ainda estou contraindo as pernas e mexendo a pélvis. Um quase calor me sobe entre os poucos pêlos.
Por instinto bato a mão no travesseiro ao lado. Sozinha. E nua.
Ótimo. Ótimo?!? Nem tanto. Achei ter dormido com alguém.
Pensando bem estou sim, com uma baita ressaca. Enxaqueca de vida, de veto...
Sou perfeita porque
Igualzinha a você
eu não presto,
eu não presto,
traiçoeira e vulgar...

Incrustadora ressaca, imagino. Letras que me comem. O espelho sem reflexo e a luz que se encerra. Quarto escuro, benção renovada. Ando cansada de me ver em espelhos alheios. Cansada de me ver em outros, essenciais, ou, aqueloutro que freqüenta minha cama.
Esta falsa calma de agora oblitera meus reflexos, que não são suaves. Como minha pele, parecem reais. E sou avessa a realidades. Nem as boas novas me fazem satisfeita.
Tempo, almejo. Sentir as pernas, mexendo, morosamente. Ginga de quadril solitário, atritado no lençol, infelizmente macio, aveludado por minha pele. Deste jeito, largada na cama, próxima, de bem com a vida, me esfregando em meu desejo e sou quase feliz.
Não quero me tocar, não tenho ninguém para me mostrar. Excitada, nua, ocupando a cama, ocupada na cama. Hoje não estou com essa vontade. Queria um homem, qualquer ele.
Queria aquele no qual me reflito ontem.
Necessidades do corpo. Obrigatório levantar. Antes fosse tesão, mas é xixi do remédio. A idade leva a isso...
Mato o maldito que virou o espelho para cá!
Coisa pior que se ver sentada, mijando, não há. E no entanto... gostei. Levantei dali direto para o chuveiro. O espelho estava no caminho. Nua, pernas inchadas — quem manda dançar nos saltos altíssimos — cara amassada. Mais próxima pude ver os olhos escurecidos pelo rímel, borrados de Lancôme, os cabelos desfeitos... dormi com um brinco. Onde estará o outro?
Nada consegue fugir a uma manhã solitária.
Mulheres quando vão ao espelho costumam encontrar rugas, peitos caídos, bundas estriadas, coxas de celulite, inconformidades etárias, plásticas mal feitas. Isso nunca me incomodou. Sou virgem destes espelhos. Prefiro outros, que desvelem e não revelem. E eu que não aprecio me ver, enxergo nos outros os reflexos que gosto.
Sinto falta de partos que jamais farei. Sou mãe de filho que parido, não nasceu. Mãe de mim. Os seios, queria-os mais caídos, mais usados. Faço neles a ausência do filho. Queria ser magra para ter menos dores a sofrer. Gorda para suportar melhor a angústia.
Minhas verdades, pavorosas, são descobertas em outros olhos, nunca os meus.
Quem sabe perca a alma se me encontrar no espelho? Quem sabe seja uma Alice do lado de cá? Quem sabe fugindo sempre para fora?
Não sei me ver sozinha, acho que nunca soube. Os condicionais, todos próximos. Vivi assim, quase sempre perto e nada mais longe. Nunca nos finalmente, nunca completamente, nunca nunca. Sou perto de jamais ser.
Bacante de minha inconformação feminina, frente ao espelho.
Algumas vezes penso se queria ser bonita. Nem pouco nem muito, bonita somente. Sim, sou a linda dos homens que passaram por mim. Ter, nunca tive. Nenhum. Possuir uma pessoa é responsabilidade demais. Por isso meus homens continuarão passando por mim. Continuarei nua andando pela casa com medo de me ver nas paredes que não me enxergam e nem conseguem me espelhar.
Amar me desgasta.
Muito pensar e só um, o banho. Saio sem toalha. Odeio me secar.
Sento na frente do espelho e olho a maquiagem. Melhor ser a usual. Olhos pretos que pretos refletem. Os braços nus sobem a meia que não uso. As pernas entram nos saltos do sapato preto. Coloco o vestido sob a pele nua.
Para que subterfúgios se não vejo nada?
Em preto me recolho e em preto fico. Mesmo sendo de branca angústia e vermelha agonia.
Desta carente solidão onde acabei me aprisionando, o reflexo de meu espelho.

Traiçoeira e vulgar
sou sem nome e sem lar
sou aquela...
Se você crê em Deus...
você tem o amor
que merece

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terça-feira, abril 13, 2004

escrevendo


Como Ariadne, espero Teseu matar o minotauro e sair do labirinto.
Como Penélope, ufano as velas de Ulisses e bordo todas as noites o que o dia desfez.
Como mãe, espero que as filhas cresçam.
E como mulher, sento, crio, desconserto e choro
Nenhum destino a mais, nenhum amor a menos

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sábado, abril 10, 2004

Não gosto de enterros, muito menos de despedidas, mas vou num e faço o outro sempre que necessário. Enterro meus mortos até o fim. Velo os que gosto e visito, formalmente, os necessários.
Me recuso a dizer meus sentimentos. São realmente meus e deles só eu sei. Por isso, se não sinto, não digo. E se sinto, não falo.
E é bem assim que gosto de levar e ser levada. Pela vida, kismet selecionado.
Não contava com os imprevistos. Ficar viúva, um deles. Cansei de dizer que não pedi para ficar viúva. Desnecessário dizer, não me ouviam. Vivem a viuvez como doença contagiosa, perigosa e epidêmica.
Sexta-feira de quase páscoa e resolvo, porque é a época do renascimento interior, abrir seus guardados.
Seus pertences, ternos gravatas e camisas, imediatamente após sua morte, foram retirados pelo irmão que se nega a sentir dor. Morrer, para ele, significa, até hoje, nunca existiu. Em dois dias ele finalizou com qualquer você que ele encontrasse pelo caminho. As crianças ficaram com as fotos, que eu tinha, e nada mais. Nenhuma peça, nenhuma relíquia, péssimas lembranças.
Sexta, madrugada de sábado, e acho que chegou a hora. Nunca disse a ninguém que todos os seus arquivos estavam aqui. Quando vi a desolação que ficou a casa, quieta, separei em pastas todos os teus papéis, que estavam aqui e ali, e juntos, guardei-os para mexer não sei quando.
Chegou o quando e sozinha, sentei para ver o que devo fazer de suas memórias.
Você guardou meus bilhetes de namorada... eu nem sabia. Separei na caixa verde. Caixa para pensar o que fazer. As contas, direto no saco preto, lixo. Rasgadas, picotadas, como era a sua vontade. Os impostos? Mesmo caminho. A jurisprudência me reservo o direito de ler mais tarde. São cansativas, para mim, até hoje.
Não larguei à toa meu curso de direito... entendi melhor seu trabalho mas, por outro lado, desisti com a certeza de não estar perdendo nada de importante para mim. Meu direito era você.
Encontrei o registro do nascimento das crianças, nossos termos de adoção das meninas pequenas, a receita da sopa do nosso primeiro. Uma das muitas fraldas que amarravam as pernas do segundo, para que sozinhas fossem formando sua bacia. Os primeiros cachos loiros da filha, que hoje é morena. Com algumas mechas que, tenho certeza, você não teria autorizado. A pulseira do hospital das duas molecas e, para lerem depois, o processo de adoção das meninas.
Brigamos muito com isso. Você não admitia que eu falasse em adoção perto delas. Quero te dizer: elas estão ótimas, e sabem, não só da adoção como adoram ouvir as loucuras que fiz para tê-las rápidamente perto da gente.
E encontrei uma senha. Fui ao seu micro e escrevi. Abriu como cascata, pastas, documentos. Três novos livros que deixarei para as crianças. Elas saberão o que fazer...mais tarde.
E vi cartas, muitas cartas. Em momento algum achei que fossem para outra pessoa que não eu. Por isso fui abrindo-as. Mas eram. Falavam de um marido que jamais imaginei. Coisas novas. Diferentes. Dolorosas.
Imprimi a primeira só para poder rasgar. Apertar a tecla delete era pouco para meu ciúme e raiva. A segunda que abri. Com três meses de diferença da primeira, marcava um encontro. Não quis saber. Pulei para o outro ano.
O nome havia mudado.
Voltei, já atordoada. A primeira era R. e a segunda, S. Oras se sou Maria, de onde saíram tantas letras diferentes? Continuei, soluçando, com essa busca tardia. Busca besta, a bem dizer. O que posso fazer agora, dois anos depois que morreu?
Se berrar muito alto acordo as meninas. Se sapatear, o vizinho de baixo reclama que não o deixo dormir. Mas a curiosidade, essa, me fez querer saber mais. Como se fosse possível novo sofrimento, dois anos depois.
Continuei lendo, abrindo e-mails, chorando. Para acompanhar. Resolvi tomar um scoth. Abri seu rótulo preto. Só para misturar com guaraná. Não nasci para whiskies, mas sim para vinhos. Abri um Udurraga. Acabei logo. Segui com aquele Côtes du Rhône que gostava de tomar quando ouvíamos Jazz. Que sempre achei uma coisa só nossa. Quando leio que pretende levar a quarta letra, a letra F., para ouvir jazz no All. Ah, juro homem, que meu sangue ferveu. Joguei da garrafa pela janela, mas arrependida, corri ver se não tinha machucado ninguém. Às quatro da madrugada realmente ninguém se apossa daqui. Se tu queria briga era briga que teríamos.
Abri a Cristal e joguei na mesma janela por onde mandei o vinho. Peguei da viúva, a Robert não a Clicot e também deitei janela abaixo. Os moços que na rua dormem, agradeceram meu acesso raivoso. Irritada com tantos nomes femininos em seus arquivos, pachorrenta, desci, madrugada mesmo, caixas e caixas de vinhos, uísques e pingas que fizeram meus homens de rua cada vez mais felizes.
— Agradeçam a ele, e apontei o céu, e não a mim.
— É a Páscoa, disse um deles, Deus morreu e tá chorando pinga hoje.
Não tive como não rir... ri, voltei pra casa e tranquei bem a porta. Você não me sai mais daqui até me dizer o que é essa profusão de letras femininas pulando em meus dedos.
A campainha toca. Horário estranho.
Era o Márcio, da padaria, querendo saber se eu realmente tinha dado aos moços toda aquela vinhataria.
— Por enquanto estou dando só os vinhos, respondi grosseira.
— Se for dar mais alguma coisa me avise, que atravesso a rua antes deles... ele riu, pobre Márcio.
Retruquei — Agora só dando o rabo.
É... estava brava. Não sou de responder e abomino as grosserias.
— Se for dar esse aceito também, respondeu Márcio. Ai desci, ou foi ele que subiu, mas estávamos rindo e tomando vinho em alguma hora que nem me dei conta.
Contei a ele da traição pós túmulo.
—Dona Maria, o falecido já faleceu mesmo, liga pra isso não.
— Você nunca teve marido, Márcio. Não sabe o que é isso.
— Ah, dona Maria, marido não tive não, mas esposa já tive algumas.
— Algumas, Márcio? Mas não quis saber. Hoje só me interessavam aquelas letras femininas. Em outra hora que também não sei predizer, ele estava mexendo no computador. Me chamou, sentou-me com cuidado e foi lendo uma enorme carta.
Uma despedida. Querendo morrer e não sabendo como, querendo deixar a pensão e sabendo que não poderia se matar, o falecido começou uma jornada à cata de doenças. Com tantas mulheres, conseguiu nenhuma doença, nenhum problema. Diabético que era. deixou escrito que começava ali o final do seu destino. Seu Beshér, destino, judaico-cristão. Aumentando a bebida, açúcares e outros proibidos. Realmente. Um ano após seu kismet literário, faleceu.
Suicídio voluntário sem arma e sem sangue.
Márcio pode até se consolar. Eu não.
Enterrei definitivamente o falecido quando cheguei na letra Z. Mulheres meio honestas não têm nomes começados pela letra .
Márcio desceu, deixei a porta destrancada. Não quero nunca mais que fiques aqui por perto. Saia que a porta está sempre aberta. Não tranco mais viva alma comigo.
E sua memória, deletei pela tecla FODA-SE.
Amanhã volto ao luto, que não curti. Ao preto que adoro usar. E à condição de viúva. Que atrai mais moços que mel e perfume.
E tenho dito... tenho...

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terça-feira, abril 06, 2004

LOBOS

Minha memória de fadas sempre foi do contra. A história preferida é a do menino que vivia gritando lobo, lobo, lobo até ficar desacreditado. E, quando o verdadeiro lobo apareceu... na verdade não lembro direito o final da história, mas sei que o lobo apareceu.
Lobo é o que tenho sempre comigo. Lobo duplo já que até no nome sou Lobo. Lobo de mim, Lobo para mim e um Lobo afim. Lobo, não Loba. Sou de muitos eus aqui. Femininos e masculinos. Tudo o que existe fora, sei que tenho cá também.
Sou Lobo porque sou carnívora. Placentária de mim e dos meus, nasci e criei. De calor próprio, sem luz de estrela, vejo no frio da Lua a felicidade e no Sol mero ideal. Seres do dia que ladram ao chegar da noite. Lobos.
Como alcatéia sei dos grupos de viver. Um teto, família qualquer e indivíduos de tronco, circulantes em cores e sentidos. Espécie de uma desorganização sistêmica, ilimitada, endêmica e que no caos sempre vê ordem.
Tal qual o menino das fadas, fui comida pelo Lobo. A cada sexo uma paixão e a cada amor, outra morte. Não adianta lembrar da história. Muitas mortes vividas, poucos retornos, sentenças fechadas, portas quase entreabertas. Passagens. Predileção por administrar peçonhas.
Da maneira deles, caço em bandos, sou de várias formas, pelo e porte. Causo estragos e desapareço. Tenho hábitos noturnos e uivo ao acasalar. Faço de mim minha própria e única cadeia alimentar.
E como em todas as lobo-histórias, ando pela floresta, me fiz de carneiro, não curto os porquinhos e dos caçadores faço escova.
Escova de pelos, peles de Lobo.
Desordem ética. Escrita alfabética.

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domingo, abril 04, 2004

Teimosias literárias

Odeio Joyce. Ele escreveu Ulisses. Sim, é verdade. Não posso culpar o homem por isso. Levo horas para descobrir que não o odeio tanto assim já que amo os dublinenses.
Amo o Trevisan. Não o vampiro de Curitiba mas o João Silvério. Dele li dois contos, ouvi dois outros rezados por ele e nada mais. Amo não só Joãozinho como sua escrita. E nunca o li.
Minha leitura de alcance de mão é Shakespeare, que vive mais espalhado pelo quarto. E, como dizem as filhas, existem mil copias do bardo pela casa. Gosto tanto deste homem, que lembro de Pórcia, Much Ado About Nothing, que gosto muito mais assim, em inglês, e dos outros mais, preciso sempre parar para pensar.
E do enorme desassossego, tenho só quatro. Um, histórico, de meu avô; um que ganhei, outro da brasiliense e o último da Cia das letras. Fernando é Pessoa que não me canso de reler. Mas paixão? Paixão tenho pelas cartas. Dele com Ofélia, até.
Aliás são das cartas o local mais diferenciado entre os livros. Só o local. Vivem a meu lado, na enorme cama-escritório.
Abaporu não me desce. E é incrível como as cartas de Tarsila a Luis Martins me fizeram rever aquele amarelaço que não amo. Mas já engulo...
Sou “A” rainha da mitologia. Inda ontem dizia que quem mandou construir o labirinto foi Menelau esquecendo que Helena, a de Páris e do pomo, foi sua esposa e que, no ouro, o rei era outro: Minos. Pai de Ariadne, a do fio, de Teseu e das teias. A tecer seu eterno abandono. Não, abandonada? Essa não era Penélope, a musa, que tecia os fios da vida?
E como brigo, Marx que não me desculpe, com o mais valia que pouco vale no trabalho intestino e feminino, entre paredes e filhos. Descobri, como sempre, bem fora da época, que Lafargue, o tal do ócio, era genro do homem. Domenico de Mais que se cuide. Suas entrevistas, seus livros ainda estão na pilha dos que devem ser lidos.
Coisas de doidivanas, coisas do esquecimento coisas de maria que sou e sempre serei.
Saber, eu sei. Só confundo com a convicção da certeza.

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sábado, abril 03, 2004

PICASSO para Theo que adora Klee

Ontem acordei para ver Picasso.
Da fase azul, melancólica até a rosa, cálida e aconchegante. Das intensamente queridas seis esposas e odiadas e monstruosas mulheres, quando des-amadas. Vi Picasso. Um genial vampiro, mas como homem...homem!
Vi muitas coisas que gosto. As cores, um gênio em ação. Comprei lápis. Adoro estes lápis de exposições várias. Diferentes em suas concepções externas mas básicos lápis pretos.
Tenho do MoMA, caríssimos no comprar, mas bem ao gosto que vale muitas vontades. Do MAM, paulista, suburbano Ibirapuera, sofisticado em suas lojas centrais. Meus dois Napoleão, um vermelho e outro verde, estão amarrados, fio dourado, que me lembram de pobres Josefinas, amadas e repudiadas.
Pensando bem, meus lápis levam na vida uma história hachureada de mulheres. Sombreadas, exibidas, conhecidas, pouco perdidas. Mulheres.
Não quero mais ver Picasso. Ando com um genial genioso à cote de chez moi. Não tão à cote como gostaria, mas um aparecente. Melhor ter, por gênio, só os conhecidos, escritos a lápis preto, comuns, não tão apagáveis, mas que fazem meios-tons nos trabalhos e no coração.


antigo de 7.3.2004

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sexta-feira, abril 02, 2004


Marotíces


E se o verdadeiro fosse o necessário?
E se o homem certo fosse o homem errado?
E se todos os dias fossem iguais?
E se muitas outras coisas eu fosse pensar, poderia descobrir que em tese, você não me ama. Que na prática, me deseja. Mas que na realidade tens medo e do medo, não quer fugir.
Descobriria então , que as descobertas, quando não bem-vindas, são nefastas.
Ah, como os dias cansativos são entediantes.

antigo de 26.2.2004


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Á você

Quando me ligou não pude atender. Estava no quintal jogando fora um pouco de mim.
Se achar, passe ao largo. Não pretendo ser encontrada. Mas se insistir em me descobrir, devolva-me a terra.
Quero eu mesma me desfazer.
Atinar deve fazer parte de mim.
Portanto. Novamente peço.
Se passar por mim, não aporte.

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