Definitiva somente a certeza de ter trocado o dia pela noite. Mesmo apreciando muito a madrugada, sei que o sono funciona bem melhor no escuro que no dia claro. Pelo menos foi assim que avós e mães nos ensinaram.
Devo ter feito a inversão de obstinada que sou.
Razão, sim, penso que existem algumas. Factíveis até. Anteontem fui intimada. Uma reintegração de posse.
Coisas da lei brasileira. Devo entregar um imóvel que não habito há meses e prestar conta de documentos que não possuo.
Acho incrível como em momento algum fui chamada à colação. Coisas jurídicas, coisas que hoje pouco entendo.
Minha primeira providência, feminina, foi caminhar à geladeira. Mas um antigo aviso ali grudado de Vale a Pena? funcionou. A segunda, tipicamente masculina, foi enfartar. Real ou não, pouco importa. A dor aguda no braço esquerdo que vem, irradia, sobe e aperta o peito, me pegou certeira.
Infelizmente, no meu caso, dores trazem lembranças. E a memória próxima passada se disse presente.
Nessa outra casa que não mais é minha, aliás, nunca foi... naquela outra casa... cheguei a ser. Pensei que sim. Fiz meu porto em terra alheia esquecendo que é em mim que devo criar raízes.
Tive livros, mais de mil, bem mais que mil os meus livros. Que o tempo pediu a venda. Fiz música e lá deixei. Os anos foram vergando os dedos e ressecando as teclas, outrora travadas. Tive até uma bateria e a lembrança de aulas no Clam.
A posse pede, cobra. Mas ter é meio caminho de perder e deixei sim, com gosto e vontade, esperança, estima e devaneios.
Como podem pedir, agora, reintegração de fatos? Posse e propriedade?
A casa, bem, não vivo nela há tempos. Os documentos, estes, foram idos em fogueiras da vaidade, feitas nos quintais da casa, pelo falecido marido, a cada ato de insubmissão meu.
A emoção me leva a ser quase maria. Lembro minha avó Madalena dizendo que na dúvida melhor refazer o caminho e voltar ao fundamental.
Voltei. Voltarei.
Tem razão o Oficial de Justiça quando me pede a casa.
Ando vagando, só, sempre descompassada, perpetuamente em retiro.
Preciso reintegrar a minha posse, examinar meus documentos, cuidar das intimações e fazer o que deve ser feito.
Digressiva Maria
digressões atemporais, sensibilidades, letras e o que mais vier.
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