terça-feira, abril 06, 2004

LOBOS

Minha memória de fadas sempre foi do contra. A história preferida é a do menino que vivia gritando lobo, lobo, lobo até ficar desacreditado. E, quando o verdadeiro lobo apareceu... na verdade não lembro direito o final da história, mas sei que o lobo apareceu.
Lobo é o que tenho sempre comigo. Lobo duplo já que até no nome sou Lobo. Lobo de mim, Lobo para mim e um Lobo afim. Lobo, não Loba. Sou de muitos eus aqui. Femininos e masculinos. Tudo o que existe fora, sei que tenho cá também.
Sou Lobo porque sou carnívora. Placentária de mim e dos meus, nasci e criei. De calor próprio, sem luz de estrela, vejo no frio da Lua a felicidade e no Sol mero ideal. Seres do dia que ladram ao chegar da noite. Lobos.
Como alcatéia sei dos grupos de viver. Um teto, família qualquer e indivíduos de tronco, circulantes em cores e sentidos. Espécie de uma desorganização sistêmica, ilimitada, endêmica e que no caos sempre vê ordem.
Tal qual o menino das fadas, fui comida pelo Lobo. A cada sexo uma paixão e a cada amor, outra morte. Não adianta lembrar da história. Muitas mortes vividas, poucos retornos, sentenças fechadas, portas quase entreabertas. Passagens. Predileção por administrar peçonhas.
Da maneira deles, caço em bandos, sou de várias formas, pelo e porte. Causo estragos e desapareço. Tenho hábitos noturnos e uivo ao acasalar. Faço de mim minha própria e única cadeia alimentar.
E como em todas as lobo-histórias, ando pela floresta, me fiz de carneiro, não curto os porquinhos e dos caçadores faço escova.
Escova de pelos, peles de Lobo.
Desordem ética. Escrita alfabética.

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