quinta-feira, abril 29, 2004

Quartas maléficas


Honestamente garanto que a raiva é branca. Pálida do ódio, lívida do pavor e translúcida da malevolência.
O engano é decepcionante. Não mais que o normal, mas é. Em todas às vezes, desgastante. Passei parte do dia curtindo minha ira. E o único mantra que me vinha à cabeça era –
preciso bater em alguém,
preciso bater em alguém.

A razão do mantra é dolorosa. Há precisos 365 dias atrás minha filha mais velha foi capotada, três vezes, num acidente onde foram perdidos o carro, postes, farol, a paciência dessa mãe e a inabilidade de um irmão mais velho. Que quase matou a irmã com suas loucuras pós –adolescente.
No hospital, deitada, minha filha. Imobilizada pelo colar cervical, sua preciosa calça Maria Bonita-Extra estraçalhada, só um dos brincos, a faixa de crochê por mim feita, sumida. O rosto repleto de micros cortes, todos sem sangues e ao mesmo tempo com minúsculos pedaços de vidro e a urgência em saber dos danos — se eram ou não intensamente graves.
Eu, preocupada, afinal uns 14 meses antes atestei, lá, o óbito do marido.
Outra morte?
Outro velório?
Mas nem nunca que eu deixaria acontecer. Entrei, autorizado ou não, entrei. Onde ela foi, junto fui levada. Em momento algum deixei essa menina sozinha.
E depois de exames, dores e preocupações ela me chama e diz, chorosa:
— Mãe, quero sair daqui.
— Não pode filha. Não disse mais nada. Estava fazendo um esforço enorme para não cair em choro.
— Mas mãe...
— Filha, olha, por favor, mamãe tá aqui com você. Vamos agüentar juntas está bem?
— Tá mãe. Ela é doce essa minha menina.
— Mas mãe... e ela me chamou mais perto e disse... mãe, tô com tanta raiva, mãe, tanta raiva... mãe, arruma alguém pr´eu bater?
Na hora achei que era nervosismo dela.
E depois porque tudo segue a vida, isso virou brincadeira aqui em casa.
Mas hoje entendi bem a raiva da minha guria.
É a impotência do acontecido. O injuriamento da confiança e o desespero da decepção.
O processo me fez uma mãe indigna. Desastres de um saber atrapalhado, inepto creio, causado por outrem. Madrasta, sou a viborenta para minhas filhas.
Assim me fizeram.
Assim me sinto, ainda.
Os ventos são sempre presentes em todas as praças centrais, em todos os ocasos jurídicos, em todas as decisões nevrálgicas. Hoje não foi diferente.
Como o vento, o mal-feito rápido chega. O desfeito pode até aparecer. Mas não na primeira página.
Desculpas não merecem manchetes.
Dores injustas não vendem jornais.
Ela tinha razão.
Eu também queria bater em alguém.



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