sábado, maio 29, 2004

Meu amor
Estive voltando ao de ontem.
Os seios... mania... preferência... tamanho... sinuoso gosto de gostar... e me dei conta que não falam dos seios dos homens.
São flores, com vontade de promissores botões. De pouco volume e bem marcados, bicos saborosos. Pequenas pedras escuras, incrustadas em pelagens ora suaves, ora revoltas. Umedecidos, esfregados, esses bicos não crescem nem intumescem. Encrespam. Abrem possibilidades. Novos e recorrentes desejos.
Os masculinos seios pedem complementos.
Mãos! Mãos interessadas em cobrir, percorrer, pressentir, procurar.
Gemidos e gingados.
Relar de peles, unhas.
Boca bem molhada, dentes mordiscados e outro seio. Peitos masculinos também querem seios.
E, se, dos femininos manifestou-se Salomão por uvas e montes, nos masculinos quero-os tangidos, executados e dançantes. Exercitarei fenômenos e ocorrências, próprias geografia.
E por essa terra pampearei vales.
Amontoarei... serpenteantes planícies.
Minha boca em teus seios, agrada-me. Virgens, devastados a toque, a cada boca. Desleitados, quero-os rompidos à força.
Montada em tuas coxas, arqueada e arfante. Contra o teu o meu peito, em suores. Minha boca respira a tua. Eu e somente eu, a te amamentar vontades. Sequiosa, satisfaço a mim, sempre a mim, subindo devagar pelos, pele e virtude.
Meus seios, ouriçados, querem ressudar os teus.
Des-entrada de você, obediente, crispo, boca ávida de beber, todos os teus externos.
De teus contornos, faço trilha. Sigo o caminho, cheiro e sorvo.
Quero, de ti, todas tuas águas, teus líquidos, todo você.
Teus seios acolhem os meus.
Encontram-se, fazem.

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RECADO ATRASADO


Semana retrasada estive por conta da sogra que, um tanto velhinha, 89, além da demência senil voltou a gritar por toda noite. Claro que ela gritando assim o plantão noturno era meu. E daí os dias passaram a ser terríveis porque sem dormir não sei nem dizer A e muito menos concatenar idéias.
Ela melhorou e fomos todas, sogra, filhas e eu, tomar a vacina de gripe. E olha que deste enorme grupo feminino de 5 mulheres só uma passa dos 60... a sogra claro... vocês estvam achando que era eu né? Mentira... sou uma balzaca 17 anos depois.
Acontece que vacina deu reação. Então toca cuidar das filhas e depois claro, porque não sou nem super mãe e nem de ferro, foi a minha vez de ser cuidada por elas. E como sou essa velhota que vocês já sabem... com febre, só fiz ficar pior.
Daí é que levei várias broncas essa semana porque nem fui visitar amigos e nem respondi emails.
Imaginem vocês que quem me lia os post fio Teté... nem conseguia escrever. Broncas dadas e recebidas.. peço que me desculpem a enorme ausência de mais de 20 dias... estou voltando. Acho... pelo menos hoje já acordei sem febre.
E quero ver se à tarde.. volto ao meu normal.. de escrever. ler e visitar todos vocês que amo demais
beijos muitos beijos
minhas desculpas
e carinhos
maria

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terça-feira, maio 25, 2004

Era uma vez uma moça muito bonita, tão bonita que o i da palavra precisava ser acentuado só para mostrar a boniteza da moça.
Voltando.
Era uma vez uma moça muito boníta que vivia numa casa com sua madrasta e as duas irmãs. Meias irmãs, diga-se a bem da verdade, mesmo porque, aqui, pretendemos falar só de honestidades.
A moça bonita gostava muito de animais. Miau, seu gato, era alérgico a leite, mas sobrevivia a essa neurose tão sui-generis. Já o cão... nunca o vi, então dele nada falarei.
A madrasta, como sói acontecer com as madrastas, não era a mãe da moça bonita. Mas criava a moça bonita como se fosse sua enteada.
As irmãs não maltratavam a moça bonita, faziam dela somente sua escrava. Não escrava das duas ao mesmo tempo, mas escrava, em tempo integral, de quem lhe quisesse as coisas. Não todas as coisas, mas só as coisas.
As irmãs da moça bonita não eram de fazer muitas coisas. Como já foi dito, deixavam as coisas para a moça bonita e a moça bonita, porque era bonita e enteada, fazia tudo. Tudo o que lhe mandassem fazer.
O pai da moça bonita a gente não sabe onde foi parar. Só sabemos que tinha pai porque a madrasta da moça bonita tinha sido casado com o pai dela e também com o pai das duas irmãs.
Certa feita a moça bonita resolveu criar peixe, um só, que não fosse nem laranja nem vermelho, mas um peixe com cor de peixe. As moedas que as irmãs jogavam fora, aqueles centavinhos de nada, ela foi juntando até chegar ao peixe, o preço do peixe. Foi difícil, todos sabemos, a procura do peixe cor de peixe. Mas como era perseverante, a moça bonita um dia encontrou. Encontrou o peixe mas não onde guardar seu peixe. Peixe não era como gato. E com seu gato de um lado e o peixe bem ensacadinho do outro, a moça bonita voltou para casa, sorrateira, a espreita de caminhos e lugares onde não pudesse ser encontrada. Naquele dia não queria ser nem irmã, nem a moça bonita. Queria ser a dona do peixe.
— Moça bonita venha cá que tenho coisas para você fazer. As irmãs sempre chamavam assim a moça bonita. E como naquela hora o sol estava a pino e o reflexo da moça bonita ofuscado pela luminosidade, a irmã gritante não conseguiu ver nem o gato de um lado, nem o peixe ensacado do outro. Gritou novamente:
— Moça bonita venha cá que tenho coisas para você fazer. E como a moça bonita sempre fazia as coisas que lhe mandavam, foi. Não sem antes ter guardado o saco do peixe num entre vão da cozinha e o gato dentro do forno.
— Moça bonita, hoje vem aqui o príncipe muito feio para conhecer minhas filhas solteiras, disse a madrasta quando moça bonita chegou no quarto das irmãs. E como você não é nem minha filha e nem irmã, ficará trancada.
— Na cozinha? perguntou a moça bonita, pensando em seu peixe que a esta hora já deveria estar com falta de ar, afinal ainda era um peixe ensacado.
A madrasta pensou, pensou e disse. — Na cozinha não, quase na cozinha. Mas você passe na cozinha, faça um chá e bolinhos para o príncipe muito feio e depois se tranque em seu quarto e feche as janelas também.
A moça bonita que não era cordata, porque nem sabia o que era ser cordata, não disse à madrasta que seu quarto não tinha janelas. Ouviu. Só ouviu. Não pensou porque moças bonitas não foram feitas para pensar.
— Posso sair madrasta? Educada a moça bonita era.
— Pode, minha filha. E assim respondia a madrasta porque as madrastas tendem, em geral, a ser magnânimas, pelo menos nas respostas.
O príncipe muito feio chegou enquanto a moça bonita fazia os bolinhos de chuva em dia ensolarado, um chá de folhas secas colhidas da árvore nova e salgados com pouco açúcar, tirado da receita dada ontem pela televisão.
A moça bonita nem viu o príncipe muito feio, mas o cocheiro, sim. O cocheiro era bonito, se tomasse banho. Mas como banho não tinha sido feito para cocheiros, era um cocheiro cheirando a cocho, mesmo que não mancasse nada.
O cocheiro chegou na cozinha e descobriu o gato no forno, o peixe ensacado no entre vão e a moça bonita fazendo bolinhos.
Olhou para a moça bonita e disse:
— Venha aqui nesse quartinho... é seu o borralho?
— É sim, respondeu a moça bonita e foi indo para o quartinho, porque a moça bonita fazia tudo o que lhe mandavam. Mas antes de ir ao quartinho, cuidou do gato e do peixe. A moça bonita colocou o gato comendo pão — porque o gato era alérgico a leite — e o peixe, agora já neurotizado pela falta de ar e de espaço, no copo de cristal trincado, copo de beber água, da moça bonita.
O cocheiro, mal a moça bonita entrou no quarto, bateu forte nos tijolos e fez uma janela de nunca se fechar. Queria ver luz na moça bonita. A moça bonita não fez nada porque nada lhe fora dito para ser feito.
O cocheiro também não falava muito e nem perguntava nada. Tirou a roupa da moça bonita e viu que nua ela era ainda mais bonita. Tirou a sua roupa e a moça bonita viu que debaixo das roupas o cocheiro era limpinho. Ele mandou a moça bonita se deitar ao chão e ela, que faz todas as coisas que lhe mandam, deitou. Deitou, abriu as pernas, se acomodou, encaixou porque era o que o cocheiro estava mandando ela fazer.
Desobediente, pela segunda vez em sua vida, a moça bonita maneou os quadris, suspirou sem sons, gemeu altinho que era para ninguém mais ouvir, e olhou bem nos olhos do cocheiro do príncipe feio, que era limpinho debaixo da roupa.
E o cocheiro, que falava pouco e perguntava menos ainda, foi-se achegando, se acertando e acomodando-se na moça bonita.
E a moça bonita gostou daquela coisa.
Sem pressa deixaram os lados e se acertaram pelos meios, o cocheiro e a moça bonita. Uma harmoniosa falta de palavras, ternura forte e a pouca intensidade da luz. A tarde entrava janela á fora e urdia sofrimentos, mostrando traços quase aveludados.
A moça bonita levantou-se porque o momento havia partido. Vestiu as roupas e foi preparar o jantar. Todo o dia ela fazia assim.
O cocheiro, lindo sem roupa e quieto quando vestido, rapidinho se arrumou e correu atrás do príncipe feio que estava com as irmãs e a madrasta.
— Senhor seu príncipe, disse o cocheiro, está na hora. O senhor seu pai deve estar esperando a resposta.
— A resposta?!? A madrasta levantou-se tão bruscamente que derrubou barriga abaixo, bordado e agulhas.
— Ah sim dona madrasta, disse o cocheiro, o senhor seu rei está querendo casar seu filho.
A madrasta quase sorriu de tão feliz que ficou. E como em todas as histórias o tempo passa, nesta também o tempo foi passado.
Um dia, o cocheiro que via a moça bonita nos dias de príncipe feio, veio com a novidade. O príncipe feio ia se casar com uma das irmãs. Casaria-se com aquela irmã já que a outra, grávida do príncipe feio, tinha se casado com o marques-não-posso-mais-ter-filhos, que agora era o marquês-sou-pai-de-gêmeos.
Aquela irmã casou-se até na igreja, mas como não era dela que o príncipe feio gostava, ficou trancada na torre até encontrar a bruxa da Rapunzel e ir plantar beterrabas no quintal da vizinha.
O príncipe feio nunca governou o reino porque não era governador e porque seu pai teimava em não morrer, nunca.
A moça bonita não ficou grávida como todos esperavam, mas continuou sendo encontrada pelo cocheiro até que o até virasse então.
E não viveram felizes para sempre porque as primeiras são sempre as melhores histórias.


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sábado, maio 22, 2004

Fantasia

Amanhã já decidi. Vou nascer árvore seca. Não! Seca, até que sim, árvore é que não. Melhor nascer peixe, mas tenho medo de me afogar na água. E peixe seco não tem.
Amanhã não vou nascer. E quando acordar será que estarei morta? Morta é coisa séria... melhor não.
Amanhã vou fazer bolo. De ar, gato e pedrarias. Cozido no forno que é pra fazer terço de furacão. Receita nova. Mas meu forno só anda cozinhando gelado... Gela a receita na metade e como só tenho um terço, vou chamar o padre. Benzer meu forno, rezar o bolo, oferendar o vinho.
Seu padre fugiu. Foi apagar o fogo que o boi bebeu.
Amanhã vou pensar se acordar vale nascer
Amanha penso... se para existir, tem que valer e sonhar.

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quinta-feira, maio 20, 2004

Dei de fazer assim. Pensar, escrever e amar. Tudo e todas as coisas que corroborem a crença de estar apaixonada. Descobri traços de felicidade incrustados em todos os cantos da casa que me habita. Porque a felicidade, tal qual a fortuna, vem careca, com asas nos pés e foge ao primeiro barulho sem som.
Bem desse jeito acontecem-me os anos. Chegam estourando fogos e me deixam sempre com melancólicas festas finalizadoras.
Fiquei pensando no que desejo, no que quero deitar como vontades antes que o ano anoiteça.
Quero receber ligações onde digam... Sabe, pensei em você e tive saudades.
Tenho cá comigo que é bem melhor cuidar dos segundos amores. Os primeiros nos tiram o ar, enchem de desejo e quando acontecem, já estão acabados. Já os segundos amores...
Quero ser sempre parceira dessa dualidade que nos inferna a vida. Nada melhor que não saber hoje e ter todas as respostas 13 momentos, treze dias depois.
Beijos? Quero-os todos. Molhados, mordidos, assumidos e também os apipocados. Aqueles salpicados que vem em grande quantidade, são sempre bons e um puxa o outro. Doces e salgados. Temperados e saborosos.
E eu, como não faço a barba que nem tenho, peço aos barbeados amigos que dediquem pensamentos cerimoniosos ao espelho, quando forem se barbear. E pensamentos nada lúdicos a nós, suas apreciadoras, com ou sem barba. O espelho agradece e qualquer corte, nos contem... cuidaremos com beijos e mimos.
E se é para cuidar, cuidem de saber que hoje em dia não se pede mais em namoro. E ficar é um verbo denegrido. Eita palavra mais horrível... ficar. Fico coisa nenhuma! Ficar é tão sem sentido... Hoje em dia cuidamos de viver e realizar os sentimentos. Viveres são estados acontecíveis. Como um antigo chá da tarde renovado em antigas e maduras belezas.
Quero de você as manias... as músicas, ouvir suas letras, ser todo o seu poema. Deixar você meu pega rapaz e fazer de Rita todas as letras, água na boca, banheira no ato, espuma de quatro, trepadeira e xaxim, molecamente indecente e bobamente romântica.
Quero que sejas insinuante, incinerante, trepidante.
Bem diz Quintana que quem ama inventa. Vou criar novos passados com você. Seja você meu você qual for.
E porque li, porque lembrei ou eu mesma fiz... digo-te essa quadrinha

Toda boca guarda um beijo antigo
Todo antigo sabe bem beijar as bocas

E como é você um novo, antigo de outras, conhecido de vidas, venha cá me contar logo dos teus desejos que quero te acalentar o colo... com beijos, beijos e beijos.

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domingo, maio 16, 2004

Estou em época de margaridas ao meio dia, rosas durante a madrugada e orquídeas do meu bem querer.
Se não me fiz entender é porque estou enamorada. E daí perco a mão. Azedo maionese, passo do ponto de bater bolo e, perdida, estampo felicidade para todas as horas. Sorrio tanto que creio fazer rugas de amor nestes lábios que ao lembrar do amado, sorriem.
E porque assim estou, enamorando-me de meu bem querer, deu-me a vontade de desejar a vocês um começo. E como ano é início de tudo e é também um talvez, coloco aqui meus votos de afinal. Porque agora começo outro ano. Um ano sem tempo, mas um tempo de estar amando, suave e intensamente. Todo novo amor faz do ano um novo ano, não importa a que tempo esteja.

Os votos

A vida é cheia de nuncas.
Nunca vou ficar doente, isso eu nunca faço e nunca faria o que fizeram comigo.
A vida é repleta de talvez.
Talvez chova, talvez faça frio... talvez, quem sabe?
A vida é cheia de promessas vãs.
Passa lá em casa, depois te telefono, sem falta, amanhã, tudo pronto.
E existem, claro, as promessas nunca cumpridas, ou melhor dizendo, as muito difíceis de serem cumpridas. Me perdoem, mas a que mais lembro, e me leva um sorriso aos lábios, é a já gastadamente famosa. Deixa? Coloco só a cabecinha? Promessa mais difícil de ser cumprida... no meio de tanto tesão que é estar namorando.
Claro, não reclamem. Sexo é vida também. Aliás sem sexo, sem vida. Duplos aliás, porque há sexo, há amor e existe também a maravilhosa opção de sexo com amor. Difícil de achar mas não impossível.
Aos que gostam de portas, aproveitem e fechem muitas agora e daqui algumas horas abram todas as outras como sempre sonharam fazer, em novas e especiais datas. Mesmo que daqui um ano elas estejam fechando, abra-as.. portas abertas ás vezes não fecham, ás vezes abrem outras portas e o melhor... ás vezes emperram nos dando novos dias de felicidades desconhecidas. Portas são itens importantíssimos em nossas vidas.
E é então que chego nos meus votos a vocês.
Ano passado desejei a vocês um ano cheio de contradições e foi um desejo tão bom que esse ano repito o que disse acrescido de algumas bobagens.
Descasquem cebolas. E aproveitem a desculpa para colocar o choro a serviço do trabalho e da casa.
Não pensem no futuro. Porque pensado ele já vira presente e quando falado, torna-se passado. E seu futuro foi perdido sem você saber
Abra e feche portas na mais perfeita desordem.
Não marque compromissos que não consiga cumprir, por outro lado dê o cano sempre que lhe der na veneta e crie, invente desculpas. Não é Quintana quem diz — que quem ama inventa? Pois então. invente a sua vida.
Ame muito você. Sem seu amor eu nem estaria aqui te escrevendo. Cuidando de você, você cuidará de mim e no mais.. entre nesse novo ano.
Esse é o melhor presente que posso te dar
E com vocês. Meu mais famoso desejo
Desejo a vocês



Desejo a vocês um ano cheio de contradições
Que o novo contradiga o velho e o velho apareça criado.
Que a felicidade contrarie a certeza e a tristeza goteje pouco, mas apareça,
porque até ser triste é uma necessidade.
Que o contrário seja presente e o futuro seja lembrança.
Que a doutrina seja perene fazendo da constância sua obra.
Que eu tenha vindo para desordenar e você para me ensinar.
Que o amor seja sagrado, a fé seja infinita, e a música esteja sempre, no
divino dos nossos corações.
Que a esperança não se canse de sempre querer novidades.
Que o começo seja o encontro final das procuras.
Que o beijo seja sempre a primeira expressão de teus lábios.
Que o inevitável seja possível.
Que a simplicidade vire expectativa e seja selada num olhar.
Que a mentira seja presente para a verdade ser constante.
Que a noite chegue logo para o dia poder dormir
E que você seja feliz.
De uma felicidade, ainda que momentânea. Porque a felicidade é assim e sempre será...
Amor e choro, não há um sem o outro e... que o ano, cheio de contradições, se contradiga.

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quarta-feira, maio 12, 2004



Janela indiscreta


As coisas nem sei a que vêm. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Gosto desse ditado, mas também não sei o porquê.
Diacrônica, a janela é quase meio. De fuga ou contraponto, música. A cabeça vem melodiosa. Trejeitos à direita e à esquerda. Vontade de saber fazer poesia. Vontade e nada mais. Criá-las transcende meu conhecimento portanto fico com o desejo e só.
Nem em pensamento perpetro coisas.
Filosofia que do nada se completa? Ah, não sei a que me proponho quando sento perto da janela. Sei que não me basta o que vejo. Tenho que entrar pelos telhados alheios, perseguir janelas fechadas e descobrir novos céus, novas pombas. Essas, sim, infestam a janela. Não fogem nem com bandeira vermelha e, com veneno nem penso em enxotá-las.
Espero na janela o perfume dos bolos de quinta. As sextas minha vizinha faz bolo de laranja, mas essa cozinhação adianta-se porque é na quinta que começa ela a caldar a laranja. E é ainda nas quintas que o quintal vai começando a ter da memória os bolos. Aprecio essa ambrosia nos perfumes de quinta-a-sexta. Um cheiro faz bem aos sonhos.
Meus sonhos não são herméticos e nem voam. Mas a janela bem em frente não abre antes das sete da noite. Estranhezas de cidade-capital. Conheço somente os braços. Poderia descrevê-los muito bem, mas aí perderiam seus encantos e não iriam querer minha janela, logo, fico aqui. Sentada a vê-los. A concretude no gesto da abertura.
Impossível, mas gostaria de saber como é o telhado visto de baixo para cima. O pescoço impede a visão e fico sem saber.
Primavera e a floreira seca. Quaresmou antes. Agora deixo as flores a quem quiser nascê-las.
Essa cadeira que anda é de grande valia quando chega a hora dos pequenos lençóis de Tereza com . O varal coalhado de branco, fraldas seguidas de fraldas quando nem pensam mais em fazendas nos bumbuns dos bebês. Tereza quis assim e sentadas, frente à janela, costuramos dúzias e dúzias. Coloridos, lá fora, os pregadores. Aqui, conosco, branco nas linhas, branco nas fazendas, brancos sorrisos. Tereza me voltou, sem tempo, com suas costuras. Neta de costureira não nega a raça e sabe cerzir na mão, fazer ponto paris e chulear.
Troco fraldas como o tempo em estações dessa cidade. De quatro a seis vezes por dia. Não é meu esse nenê, mas fica meu quando em tardes de quarta, Tereza vai ao bingo e aporta rente a minha janela seu neto. Brinde de meia semana. Acordar ele nunca acorda, mas gosto de trocar o guri, dormindo ou não, mijado sim, mas cagado jamais!
A chuva cá em casa é gráfica e de superfície. Os olhos marejam primeiro, o céu em seguida. Chove aqui todas as noites. E nunca sobram vestígios.
É automática a mudança musical. Tempos modernos, controles para quase tudo.
Sintomáticas as lacunas, nas paredes e no tempo. Fazem ver somente quando querem. Fosse eu escolher e seria essa uma janela francesa. Perigosa sim, abrindo para o nada, sinal de queda na certa. Inglesa e gostaria de uma bay window, moderna demais para essa antiga morada. Nem corrediça, nem basculante. Aqui guilhotina, que corta e transporta... bolos, brioches, a janela já tem. Pudesse e me chamaria Antonieta.
Mal de amores, mal de dores e o tempo, inclemente, nunca muda, nunca nasce e nunca morre. Dia sim outro também, o tempo acontece.
Dizem que a alma tem janela. Mentira. Ela só define, aponta caminhos. Imprevisíveis encontros.
Quero uma janela que seja feita de pedras, enfrestada de tempo, sol e movimento.
Antes que do tempo se faça pedra, fecho minha janela.

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Vim agradecer.
Levei baita susto.
Escrevi do susto.
Em menos de uma semana tudo mudou no blog.
Agradeci, mandei beijos, muitos beijos e o que fez meu blog? Simplesmente me deletou
E eu e meu parco e pobre inglês quase choramos.
Segunda tentativa do dia.
A todos meus sorrisos, minha felicidades e as lágrimas de plena felicidade.
carinhos
maria

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quinta-feira, maio 06, 2004

Saiu

Saiu como quem sai para perder-se na conta do destino. Entrou ao ônibus refeita de um só sono e no primeiro banco, despencou a tristeza. Dormitares leves, tranqueados, fizeram com que acordasse no largo ombro do sujeito à sua direita.
— Desculpe-me, falou, o rosto afogueado pela vergonha.
— Só se tomar um café comigo, respondeu ele.
Ele desceu, ela também. Para quem o caminho não existe, qualquer parada é lugar. Foram. Mesa rota, café fresco, fumacento. Ele tomou rapidamente e ela ficou brincando com a colher transparente.
— Não gosta de café? perguntou ele. Fui grosseiro, nem perguntei se queria café ou outra coisa.
— Sim, até que gosto. Mas não sei tomar café muito quente. Continuou remexendo, olhando o moço, que nem trinta tinha. Bonito.
— Tem namorada? Ah, desculpe. Fui curiosa demais.
— Tinha... brigamos há quase um mês. Ela queria me tomar de mim.
— Que pena...
— E você? Tem namorado?
— Acho que não. E ele sorrindo, re-perguntou — Acho? Ninguém acha se tem ou não namorado. Namorado é.
— Bem, então não sei.
— Não sabe? Se tem ou não namorado? Deve ter. Todos têm namorados. Todos.
— Se o moço diz... então tenho.
— Mas tem mesmo?
— Ainda acho que não.
Conversaram. E café acabou.
— Vem comigo? Vamos à Mariquita? Ela nem perguntou, nem respondeu. Foi. Andaram pelas calçadas, ele cuidando de estar sempre do lado da rua. Costume antigo ela pensou, estranho encontrar num moço de quase 30.
— Sua idade?
— Faço 36 mês que vem. E segurou sua mão para atravessarem a rua. Mão enorme, ela sentiu e viu.
Entraram na Mariquita. Um boteco com parede de pedra, sem luzes no teto mas iluminado por lampiões, antigos e amarelados, cadeiras de ferro, cinza esverdeadas, mesas de madeira escura. Ela sentou onde ele indicou. Falaram de filmes, de homens e mulheres, de contos e contas. Se disseram da vida, a que cabe nos poucos minutos de enlevamento, e nenhum falou em vontades.
— Acho que esta na hora, disse Marta, olhando para o pulso só com a marca do relógio. Ele nem reparou na falta do objeto. Concordou, pagou a bebida e levantam.
— Vamos para onde?
— Eu não sei, murmurou Marta com o rosto quente. Se o moço soubesse o que ela queria... e o pensamento veio com tanta vontade que seu rosto ficou mesmo vermelho, da vergonha escondida dentro das palavras. Repetiu. — Não sei... para o ônibus?
— Minha vez de dizer não sei, brincou ele. Pegou de sua mão e foi indo. Ela estava feliz com aquela enorme mão a cuidar da sua, tão pequenina.
Pegaram o ônibus e sentaram, lado a lado. Dessa vez sem tristeza e sem sono. Quietos.
Marta viu a cama, o quarto. Sempre quieta, olhando. Deitou, roupa vestida e ele roupa apertada. Mais que os corpos, as roupas não queriam se ver. Ele foi tirando. Camisa e os seios. Mas bem hoje, estou com um de cada cor, pensou ela. Não ando despareada com meus íntimos ela pensou. Hoje, calcinha verde e soutien azul.
— Se soubesse, ela tentou falar, teria colocados de cores iguais.
— Não me importo, respondeu ele, beijando um bico e beliscando o outro.
Marta não pensou. Sem controle, sentia — estava à espera. Movimento, não fez nenhum. Ele, fazia todos. As roupas, ele, lento, tirava com vigor. Antes sua calcinha não voava. Hoje saiu planando quarto inteiro. Marta olhava, olhava e sentia, mesmo sem querer, que aquele era o quarto. Seu.
Ai! Não, não era dor. Era ele, descendo seu ventre. Mãos nos seios, apertando, roçando e a boca, descendo. Descia a língua, molhada, áspero, estranha. Marta suspirava, quieta. Descia as mãos que apertavam, passavam e molhavam, como a língua.
Desceu todo. Até os pés. E voltou com as mãos, abrindo os caminhos. Marta nem suspirava. Ele chegou, apartou suas fendas e entrou. Impetuoso e manso em seus cantos. Lambeu, chupou, mordeu. Gritos, Marta deu gritos. Ele não parou. Despreparada Marta puxou seus curtos cachos. Ele parou, levantou os olhos, subiu por cima dela e veio beijar-lhe os lábios.
Ai. Ele mordia sim, quase dolorido.
— Ai! Agora era nos seios. Sugava mais que a fome. E marcou, com sangue seu novo território. Marta. Quieta, não entendia, como a dor não dói. Como a marca, os seios mordidos, lhe davam gosto quando olhava. Marta não sabia.
— Doendo? E aqui? E assim? Menino, aquele moleque não sabia parar quieto. Mordeu, esfregou com a língua, nariz, lábios e dedos. Quantas covas tivesse, quantas ele descobriria. Subiu por ela como se escalar peles fosse seu trabalho. Calou seu Ai! com três beijos certeiros. Na boca e nos bicos e deu-lhe o indicador a sugar. Marta sugou! E quanto mais ele descia, mais Marta comia aquele único dedo em sua boca. Tirou-lhe o doce aquele menino, colocando-o entre suas pernas. Um dedo a lhe entrar, dois dedos, depois mais um e a boca, a língua ácida, foi onde os dedos entravam.
Foi consciente que Marta deu sua primeira gingada, na boca do moço, na língua de café, nos dedos doces.
— Não! ele cortou. Não se mecha. Ajoelhou-se na cama, levantou-lhe as pernas até seus ombros. Marta sem apoio, gemeu.
— Ai, ele disse.
— Doeu? Estou pesada? Machucando você?
— Não, ele ria ao responder, teu gemido me apraz.
— Ah... ai! Ele novamente enfiava completo, sua boca e seus gostos em Marta. E assim foi até o movimento último de Marta. Estremecida. Deixou-se cair, encaixada, ao lado dele. Sem fôlego.
— Tem pouco cabelo em seu peito.
— Aí não tem. Desça lá e veja. Ele era matreiro. Mas ela não desceu.
Ela não a deixou descansar. Assim, respirando curtos e longos ais, colocou-a de borco, seios caindo em suas mãos e entrou. Até onde não podia, entrou. Marta, perto de fazer algo, nada fez. Maneou as cadeiras ao compasso da música que os sentidos lhe diziam ser a música dos dois.
Ele gostou. Cavalgou. Ela deu-lhe a direção a ser seguida. E ele seguiu. Começou a obedecer Marta. Gozaram. Suados e cansados. Outra vez caíram na cama. As pernas agora entrelaçadas.
— É hora.
— Eu sei, respondeu ele, e novamente desceu. Sentou, beirada da cama e levou-a para bem perto dele, abriu-lhe as pernas e veio, nadando suas profundezas. Colocou-a sobre suas pernas e levantou Marta no ar. E deixou de descesse, vagarosamente, sustentada só pelas enormes mãos. Marta gemia, baixos burburinhos. Dançava sentada. Foi ele quem primeiro gritou. Ela caiu-se nas costas na cama. Ele, agora, perto, bem próximo, levou-lhe o nado a boca. Ela não fez rogo, nadou-lhe o mar, as ondas, os pelos e a pele. Seu rosto afogueado no lanhado da barba. Outra queda, outras molas. Cede a cama, cede o peso, suas pernas enfraquecem.
Ele, vigoroso, carrega Marta, que no colo se vê prensada à parede. Agora nem ela tem movimento, nem ele tempo. Rápido, raivoso e torpe, ele é imediato.
Delas os cabelos que despencam em seus ombros, deles as mãos a pegar-lhe as pernas.
Enclausurada no pecado, presa a ele, Martas escorrem em lágrimas, entre as pernas, entre os corpos, em todos os olhos.
Ele a desfaz entre dedos no amarfanhado do leito.
A penumbra é clara e os olhos, de ver navios. Há febre pelo ar.
— Acho que esta na hora, diz Marta. Ele, braços nos olhos, suspira o sono de quando ela havia lhe caído aos ombros. Ela nem olha para ele. Seca-se, quer ter para sempre o perfume do beijo e do café, coloca a roupa e sai.
Acordou no ônibus, dormindo em largos ombros no sujeito à sua direita.


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terça-feira, maio 04, 2004

Estava eu à cama quando a cortina percorreu o teto. Aberta, a janela deu vazão ao vento tempestivo.
Imóvel, invisível , cuidava de firmar o olhar.
O céu, ausente da cor, vergasta e desvia.
Lá chove, venta. Aqui não.
Ver a chuva deitada na cama seca é frenética valsa, ritmado convite.
Quieta, continuo. Não quero me indispor contra o vento que sai e volta à sua vontade, retalhando mais e mais a fazenda clara.
Fica em pedaços a minha pobre cortina. Ainda tem perfume de nova, é de perto destes dias últimos.
E o vento, trivial, tece entre as fitas, novas passamanarias.
Os elementos, cerzindo as águas. O vento tricotando o tempo em laçadas e malhas com as cores dos ímpetos primários.
A união, ponto a ponto, de interesses, naturais.

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sábado, maio 01, 2004


Sou sempre memória, sonora e perfumosa. Quem me conhece sabe. O que é bem irritante... toda hora falo em música, toda hora evoco perfumes.
Hoje, para me diferenciar, optei pelo inventário que se segue.

Inventário
Árvores? Diversas, indefinidas, nenhuma. E dependendo do terreno onde planto, florescem, fenecem e ás vezes crescem.
Filhas, algumas paridas outras quase criadas.
Livros? Em gênero e número indeterminados, li, guardei e vendi, a maior parte.
Tecidos, entre azuis e vermelhos, para um dia, sempre um dia, fazer costuras, entremear linhas e cerzir pontas.
Agulhas, contas, linhas e miçangas de se perderem nos dedos, caídas em minha caixa de vitrilhos.
Alany me ensinou, sou uma mulher de princípios. Principio cortes, costuras, tricôs e crochês. Bordo mais que Penélope sem nunca desfiar fio algum. Cuido de levar dez, dois, cinco anos em trabalhos que nunca hei de findar. E ainda me perco no tempo, nas tramas e na memória.
Distraída, sou quase esquecida. Confusa até.
No mais, me sinto perdida.
Cachos, tenho alguns. Hoje os cabelos são ruivos mas foram nascidos pretos para depois, com o tempo, acastanharem-se.
As mãos só sabem escrever. Minto. Os olhos escrevem. As mãos acariciam, quando alguém quer delas se apropriar.
Falta-me o alguém.
Os olhos foram perdidos. Quem souber, devolva, se os encontrar.
Sou mulher de prendas, dadivosa. Dou sorrisos e gargalhadas como o sol de fim de tarde, nos dias e nas horas. Dou cantos e encantamentos a quem acredita em meus pedaços. Dou chuva e concedo o sol para os olhos de quem me vê. Entrego o vento de presente a quem ventar, mas que seja vento de ventania, que troca tudo e nunca volta ao mesmo lugar.
Gosto de achar bocas que praticam beijos e ficar com os lábios inchados de beijar.
Mas aí também já são vontades e hoje me propus a inventariar.
E assim termino aqui, inventários de maio, mês de Maria, primeiros de alguns, pouco de todos.

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