terça-feira, maio 25, 2004

Era uma vez uma moça muito bonita, tão bonita que o i da palavra precisava ser acentuado só para mostrar a boniteza da moça.
Voltando.
Era uma vez uma moça muito boníta que vivia numa casa com sua madrasta e as duas irmãs. Meias irmãs, diga-se a bem da verdade, mesmo porque, aqui, pretendemos falar só de honestidades.
A moça bonita gostava muito de animais. Miau, seu gato, era alérgico a leite, mas sobrevivia a essa neurose tão sui-generis. Já o cão... nunca o vi, então dele nada falarei.
A madrasta, como sói acontecer com as madrastas, não era a mãe da moça bonita. Mas criava a moça bonita como se fosse sua enteada.
As irmãs não maltratavam a moça bonita, faziam dela somente sua escrava. Não escrava das duas ao mesmo tempo, mas escrava, em tempo integral, de quem lhe quisesse as coisas. Não todas as coisas, mas só as coisas.
As irmãs da moça bonita não eram de fazer muitas coisas. Como já foi dito, deixavam as coisas para a moça bonita e a moça bonita, porque era bonita e enteada, fazia tudo. Tudo o que lhe mandassem fazer.
O pai da moça bonita a gente não sabe onde foi parar. Só sabemos que tinha pai porque a madrasta da moça bonita tinha sido casado com o pai dela e também com o pai das duas irmãs.
Certa feita a moça bonita resolveu criar peixe, um só, que não fosse nem laranja nem vermelho, mas um peixe com cor de peixe. As moedas que as irmãs jogavam fora, aqueles centavinhos de nada, ela foi juntando até chegar ao peixe, o preço do peixe. Foi difícil, todos sabemos, a procura do peixe cor de peixe. Mas como era perseverante, a moça bonita um dia encontrou. Encontrou o peixe mas não onde guardar seu peixe. Peixe não era como gato. E com seu gato de um lado e o peixe bem ensacadinho do outro, a moça bonita voltou para casa, sorrateira, a espreita de caminhos e lugares onde não pudesse ser encontrada. Naquele dia não queria ser nem irmã, nem a moça bonita. Queria ser a dona do peixe.
— Moça bonita venha cá que tenho coisas para você fazer. As irmãs sempre chamavam assim a moça bonita. E como naquela hora o sol estava a pino e o reflexo da moça bonita ofuscado pela luminosidade, a irmã gritante não conseguiu ver nem o gato de um lado, nem o peixe ensacado do outro. Gritou novamente:
— Moça bonita venha cá que tenho coisas para você fazer. E como a moça bonita sempre fazia as coisas que lhe mandavam, foi. Não sem antes ter guardado o saco do peixe num entre vão da cozinha e o gato dentro do forno.
— Moça bonita, hoje vem aqui o príncipe muito feio para conhecer minhas filhas solteiras, disse a madrasta quando moça bonita chegou no quarto das irmãs. E como você não é nem minha filha e nem irmã, ficará trancada.
— Na cozinha? perguntou a moça bonita, pensando em seu peixe que a esta hora já deveria estar com falta de ar, afinal ainda era um peixe ensacado.
A madrasta pensou, pensou e disse. — Na cozinha não, quase na cozinha. Mas você passe na cozinha, faça um chá e bolinhos para o príncipe muito feio e depois se tranque em seu quarto e feche as janelas também.
A moça bonita que não era cordata, porque nem sabia o que era ser cordata, não disse à madrasta que seu quarto não tinha janelas. Ouviu. Só ouviu. Não pensou porque moças bonitas não foram feitas para pensar.
— Posso sair madrasta? Educada a moça bonita era.
— Pode, minha filha. E assim respondia a madrasta porque as madrastas tendem, em geral, a ser magnânimas, pelo menos nas respostas.
O príncipe muito feio chegou enquanto a moça bonita fazia os bolinhos de chuva em dia ensolarado, um chá de folhas secas colhidas da árvore nova e salgados com pouco açúcar, tirado da receita dada ontem pela televisão.
A moça bonita nem viu o príncipe muito feio, mas o cocheiro, sim. O cocheiro era bonito, se tomasse banho. Mas como banho não tinha sido feito para cocheiros, era um cocheiro cheirando a cocho, mesmo que não mancasse nada.
O cocheiro chegou na cozinha e descobriu o gato no forno, o peixe ensacado no entre vão e a moça bonita fazendo bolinhos.
Olhou para a moça bonita e disse:
— Venha aqui nesse quartinho... é seu o borralho?
— É sim, respondeu a moça bonita e foi indo para o quartinho, porque a moça bonita fazia tudo o que lhe mandavam. Mas antes de ir ao quartinho, cuidou do gato e do peixe. A moça bonita colocou o gato comendo pão — porque o gato era alérgico a leite — e o peixe, agora já neurotizado pela falta de ar e de espaço, no copo de cristal trincado, copo de beber água, da moça bonita.
O cocheiro, mal a moça bonita entrou no quarto, bateu forte nos tijolos e fez uma janela de nunca se fechar. Queria ver luz na moça bonita. A moça bonita não fez nada porque nada lhe fora dito para ser feito.
O cocheiro também não falava muito e nem perguntava nada. Tirou a roupa da moça bonita e viu que nua ela era ainda mais bonita. Tirou a sua roupa e a moça bonita viu que debaixo das roupas o cocheiro era limpinho. Ele mandou a moça bonita se deitar ao chão e ela, que faz todas as coisas que lhe mandam, deitou. Deitou, abriu as pernas, se acomodou, encaixou porque era o que o cocheiro estava mandando ela fazer.
Desobediente, pela segunda vez em sua vida, a moça bonita maneou os quadris, suspirou sem sons, gemeu altinho que era para ninguém mais ouvir, e olhou bem nos olhos do cocheiro do príncipe feio, que era limpinho debaixo da roupa.
E o cocheiro, que falava pouco e perguntava menos ainda, foi-se achegando, se acertando e acomodando-se na moça bonita.
E a moça bonita gostou daquela coisa.
Sem pressa deixaram os lados e se acertaram pelos meios, o cocheiro e a moça bonita. Uma harmoniosa falta de palavras, ternura forte e a pouca intensidade da luz. A tarde entrava janela á fora e urdia sofrimentos, mostrando traços quase aveludados.
A moça bonita levantou-se porque o momento havia partido. Vestiu as roupas e foi preparar o jantar. Todo o dia ela fazia assim.
O cocheiro, lindo sem roupa e quieto quando vestido, rapidinho se arrumou e correu atrás do príncipe feio que estava com as irmãs e a madrasta.
— Senhor seu príncipe, disse o cocheiro, está na hora. O senhor seu pai deve estar esperando a resposta.
— A resposta?!? A madrasta levantou-se tão bruscamente que derrubou barriga abaixo, bordado e agulhas.
— Ah sim dona madrasta, disse o cocheiro, o senhor seu rei está querendo casar seu filho.
A madrasta quase sorriu de tão feliz que ficou. E como em todas as histórias o tempo passa, nesta também o tempo foi passado.
Um dia, o cocheiro que via a moça bonita nos dias de príncipe feio, veio com a novidade. O príncipe feio ia se casar com uma das irmãs. Casaria-se com aquela irmã já que a outra, grávida do príncipe feio, tinha se casado com o marques-não-posso-mais-ter-filhos, que agora era o marquês-sou-pai-de-gêmeos.
Aquela irmã casou-se até na igreja, mas como não era dela que o príncipe feio gostava, ficou trancada na torre até encontrar a bruxa da Rapunzel e ir plantar beterrabas no quintal da vizinha.
O príncipe feio nunca governou o reino porque não era governador e porque seu pai teimava em não morrer, nunca.
A moça bonita não ficou grávida como todos esperavam, mas continuou sendo encontrada pelo cocheiro até que o até virasse então.
E não viveram felizes para sempre porque as primeiras são sempre as melhores histórias.


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