quinta-feira, maio 06, 2004

Saiu

Saiu como quem sai para perder-se na conta do destino. Entrou ao ônibus refeita de um só sono e no primeiro banco, despencou a tristeza. Dormitares leves, tranqueados, fizeram com que acordasse no largo ombro do sujeito à sua direita.
— Desculpe-me, falou, o rosto afogueado pela vergonha.
— Só se tomar um café comigo, respondeu ele.
Ele desceu, ela também. Para quem o caminho não existe, qualquer parada é lugar. Foram. Mesa rota, café fresco, fumacento. Ele tomou rapidamente e ela ficou brincando com a colher transparente.
— Não gosta de café? perguntou ele. Fui grosseiro, nem perguntei se queria café ou outra coisa.
— Sim, até que gosto. Mas não sei tomar café muito quente. Continuou remexendo, olhando o moço, que nem trinta tinha. Bonito.
— Tem namorada? Ah, desculpe. Fui curiosa demais.
— Tinha... brigamos há quase um mês. Ela queria me tomar de mim.
— Que pena...
— E você? Tem namorado?
— Acho que não. E ele sorrindo, re-perguntou — Acho? Ninguém acha se tem ou não namorado. Namorado é.
— Bem, então não sei.
— Não sabe? Se tem ou não namorado? Deve ter. Todos têm namorados. Todos.
— Se o moço diz... então tenho.
— Mas tem mesmo?
— Ainda acho que não.
Conversaram. E café acabou.
— Vem comigo? Vamos à Mariquita? Ela nem perguntou, nem respondeu. Foi. Andaram pelas calçadas, ele cuidando de estar sempre do lado da rua. Costume antigo ela pensou, estranho encontrar num moço de quase 30.
— Sua idade?
— Faço 36 mês que vem. E segurou sua mão para atravessarem a rua. Mão enorme, ela sentiu e viu.
Entraram na Mariquita. Um boteco com parede de pedra, sem luzes no teto mas iluminado por lampiões, antigos e amarelados, cadeiras de ferro, cinza esverdeadas, mesas de madeira escura. Ela sentou onde ele indicou. Falaram de filmes, de homens e mulheres, de contos e contas. Se disseram da vida, a que cabe nos poucos minutos de enlevamento, e nenhum falou em vontades.
— Acho que esta na hora, disse Marta, olhando para o pulso só com a marca do relógio. Ele nem reparou na falta do objeto. Concordou, pagou a bebida e levantam.
— Vamos para onde?
— Eu não sei, murmurou Marta com o rosto quente. Se o moço soubesse o que ela queria... e o pensamento veio com tanta vontade que seu rosto ficou mesmo vermelho, da vergonha escondida dentro das palavras. Repetiu. — Não sei... para o ônibus?
— Minha vez de dizer não sei, brincou ele. Pegou de sua mão e foi indo. Ela estava feliz com aquela enorme mão a cuidar da sua, tão pequenina.
Pegaram o ônibus e sentaram, lado a lado. Dessa vez sem tristeza e sem sono. Quietos.
Marta viu a cama, o quarto. Sempre quieta, olhando. Deitou, roupa vestida e ele roupa apertada. Mais que os corpos, as roupas não queriam se ver. Ele foi tirando. Camisa e os seios. Mas bem hoje, estou com um de cada cor, pensou ela. Não ando despareada com meus íntimos ela pensou. Hoje, calcinha verde e soutien azul.
— Se soubesse, ela tentou falar, teria colocados de cores iguais.
— Não me importo, respondeu ele, beijando um bico e beliscando o outro.
Marta não pensou. Sem controle, sentia — estava à espera. Movimento, não fez nenhum. Ele, fazia todos. As roupas, ele, lento, tirava com vigor. Antes sua calcinha não voava. Hoje saiu planando quarto inteiro. Marta olhava, olhava e sentia, mesmo sem querer, que aquele era o quarto. Seu.
Ai! Não, não era dor. Era ele, descendo seu ventre. Mãos nos seios, apertando, roçando e a boca, descendo. Descia a língua, molhada, áspero, estranha. Marta suspirava, quieta. Descia as mãos que apertavam, passavam e molhavam, como a língua.
Desceu todo. Até os pés. E voltou com as mãos, abrindo os caminhos. Marta nem suspirava. Ele chegou, apartou suas fendas e entrou. Impetuoso e manso em seus cantos. Lambeu, chupou, mordeu. Gritos, Marta deu gritos. Ele não parou. Despreparada Marta puxou seus curtos cachos. Ele parou, levantou os olhos, subiu por cima dela e veio beijar-lhe os lábios.
Ai. Ele mordia sim, quase dolorido.
— Ai! Agora era nos seios. Sugava mais que a fome. E marcou, com sangue seu novo território. Marta. Quieta, não entendia, como a dor não dói. Como a marca, os seios mordidos, lhe davam gosto quando olhava. Marta não sabia.
— Doendo? E aqui? E assim? Menino, aquele moleque não sabia parar quieto. Mordeu, esfregou com a língua, nariz, lábios e dedos. Quantas covas tivesse, quantas ele descobriria. Subiu por ela como se escalar peles fosse seu trabalho. Calou seu Ai! com três beijos certeiros. Na boca e nos bicos e deu-lhe o indicador a sugar. Marta sugou! E quanto mais ele descia, mais Marta comia aquele único dedo em sua boca. Tirou-lhe o doce aquele menino, colocando-o entre suas pernas. Um dedo a lhe entrar, dois dedos, depois mais um e a boca, a língua ácida, foi onde os dedos entravam.
Foi consciente que Marta deu sua primeira gingada, na boca do moço, na língua de café, nos dedos doces.
— Não! ele cortou. Não se mecha. Ajoelhou-se na cama, levantou-lhe as pernas até seus ombros. Marta sem apoio, gemeu.
— Ai, ele disse.
— Doeu? Estou pesada? Machucando você?
— Não, ele ria ao responder, teu gemido me apraz.
— Ah... ai! Ele novamente enfiava completo, sua boca e seus gostos em Marta. E assim foi até o movimento último de Marta. Estremecida. Deixou-se cair, encaixada, ao lado dele. Sem fôlego.
— Tem pouco cabelo em seu peito.
— Aí não tem. Desça lá e veja. Ele era matreiro. Mas ela não desceu.
Ela não a deixou descansar. Assim, respirando curtos e longos ais, colocou-a de borco, seios caindo em suas mãos e entrou. Até onde não podia, entrou. Marta, perto de fazer algo, nada fez. Maneou as cadeiras ao compasso da música que os sentidos lhe diziam ser a música dos dois.
Ele gostou. Cavalgou. Ela deu-lhe a direção a ser seguida. E ele seguiu. Começou a obedecer Marta. Gozaram. Suados e cansados. Outra vez caíram na cama. As pernas agora entrelaçadas.
— É hora.
— Eu sei, respondeu ele, e novamente desceu. Sentou, beirada da cama e levou-a para bem perto dele, abriu-lhe as pernas e veio, nadando suas profundezas. Colocou-a sobre suas pernas e levantou Marta no ar. E deixou de descesse, vagarosamente, sustentada só pelas enormes mãos. Marta gemia, baixos burburinhos. Dançava sentada. Foi ele quem primeiro gritou. Ela caiu-se nas costas na cama. Ele, agora, perto, bem próximo, levou-lhe o nado a boca. Ela não fez rogo, nadou-lhe o mar, as ondas, os pelos e a pele. Seu rosto afogueado no lanhado da barba. Outra queda, outras molas. Cede a cama, cede o peso, suas pernas enfraquecem.
Ele, vigoroso, carrega Marta, que no colo se vê prensada à parede. Agora nem ela tem movimento, nem ele tempo. Rápido, raivoso e torpe, ele é imediato.
Delas os cabelos que despencam em seus ombros, deles as mãos a pegar-lhe as pernas.
Enclausurada no pecado, presa a ele, Martas escorrem em lágrimas, entre as pernas, entre os corpos, em todos os olhos.
Ele a desfaz entre dedos no amarfanhado do leito.
A penumbra é clara e os olhos, de ver navios. Há febre pelo ar.
— Acho que esta na hora, diz Marta. Ele, braços nos olhos, suspira o sono de quando ela havia lhe caído aos ombros. Ela nem olha para ele. Seca-se, quer ter para sempre o perfume do beijo e do café, coloca a roupa e sai.
Acordou no ônibus, dormindo em largos ombros no sujeito à sua direita.


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