Sou sempre memória, sonora e perfumosa. Quem me conhece sabe. O que é bem irritante... toda hora falo em música, toda hora evoco perfumes.
Hoje, para me diferenciar, optei pelo inventário que se segue.
Inventário
Árvores? Diversas, indefinidas, nenhuma. E dependendo do terreno onde planto, florescem, fenecem e ás vezes crescem.
Filhas, algumas paridas outras quase criadas.
Livros? Em gênero e número indeterminados, li, guardei e vendi, a maior parte.
Tecidos, entre azuis e vermelhos, para um dia, sempre um dia, fazer costuras, entremear linhas e cerzir pontas.
Agulhas, contas, linhas e miçangas de se perderem nos dedos, caídas em minha caixa de vitrilhos.
Alany me ensinou, sou uma mulher de princípios. Principio cortes, costuras, tricôs e crochês. Bordo mais que Penélope sem nunca desfiar fio algum. Cuido de levar dez, dois, cinco anos em trabalhos que nunca hei de findar. E ainda me perco no tempo, nas tramas e na memória.
Distraída, sou quase esquecida. Confusa até.
No mais, me sinto perdida.
Cachos, tenho alguns. Hoje os cabelos são ruivos mas foram nascidos pretos para depois, com o tempo, acastanharem-se.
As mãos só sabem escrever. Minto. Os olhos escrevem. As mãos acariciam, quando alguém quer delas se apropriar.
Falta-me o alguém.
Os olhos foram perdidos. Quem souber, devolva, se os encontrar.
Sou mulher de prendas, dadivosa. Dou sorrisos e gargalhadas como o sol de fim de tarde, nos dias e nas horas. Dou cantos e encantamentos a quem acredita em meus pedaços. Dou chuva e concedo o sol para os olhos de quem me vê. Entrego o vento de presente a quem ventar, mas que seja vento de ventania, que troca tudo e nunca volta ao mesmo lugar.
Gosto de achar bocas que praticam beijos e ficar com os lábios inchados de beijar.
Mas aí também já são vontades e hoje me propus a inventariar.
E assim termino aqui, inventários de maio, mês de Maria, primeiros de alguns, pouco de todos.
Digressiva Maria
digressões atemporais, sensibilidades, letras e o que mais vier.
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