segunda-feira, junho 28, 2004

Tempo

Sem pensar sei que penso, me sinto te amando e tenho medo. Receio ter medo ou ter receios.
Não sei.
A perda é tão presente que o apavoramento deve vir temeroso de outras e outras. As novas apresentações me tocam. Meu desejo é estar para sempre enamorada. Mas a vida de tempo em tempo vem e me diz:
Levante-se, vá crescer.
Vire-se, vá cozinhar.
Troque-se, vá amar.
Minha vida vem e é assim que me diz.
Estou aprendendo a fazer o tempo acontecer. Deixar no quarto as poesias que andas me contando. Lavar no banho teus carinhos para novamente incuti-los debaixo da pele. Ouvir tua voz em todas as luzes. Apagar todos os sons só para ressonar os minutos de agora atrás.
Tenho vontade de abrir sua mala, pegar suas letras e novamente me ler em tuas poesias. Mas você não está então lembro da noite, respiro nova madrugada e espero que chegues para fazer dessa a minha nova noite de ontem.
Saia meu amor que contigo vão pedaços de mim.
Volte, moço que vem e que vai. Minha boca aguarda a sua, minhas mãos atam de vontade, e meu corpo espera arder.
Quero estar em teu corpo feito tatuagem, não seguir viagem e deixar a noite para você que vem.
Venha moço. Talvez o tempo nos faça.

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sábado, junho 26, 2004

Hoje pensei nos defeitos que tens.
Teus olhos são de tantas cores que se fazem olhos aos olhos meus, sempre tão seus.
Tu me vira os olhos e encontra jeitos, seu modo a me perder.
Teus lábios, bigodes poucos, atritam a pele que se abre em marcas, troféus de conquista, selos de presença.
A boca, que não fala desejos, beija com beijos de quero, pego e uso.
As mãos escondem-se das minhas. Atrás.
Teus dedos vêm de caminhos, que o desejo segue.
E o tempo, não existe.
Vives saindo...
Tantos defeitos de defeitos teus, parecem ser, sempre, defeitos tão meus.

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quinta-feira, junho 24, 2004

Aos meus sempre queridos

Desculpem a ausência que será ainda de mais alguns dias.
O moço chegou e estou me dedicando as er feliz.
beijos e muito carinho
maria

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domingo, junho 20, 2004

Elas hoje acordaram cedo, as mãos, independentes mas minhas. Acompanham-me e sem que eu saiba, farão de tudo com o tempo que lhes é devido.
Aflitas, esticam-se em vagar incontido. Ora sobre o travesseiro, ora entrelaçadas e caminhando à frente até se soltarem e caírem, cansadas, nas muitas almofadas. Brancas e de piquê.
Pensei até em me tocar. A hora atrasada não permitiu que fizesse da tua lembrança meu sentido. Aquietei-me. Mãos, atemporais, precisam destempero quando resolvem se fluir em harmoniosos desejos.
Como a lembrança não cobra e é sorrateira, você tornou-se visível para mim. Pensei em deixar que elas te achem.
Os dedos percorrem, as pontas sentem o toque, mas já tão trabalhadas nada de bom conseguem. Prefiro então usar para você o toque com os nós dos dedos. Um inusitado sentir. Veja se gosta. Entre as pernas abertas, mãos pequenas, as minhas, quase delgadas. Unhas, quase sempre vermelhas. Os dedos exploram as antigas novidades.
Não sei como pedem, mas adoram ser donos
Dedos têm fases morosas. Não querem sair de onde se instalaram. Então ficam assim, mordentes, entrelaçando fios que nem tamanho tem, mas vivem em profusão. Rentes, entremeados e rodilhando. Sabe que adoro dizer bobagens? A palavra permeia a boca e o prazer. Fica na semeadura da memória.
Quer saber? Desfaço a lembrança como quem procura e nunca encontra, aquilo onde pensou ter deixado. Reminiscências, como a própria palavra, são pesadas.
Guardo essas mãos para usar agora as de ablução diárias. A água é de um gelo tal que nem o maior calor espanta o arrepiar do primeiro contato com o dia.
Acostumadas à lida, temperos, águas e detergentes, minhas mãos seguem a rotina. Preparam, autômatas que são, o cuidar de toda gente.
Lavam filhos, secam corpos e tateando levam o alimento as bocas, mero ato de sobrevivência da raça. Os filhos têm que andar.
Já sossegadas da parte obrigacional pedem essas minhas mãos descanso. Faço isso lhes dando peso. Um peso físico que me faz bem. Segurem este livro, digo-lhes. E fico, começo da tarde, sentada no sofá da sala, pernas esticadas à frente, lendo o que me foi presenteado por você – O itinerário de Pasárgada.
Pensei em Bandeira. Ele deveria ter-te nas mãos para saber o gosto que tu tens. Minhas mãos o sabem. Gostam de ti até pelo avesso.

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sexta-feira, junho 18, 2004

Parece que dizes
Te amo, Maria
Na fotografia
Estamos felizes




Esta é a terceira... não! É certamente a quinta noite onde perco o sono por ansiedade, agonia e o que mais for. Com clareza, provavelmente a primeira noite que perco o sono... com sono e preguiça... mas que adoraria ficar acordada. Queria arrumar o quarto para receber quem chega, meu moço que vem de longe.
Com cuidado escolho seu lado da cama.
Não! Não...
Deixarei a ele o lado que deitar.
Corri, no final da tarde, a lhe comprar agasalhos. A terra aqui anda fria, bem contrária as tuas, as terras de lá.
O quarto me preocupa. Deveria estar em ordem.
Mas a minha ordem deve ser de outro mote. O branco da parede está lanhado pelo abajur que lascado arranha a madeira da cama e vai, água a água furando a parede..
Esse moço que chega de longe,.. e que sabe dos meus defeitos e sabe fazendo não se importar, esse é o moço que chega pra me triscar, pegar e guardar.
Vem para meus lençóis antigos, moço. Foram lavados ontem.
Vem para aportar minha cama. E quando aqui deitares contigo não farei amor Isso muitas já fizeram. Já o disse tantas vezes... e novamente direi.. cuidarei de te cuidar . vou te assoprar os devaneios, criar sementes.
Ah, moço que aqui me habita, não sou dona de seu corpo nem almejo sua alma. Apenas velo o sono, primeiro de muitos em cama comum. Comum de alvos sonhos e predicativa nudez.
Descanso em sua cansada fadiga de corpo as minhas novas unhas vermelhas. Para te receber refiz o sempre. Banho e cuidados. Cabelo renovado num vermelho ainda mais estridente, ilumina de cores os cachos que pouco restam. A pele esfoliou-se com o sol do inverno. Renasceu velha. Na certeza de já ser usada porque sei que é bem assim que devo oferendar-te.
Levei sons a descobrir que a música tocando era a que mais magoou meus 15 passados anos. Mundos jamais serão What a Wonderful World. Quando aos quase quinze, achava que sim. Mas aí, veio a vida má e fiquei morta de mim quando perdi minha primeira parte. E eu que ontem anoiteci pedindo aos céus um sinal, agora, quando nem mais esperava; agora. quando decidi sem sinal algum fazer da minha a minha nova vida, chega meu aviso.
Que o tempo pare... mas que o tempo ao tempo dado, volte e volte sempre.
Estancada em mais de anos, levo como sua a minha história. Não parei, nem chorei e jamais pensei em desculpas. Fracasso no meu melhor. Sempre.
Fracasso não é desdouro. É do caos. Velar sonos, criar infernos e fantasiar perdas. Ai como pareço um caso de paixão, como sou um caso de amor, como quero ter sono, como quero dormir.

Pensei, repensei tanta coisa
Ah, me deixa ser teu marido
Pensei, repensei tanta coisa
Queria casar-me contigo


Ontem disse que amanhã te amaria. Hoje sei que sou toda de amanhãs.
Devo ter medo, moço?


Chega mais perto, moço bonito
Chega mais perto meu raio de sol
A minha casa é um escuro deserto
Mas com você ela é cheia de sol
Molha a tua boca na minha boca
A tua boca é meu doce é meu sal...



Letras incidentais

Parece que dizes... Anos Dourados — Tom Jobim e Chico Buarque que sábado vindouro completa 60 anos

What a Wonderful World — que pecaminosamente, defeito gravíssimo para alguém formada em música, não sei a autoria precisa.. sempre dizem Louis Armstrong mas não garanto

A vida má, se bem me lembro era quadrinha que recitei na escola, de Manoel Bandeira que também não garanto a autoria afinal todos sabem sou esquecida, confusa e desmiolada
Quando menino
Fui como todos, feliz
Aí veio a vida má
E fez de mim o que quis


E por final pensei tanta coisa e chega mais perto moço bonito fazem parte do tema de amor de Gabriela docemente cantando pelo quarteto em cy com Tom Jobim, cantor e autor

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quarta-feira, junho 16, 2004

MEIA BUNDA

O que sempre me deixava teso eram as abaixadas.
Saia justa, curtinha e as coisas, todas caindo no chão.
Neca abaixava feito boneco de madeira, pernas durinhas e caía toda pra frente. A saia subia, mostrando meia bunda, meio rego me deixando teso inteiro.
unca fui tomar tanto café na cozinha.
Um dia eu pensava, um dia...
Um dia ela teria que dar marcha-a-ré e aí...
Vivia de sonhar...
Merda! Sem sabonete.
— Mãe, pai, alguém, o sabonete!
— Aqui, me disse uma mão enfiada dentro do chuveiro. Reconheci Neca. O pudendo também.
— Esse sabonete não gosto, reclamei, sem saber o que fazer. Queria mesmo era sair e catar aquela bunda à força.
— É o meu, responde.
— Toma — e Neca entra no chuveiro, com a sainha justa, camisa colada, já na água, meu tesão e a água... espirrava, espirravam.
Saia sem calcinha, camisa molhada...
Neca, disse, é hoje.
Hoje? Só vim dar sabonete.
E Neca saiu.
Assim. Só saiu
Ah, aquela bunda...

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sábado, junho 12, 2004

Maria e Quimaz


Maria.



Sou Maria, correta, mulher honesta, de ir a igreja toda semana, alimentar os pobres, dar dízimos, trabalhar na quermesse. Viúva de Zé da Esquina. Que sou boa nessa vida, sei que sou. Que aqui se faz e aqui se paga é coisa mais certa que a morte. Meu Zé, que Deus o tenha, foi levado muito tarde dessa vida. Sofri e nunca reclamei. Assim é o fardo que me deu Nosso Senhor Jesus Cristo. Mesmo viúva e sem filhos, não há dia que amanheça sem o sol me ver trabalhando. No tanque, na casa, plantando ou costurando. Sei dos meus deveres de mulher, minhas obrigações de viúva. Ando de preto. Me cai bem, mas é minha roupa de luto. Honro meu marido morto. Viúva e solitária. E quando me vêm os pensamentos, me ponho a dormir nas pedras pretas, no chão da cozinha.



Quimaz



Não sei se o nome ou quem sabe a cicatriz, mas o certo é que Quimaz sempre se sentiu um igual. Com o nome, Quim do pai Joaquim, e Maz de Maria Zeneide, com seus defeitos, suas deformidades. Sentia-se como todos. Um pouco diferente, mas igual. Coxo, andava direito. Trabalhador, sustentava a família, mulher e sete filhos, os pais e os sogros. Um cunhado meio preguiçoso também. Andava reto pela vida. Tão reto que o pessoal de Monte Azul já não via mais seu pé arrastado, a deformação do lado esquerdo do rosto, e o nariz até hoje quebrado. No espelho Quimaz nunca se viu diferente. Penteava os cabelos para trás e ia para a lida. Namorou só Tereza e com ela teve os filhos. Casou depois do segundo, na igreja, quando a cidade voltou a ter padre.



A Chuva



Chuva muito escura, céu terrível, impossível olhar para cima. A água bulia nos olhos, fechava o nariz, pedia para a boca se abrir. E a chuva sempre tem bom gosto. A chuva de Maria era reta, clara e mansa. A chuva, porque o céu era dos estrondos, dos reclamos indignados de São Pedro. Já a de Quimaz, desordenada como seu andar e de céu limpo. Abundante somente nas águas. Alagava, encharcava, subia nas calçadas. Nas chuvas de Maria, Quimaz nem saí de casa.
Maria e a chuva. Maria na chuva. A única vez que Quimaz viu Maria foi na chuva do equinócio. Uma vez na vida, uma só, Maria saiu na chuva. Se despiu. Tomou a chuva em mãos de concha, deitou na terra, abriu as pernas e se deixou macular. Os trovões silenciaram-se e Quimaz foi à janela. Viu Maria. Sentiu Maria. Tantos filhos e só agora sentiu as pernas, o entre as pernas. Melhor sair da janela, pensou Quimaz. E continuou no mesmo lugar.



O Tempo



Quimaz vai a igreja, todos os dias. Maria, nos domingos. Ainda não se encontraram. Quimaz passou a ter aqueles quesitos necessários à beatificação da alma. Terços, santinhos. Maria, sempre de luto. E como o luto lhe cai bem. Tereza, mulher de Quimaz, reclamou ao padre a falta do marido nas obrigações do casal.
- Ele reza pelo bem de todos, minha filha. Seu marido agora pertence a Deus.
E assim foi. Maria, sempre de luto. Quimaz, de casa para a lida, da lida para a igreja, da igreja para casa.
E todo ano, no equinócio da primavera...

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quarta-feira, junho 09, 2004

Queridos que vêm aqui, meus amores, todos vocês.
Desculpem a ausência destes dias, aqui e em vossos blogs mas filha Teté anda podrinha e estou cuidando de cuidar que os médicos descubram o que ela tem ou que pelo menos um pouco ela melhore.
Enquanto isso colocarei aqui uns curtinhos que adoro fazer. Antigos.. mas que espero, sirvam de tapa buraco para minha ausência nos próximos dias
beijos a todos
maria

Um quarto

Tralhas, roupas, memórias. Julho começa quando o semestre se renova. Não tenho o que deitar fora. Sou fora de guarda, descautelada. Fecho a porta do sábado, entro nos domingos e peço à vida que fique de fora.


Segunda

Segunda, dia de não gosto.
Não gosto de começos, não gosto de bancos, não gosto de não gostar. Mas a segunda sempre vem. Zeros, valendo aos outros, zeros esquerdos para mim.
Assim os pago. Assim me pego. Assim pretendo e chego nos dias 15.
Sem grana, quase nada, largo as obrigações e decido. Vou ser feliz da vida
Sendo assim, nos quinze faltantes, vou brincar de viver.
Vou ser sábado na vida.

Sabor de bebê


A criança no colo, lado direito, encaixada feito montaria. Mãe e filha, de lá pra cá. Nem o tapete ficou ralo, nem a barriga cansou.
Carregava uma ao lado, outra na barriga e a barriga, crescia. Dia vinha, noite chegava e barriga, a mãe e a filha fazendo ciranda em linha reta.
Marido, pai algoz chegando...
— Mãe o pai tá com cheiro de bebê. Ele, bêbado, caí no chão de pedra.

A CAMA

Com paciência viperina Maria arquitetou.
Vida e vingança.
Machado, martelo e infelicidade.
Quebrou a cama.
Jeitosamente realisada, a vingança perfeita.
José quase inocente, deita-se e a cama cede. As farpas se encoxam onde Maria havia visto Teresa encaixar-se nele.
Hoje, Maria e José, casados, continuam. Ela, faceira, embonitou depois do acidente. Ele, entrevado, vive só.
Camas separadas





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domingo, junho 06, 2004

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Às vezes encrenco, outras emburro. Mas em todas às vezes, pego a tela, separo novas linhas e começo mais um bordado.
Nunca trago bordados lá para fora.
Se vai ficar pronto, se ficará bom, se o avesso será perfeito, são razões sobre as quais jamais divago.
Tenho por obrigação, única, o bordado.
Outros os tempos e sentaria na porta do quintal para pensar, tomando sorvete direto do pote. Cheguei a gostar destas subversões não muito graves.
Sento, sim... sentava. Sentava encostada no batente esquerdo, para deixar a porta sempre aberta e com as pernas esticadas, segurar o outro lado. E assim, do jardim, perceber só as laterais.
Jardim pouco cuidado, vezes desfeito em tantas mudas, outras, infestado de pragas.
Nos finais de tarde, quase acolhedor. No começo da noite, aterrador.
O sol amanhece como morte para a grama já esturricadamente estéril. Deixei de cuidar desde... desde que resolvi não cuidar mais do jardim.
Entretanto gosto de ver que nem meu desgostar devastou esses poucos verdes.
Aqui venho maquiar meu tédio. Disfarço-o de jardim. Um estranho jardim plantado em cirílico para que eu jamais possa lê-lo. Guardo as tardes para decidir. O sol vai, o sol vem e nunca chego a nada.
Penso nas razões adequadas. Penso.
Penso que gostaria de ser Anna K. forte, mas quem sabe entregue a poucos desmaios. Lembro do conde, do trem da história, mas fiquei com a imagem, docemente juvenil, que desmaios devem resolver quase tudo
Acontece que se desmaiar aqui, aqui ficarei desmaiada até acordar, sozinha
Pedi dias para decidir. E decidir, não sei se ainda sei.
Passei noites bordando. A dama de azul, a moça da saia vermelha, o céu desbotado e as terras claras. As linhas sobraram. Alcancei meu aquário de linhas e coloquei as novas sobras. E só assim percebi que meu vidro, no batente de todas as cozinhas que sou, reúne cores que o sol traz e leva.
Segurei firme meu arco íris envidraçado, entrei e decidi.
Amanhã começo a te amar.


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sexta-feira, junho 04, 2004

BANHO

Isso de ter tristezas me assaltando sempre que vou ao banheiro está começando a me deixar preocupada. Estaria eu com minhas funções vitais prejudicadas por esta indefinida melancolia que me ataca quando o sol chega bulindo com as toalhas?
Um sol tão quente e colorido, matizado a rosa-chá. Cor de madalena, cor de avó. Minha em seu jasmim-laranja.
- Menina, isso é modo de se comportar? Já tomar banho! Essa era minha avó, achando que a vida se resolvia aos banhos. E como era castigo, vovó enchia a banheira branca, com sais perolados do seu jasmim. As nuvens de vapor carregavam as dores, lavavam a raiva e a água quente demais, pelava a pele e a culpa. E eu, olhos-de-senão, não reclamava.
- Entra menina que queima coisa nenhuma. Falar e agir, assim era minha avó, jasmim-de-mato. Como era convite obrigatório, entrava na água escaldante. Como doía, como ardia. Mas quieta ficava. Sempre quieta. Os olhos, já estes avermelhavam-se e derramavam lágrimas que escorriam silentes pelas faces evaporadamente rubras.
- Viu, minha filha? O choro só confirma seu arrependimento. Também, eu gritava por dentro, com essa água me queimando vó... até crocodilo pede abrigo. Mas reclamava só por dentro, só por dentro. Nunca me insubordinei contra minha avó. Eu era eu seu jasmim-de-soldado e ela meu jasmim-de-cabo.
A casa era antiga para mim, novíssima para minha avó. Tão nova que os canos cantavam na hora de sair água. Uma água que nunca mais tive. Cloro-limpa-alma. Enquanto eu chorava, sem sons, na vermelhidão do arrependimento, minha avó, pequena, azougue— verdadeiro jasmim-da-itália — colocava no canto da banheira duas toalhas enormes, que ela tinha acabado de recolher no quintal, perfumadas-a-limpinhas. Macias. Toalhas de aliciar prazeres. Tão brancas quanto minha avó, tão alvas como a alma recuperada da conspurcação cotidiana.
E quando eu, tal qual Afrodite, nascida entre espumas do mar saía da banheira, em renovado estado de pureza, recebia a mão salvadora de vovó para voltava a reinar, soberana, entre os que me amavam. Minha avó era assim incensadora das auto-estimas alheias. Suas zangas eram meu sutil estímulo. Quisera eu poder tê-las hoje em dia.
Falta-me teu recender, minha avó. Deveria ter feito de você minha profissão de fé. Vovó seria a liturgia da palavra, suas conversas, óbvio, os ritos iniciais e o banho a quente eucaristia. Os sais, as oferendas, o vapor, o mea culpa. Por comunhão aquela escova que dos cavalos me lembram a crina e os cantos finais seriam a sapatilha que ela mesma fazia das tiras de antigas toalhas.
Não há nada melhor que a memória restaurada. Até jasmim-cheiroso a vista não embrulha.
Creio que é por isso que rezo, ao sair do banho.
E choro ao entrar.
A liturgia do banho. Os jasmins de minha avó



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quarta-feira, junho 02, 2004

Primeiro veio. Começou e tentou. Atentando o tentador.
Uma história de sorriso e pele, sensual. E porque sexy, a foto. Nua. Uma quarentona nua? Quase entrei nessa tua ginga. Mas o plantado ficou e sua semente fez raiz. Vergonha que não deixa nem me pensar. Fato sem vontade que mete medo, e o que é de medo, medrado fica, permanece.
Depois, mandei o querer para minha gaveta de esquecidos e guardei.
Você saiu, fez-se tênue a sua viajem da lembrança. Nem o tempo aconteceu na distância do seu espaço. Hoje, para mim, é como se ontem. Sem mudanças, nada diferente.
Voltado, ordem e pedido. A voz, nem sensual se fez. Nada diferente. Inclemente reiterou: mande sua foto, nua. E minha vergonha, feito caixa aberta à Pandora, o vento levou.
Pedi ajuda. Ajuda de amiga, me perguntei de você. Ajuda para não perder a vergonha. E me disse: se crie e dê-se a ele.
Fiz-me, renovada.
Vou sim, vou mandar-me à você, colorida de nudez. Com este que vai e volta, que nunca me deixa, meu medo.
Por isso, meu Shariff de plantão, seguem foto e explicações.
O corpo é em azul, entre as cores da sua preferida. Como e porque venho do mar, pedi uma sereia estampada em minhas costas, com conchas e ondas.
A foto é andando. Porque o meu que desce e sobe o seu, esse meu mais sensual, que primeiro te atraiu, mostro andando. Gingado, de rebolar meus passos. Atentando o teu querer.
Sei bem que adora me ver de costas.
E como sou água e você terra, nas ancas vem pousado leve graveto. Sua posse em minhas terras, eu madeira de teus sucos.
Segue, agora, a primeira de várias fotos.
As outras, se quiser, venha você mesmo tirar.
Beijos da moça nua bamboleante... na foto em azul.
Sua Lara, doutor Jivago.

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