BANHO
Isso de ter tristezas me assaltando sempre que vou ao banheiro está começando a me deixar preocupada. Estaria eu com minhas funções vitais prejudicadas por esta indefinida melancolia que me ataca quando o sol chega bulindo com as toalhas?
Um sol tão quente e colorido, matizado a rosa-chá. Cor de madalena, cor de avó. Minha em seu jasmim-laranja.
- Menina, isso é modo de se comportar? Já tomar banho! Essa era minha avó, achando que a vida se resolvia aos banhos. E como era castigo, vovó enchia a banheira branca, com sais perolados do seu jasmim. As nuvens de vapor carregavam as dores, lavavam a raiva e a água quente demais, pelava a pele e a culpa. E eu, olhos-de-senão, não reclamava.
- Entra menina que queima coisa nenhuma. Falar e agir, assim era minha avó, jasmim-de-mato. Como era convite obrigatório, entrava na água escaldante. Como doía, como ardia. Mas quieta ficava. Sempre quieta. Os olhos, já estes avermelhavam-se e derramavam lágrimas que escorriam silentes pelas faces evaporadamente rubras.
- Viu, minha filha? O choro só confirma seu arrependimento. Também, eu gritava por dentro, com essa água me queimando vó... até crocodilo pede abrigo. Mas reclamava só por dentro, só por dentro. Nunca me insubordinei contra minha avó. Eu era eu seu jasmim-de-soldado e ela meu jasmim-de-cabo.
A casa era antiga para mim, novíssima para minha avó. Tão nova que os canos cantavam na hora de sair água. Uma água que nunca mais tive. Cloro-limpa-alma. Enquanto eu chorava, sem sons, na vermelhidão do arrependimento, minha avó, pequena, azougue— verdadeiro jasmim-da-itália — colocava no canto da banheira duas toalhas enormes, que ela tinha acabado de recolher no quintal, perfumadas-a-limpinhas. Macias. Toalhas de aliciar prazeres. Tão brancas quanto minha avó, tão alvas como a alma recuperada da conspurcação cotidiana.
E quando eu, tal qual Afrodite, nascida entre espumas do mar saía da banheira, em renovado estado de pureza, recebia a mão salvadora de vovó para voltava a reinar, soberana, entre os que me amavam. Minha avó era assim incensadora das auto-estimas alheias. Suas zangas eram meu sutil estímulo. Quisera eu poder tê-las hoje em dia.
Falta-me teu recender, minha avó. Deveria ter feito de você minha profissão de fé. Vovó seria a liturgia da palavra, suas conversas, óbvio, os ritos iniciais e o banho a quente eucaristia. Os sais, as oferendas, o vapor, o mea culpa. Por comunhão aquela escova que dos cavalos me lembram a crina e os cantos finais seriam a sapatilha que ela mesma fazia das tiras de antigas toalhas.
Não há nada melhor que a memória restaurada. Até jasmim-cheiroso a vista não embrulha.
Creio que é por isso que rezo, ao sair do banho.
E choro ao entrar.
A liturgia do banho. Os jasmins de minha avó
Digressiva Maria
digressões atemporais, sensibilidades, letras e o que mais vier.
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