Elas hoje acordaram cedo, as mãos, independentes mas minhas. Acompanham-me e sem que eu saiba, farão de tudo com o tempo que lhes é devido.
Aflitas, esticam-se em vagar incontido. Ora sobre o travesseiro, ora entrelaçadas e caminhando à frente até se soltarem e caírem, cansadas, nas muitas almofadas. Brancas e de piquê.
Pensei até em me tocar. A hora atrasada não permitiu que fizesse da tua lembrança meu sentido. Aquietei-me. Mãos, atemporais, precisam destempero quando resolvem se fluir em harmoniosos desejos.
Como a lembrança não cobra e é sorrateira, você tornou-se visível para mim. Pensei em deixar que elas te achem.
Os dedos percorrem, as pontas sentem o toque, mas já tão trabalhadas nada de bom conseguem. Prefiro então usar para você o toque com os nós dos dedos. Um inusitado sentir. Veja se gosta. Entre as pernas abertas, mãos pequenas, as minhas, quase delgadas. Unhas, quase sempre vermelhas. Os dedos exploram as antigas novidades.
Não sei como pedem, mas adoram ser donos
Dedos têm fases morosas. Não querem sair de onde se instalaram. Então ficam assim, mordentes, entrelaçando fios que nem tamanho tem, mas vivem em profusão. Rentes, entremeados e rodilhando. Sabe que adoro dizer bobagens? A palavra permeia a boca e o prazer. Fica na semeadura da memória.
Quer saber? Desfaço a lembrança como quem procura e nunca encontra, aquilo onde pensou ter deixado. Reminiscências, como a própria palavra, são pesadas.
Guardo essas mãos para usar agora as de ablução diárias. A água é de um gelo tal que nem o maior calor espanta o arrepiar do primeiro contato com o dia.
Acostumadas à lida, temperos, águas e detergentes, minhas mãos seguem a rotina. Preparam, autômatas que são, o cuidar de toda gente.
Lavam filhos, secam corpos e tateando levam o alimento as bocas, mero ato de sobrevivência da raça. Os filhos têm que andar.
Já sossegadas da parte obrigacional pedem essas minhas mãos descanso. Faço isso lhes dando peso. Um peso físico que me faz bem. Segurem este livro, digo-lhes. E fico, começo da tarde, sentada no sofá da sala, pernas esticadas à frente, lendo o que me foi presenteado por você – O itinerário de Pasárgada.
Pensei em Bandeira. Ele deveria ter-te nas mãos para saber o gosto que tu tens. Minhas mãos o sabem. Gostam de ti até pelo avesso.
Digressiva Maria
digressões atemporais, sensibilidades, letras e o que mais vier.
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