sábado, junho 12, 2004

Maria e Quimaz


Maria.



Sou Maria, correta, mulher honesta, de ir a igreja toda semana, alimentar os pobres, dar dízimos, trabalhar na quermesse. Viúva de Zé da Esquina. Que sou boa nessa vida, sei que sou. Que aqui se faz e aqui se paga é coisa mais certa que a morte. Meu Zé, que Deus o tenha, foi levado muito tarde dessa vida. Sofri e nunca reclamei. Assim é o fardo que me deu Nosso Senhor Jesus Cristo. Mesmo viúva e sem filhos, não há dia que amanheça sem o sol me ver trabalhando. No tanque, na casa, plantando ou costurando. Sei dos meus deveres de mulher, minhas obrigações de viúva. Ando de preto. Me cai bem, mas é minha roupa de luto. Honro meu marido morto. Viúva e solitária. E quando me vêm os pensamentos, me ponho a dormir nas pedras pretas, no chão da cozinha.



Quimaz



Não sei se o nome ou quem sabe a cicatriz, mas o certo é que Quimaz sempre se sentiu um igual. Com o nome, Quim do pai Joaquim, e Maz de Maria Zeneide, com seus defeitos, suas deformidades. Sentia-se como todos. Um pouco diferente, mas igual. Coxo, andava direito. Trabalhador, sustentava a família, mulher e sete filhos, os pais e os sogros. Um cunhado meio preguiçoso também. Andava reto pela vida. Tão reto que o pessoal de Monte Azul já não via mais seu pé arrastado, a deformação do lado esquerdo do rosto, e o nariz até hoje quebrado. No espelho Quimaz nunca se viu diferente. Penteava os cabelos para trás e ia para a lida. Namorou só Tereza e com ela teve os filhos. Casou depois do segundo, na igreja, quando a cidade voltou a ter padre.



A Chuva



Chuva muito escura, céu terrível, impossível olhar para cima. A água bulia nos olhos, fechava o nariz, pedia para a boca se abrir. E a chuva sempre tem bom gosto. A chuva de Maria era reta, clara e mansa. A chuva, porque o céu era dos estrondos, dos reclamos indignados de São Pedro. Já a de Quimaz, desordenada como seu andar e de céu limpo. Abundante somente nas águas. Alagava, encharcava, subia nas calçadas. Nas chuvas de Maria, Quimaz nem saí de casa.
Maria e a chuva. Maria na chuva. A única vez que Quimaz viu Maria foi na chuva do equinócio. Uma vez na vida, uma só, Maria saiu na chuva. Se despiu. Tomou a chuva em mãos de concha, deitou na terra, abriu as pernas e se deixou macular. Os trovões silenciaram-se e Quimaz foi à janela. Viu Maria. Sentiu Maria. Tantos filhos e só agora sentiu as pernas, o entre as pernas. Melhor sair da janela, pensou Quimaz. E continuou no mesmo lugar.



O Tempo



Quimaz vai a igreja, todos os dias. Maria, nos domingos. Ainda não se encontraram. Quimaz passou a ter aqueles quesitos necessários à beatificação da alma. Terços, santinhos. Maria, sempre de luto. E como o luto lhe cai bem. Tereza, mulher de Quimaz, reclamou ao padre a falta do marido nas obrigações do casal.
- Ele reza pelo bem de todos, minha filha. Seu marido agora pertence a Deus.
E assim foi. Maria, sempre de luto. Quimaz, de casa para a lida, da lida para a igreja, da igreja para casa.
E todo ano, no equinócio da primavera...

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