sexta-feira, julho 30, 2004

Às vezes escrevo, às vezes não, mas em todas as vezes não esqueço que sou mãe, portanto agora com vocês as coisinhas das filhinhas, não mais tão filhinhas assim.
Ontem a minha penúltima, Mamali, fez dez anos.
A todos que aqui aparecem meu enorme carinho, e muito de meus beijos e minha memórias e todas as letras.
maria

Histórias de Fadas.


— Mãe, hoje tem história?
— Claro.
— História com lanche, né, mã?
— Claro. Mãe, que sou, sempre respondo aos filhos sem prestar muita atenção. Sanduíches de presunto e queijo, chocolate quente, os edredons na sala e todas debaixo das cobertas.
Comecei.
— Era uma vez um sapo...
— Um sapo, mãe? Sapo é feio e sempre faz arroto com a boca, reclama Mamali.
— Uai, mas sapo não vira sempre príncipe nas histórias de fada? perguntei olhando acima dos óculos.
— Ah, mãe, larga de ser boba. Virar vira, mas é muito igual. Por que não conta sobre um cachorro de fadas? — pede Lulu
— Ô Lulu, cachorro? Ficou boba é? Gosto mais de leão, diz logo Mamali
— Ai Mamali boba é você. Não existe leão de fadas.
— E nem cachorro sua tonta.
Não tivesse eu berrado e o estapeamento fraternal já teria começado.
Acalmada a minha platéia expliquei:
— Meninas quem vai contar a história sou eu. Sentem-se. As duas se acomodaram. E o cotovela e empurra-empurra continuava.
— Uma em cada sofá! Foi minha decisão final. E comecei pela segunda vez.
— Era uma vez...
— Se é de sapo, de sapo que não é sapo, pó pará, diz Mamali. Por hoje chega de sapo mã.
— Mas Mamali assim você não deixa a mamãe nem começar. Espera mais um pouco para ver que história ela vai contar. Continua mãe, pede Teté.
— Vai mãe, conta do tigre de fadas, provoca Lulu.
— Não era leão?
— Mãe... gritam as duas. A Teté tá enchendo a gente, continua a dupla.
— Ô Mamali, você nem sabe do que gosta? E você Lulu é maria-vai-com-as-outras... mudou só porque a Mamali mudou então eu escolho. Quero a Rapunzel.
Mãe tem o dever de ofício de contemporizar.
— Meninas, meninas, calma. Uns três tons acima, para ser ouvida, recomeço. Era uma vez uma...
— Uma menina que tinha um cabelão, que jogava pela janela e pronto acabou tudo. Ah, ela também queria rabanete quando tava grávida. Lulu foi a mais rápida.
— Ela não Lu, a mãe dela que queria rabanete da vizinha.
— É verdade Mamali, queria rabanete da grama da vizinha.
— Horta.
— Horta? É?
— É.
— Ah, tá, então tá. Vai mãe, continua.
— Certo então a mãe da Rapunzel...
— Ô mãe, essa não, essa a Lulu já contou toda. Conta outra. Conta a do leão de fadas. Aquela do leão que pisa num espinho e...
— Pronto, já contou tudo de novo. Não é assim que conta, né mãe? Você tá toda errada. Lulu diz pra mamãe que história você quer.
— Quero Ariel, pode? Quantas pode poder pra você contar, mãe?
— Oras, meninas, quantas vocês quiserem. Mas só posso contar uma de cada vez.
— Eu sabia, eu sabia. Você sempre arrumando coisa pra não ficar com a gente né mãe! Já vai né?
— Mas arrumando o quê, Lulu se ainda estou aqui, sentada.
— Você disse que só vai contar um, choramingou Lulu.
— Mas é claro minha filha, uma de cada vez.
— Ah è? Mas até agora você já contou um monte...
— Eu? Nem consegui começar minha história...
— Se for de sapo pó pará, pó...
— MAMALI!! Gritou Teté.
— Não fiz nada, não fiz nada berrou Mamali dançando, pulando pela sala.
— Chega! Agora chega, as duas sentadas que vou contar histórias de fadas hoje.
— Mas é só hoje, mã?
— Ô Lu, pergunta não que a mamãe acaba ficando brava, ri Mamali.
Sou mãe pouco paciente. Com vontade de morder as meninas grito:
— Meninas, sentem-se que vou começar.
— Era... E as duas pequenas, ao mesmo tempo, começaram... Era uma vez, era uma vez ... e caíram na risada. Ri também. Não há como perder a calma com duas gurias tão terríveis. Mudei minha tática.
— Meninas, me digam vocês: que história preferem?
— Rapunzel.
— Essa já foi, quero a Branca de Neve.
— Pra quê quer essa Mamali? Ela morre no final.
— Morre nada, ela fica só dormindo.
— Dormindo uma ova, ela faz de conta que tá morta só pro príncipe beijar ela igual o namorado da Teté faz com ela.
— O namorado da Teté também beija a Branca de Neve?
— Não Mamali sua tonta! O namorado da Teté beija a Teté, fala Lulu bem alto.
E a tonta, que é essa mãe aqui, ainda tem a pachorra de perguntar — Teté, você está namorando?
— Claro que não, mãe.
— Mentira! Mentira! Berravam as duas pequenas, dançando ao lado da irmã mais velha.
— Teté dá beijo de língua. Teté dá beijo de língua, gritaram em duo.
— Teté... Estou esperando...
— Mãe!!! Assim você me dá vergonha, reclama Teté. Você é uma velha. Tá esperando? Vou morrer de vergonha juro que vou.
— Vergonha por que? Ela vai ficar pelada? quis saber Mamali.
— Pelada? A princesa? Ué, no meu livro não tinha princesa pelada não, reclama Lulu
— É que quem fica pelada, fica grávida, Lu.
— Mamãe tá grávida, diz Teté muito solene.
— Também não tinha princesa grávida reclama de novo Lulu.
— Meninas, que história é esse de ficar pelada? E grávida?
— Mãe, pergunta matreira Mamali, você toma banho pelada?
— Claro que sim, respondo, tonta como sempre.
— Viu? Fica pelada e tá grávida.
— Grávida?? Grávida de nenê? Ô mãe... nem falô né? Você só conta tudo pra Mamali e pra Teté. Eu nunca sei nada. E é claro que Lulu começou — fazendo bico, chorando.
— Meninas! Chega. Donde tirou a idéia de gravidez dona Teté? Eu, impaciente, não estava entendendo mais nada. Meninas confusas as minhas.
— Você é quem disse que tava esperando, respondeu Teté.
— Sim, estava esperando para contar a história... esperando você me dizer que história é essa de namorado, Teté.
— Ah isso? Pois é... eu fiquei.
— Ficou? Mãe tende a ser tão burra de vez em sempre... Ficou onde? As três se olharam e claro, caíram de rir da incauta mãe que nem sabia o que era ficar. Bem que tentaram explicar mas três meninas falando, gesticulando ao mesmo tempo, não explicam nada. Melhor voltar ao meu conhecido.
— Meninas e a história? Qual contarei?
— A da princesa, pede Lulu.
— É, pode ser dizem Teté e Mamali.
— Certo, mas depois quero saber desse namorado viu dona Maria Ester.
— Danou-se, Té. Mamãe descobriu tudo. Tá ferrada, tá ferrada. As duas pequenas novamente dançavam e pulavam em volta da irmã mais velha, rindo e gritando, fazendo um verdadeiro aranzel.
— Chega, não conto mais história nenhuma. Tentei levantar mas fui derrubada no sofá por três garotas berrentas. Conta mãe, conta, pediam elas. Inventa uma história pra gente pede Mamali.
— Tá bom. Que história vocês querem?
— Procurando Nemo.
— Nemo é filme Teté, tem que ser história de contar e não história de ver diz Mamali.
— Da Ariel, pede Lulu.
— Essa você já pediu, Lu. Melhor a Branca de Neve.
— Ela tá morta, já falei e eu não gosto de história de morta, Mamali.
— Mas que mania a sua Lulu de achar que a Branca de Neve tá morta. Tá nada.
— Tá sim. Uma e outra, na beira de começar novo entrave.
— Vai ver a bruxa comeu ela junto com Joãozinho diz Teté implicando com Mamali que já estava com aquele bico de emburrada.
— Morreu, morreu e se morreu, não tem história, grita Lulu
— Isso porque vocês ainda não ouviram a mamãe contar a nova história da Chapéu, diz Teté.
— Nova? As duas param e perguntam ao mesmo tempo.
— Nova, responde Teté. A pobrezinha da chapéu vai visitar a avó e encontra lá um lobo que serviu a própria avó de comida. Deu a avó pra chapéu comer. A chapéu comeu a vovó achando que era carne e não a vovó.
— Éca, qui nojo reclamam Mamali e Lulu fazendo muxoxo de repulsa e enfiando o dedo dentro da boca brincam a mímica de vômito.
— Mãe, se vai contar história bléca eu vou embora.
— Péra Mamali que também vou com você. E saíram correndo da sala gritando... sapo, sapo, mamãe é princesa de sapo... éca, éca...
— Teté! E o namorado?
— Mãe! E a sua gravidez? E foi outra a sair correndo. Nos quase 14 e ainda é uma moleca menina.
E eu fiquei para contar a história.
— Era uma vez um sapo que se vestiu de mãe e foi contar história de fadas para as filhas. Mas a lagoa secou, o sapo morreu e a mãe foi fazer tricô.


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segunda-feira, julho 26, 2004

       

         A bem dizer não estava pro dia. Na verdade nem ele era o certo e nem a paixão era a mesma mas fazer o quê quando o coração pede e as mãos obedecem?
         Ir, o único caminho.
         E a vida, na verdade, parece existir somente para ser vivida. Estar nessa compreensão é que se faz difícil para mim.
         A diversidade deveria divergir, encantar as pessoas.
         Algumas vezes me perco tentando, querendo saber, pretendendo mencionar todas as coisas. E é nestas horas que titubeio me dando conta que existem fatos a serem nomeadas e outros a serem sentidos e que nesses até nomes acontecem... intuição, outras angustias em algumas vezes, ansiedade.
         Pensei, quando menina, que faria parte das mulheres fortes do evangelho e descobri, crescida, que abri a porta errada — estou nas mulheres sofredoras. E nas de pouco arrependimento. Madalena renegaria ser minha avó, aqui e agora e Maria Madalena ela jamais me deixaria ser.
         Descobri. O homem que gosto prefere as mulheres poderosas. Imediato o meu sofrer e desesperadora a compreensão. Não sou forte, jamais serei. Não sei nem dizer não!... Que dirá tomar decisivas decisões? Quer também ser seduzido, conquistado. Isso até penso saber fazer. Mas sofro de grave doença. Quando gosto, quero agora e quando quero já tenho como pronto. E ultimamente ando querendo colo e alguém que me cuide. E este, o moço que gosto, não é destas lides.
         Agrada em presença, conversa e trato. Mas no ato...
         E eu que canto jazz adoidado, nunca encontro someone to watch over me...

 

 

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quinta-feira, julho 22, 2004

 

                                        Caminho sem meios
 
 
         O norte não chega a ser cardeal, desejo quase obscuro.
         Intensa e imediata  jamais alcanço rumo certo.
         Vontades minhas espelham hoje todos os ontem.  Os braços de outrora deixaram-me o querer. Os beijos perderam o gosto, As peles que em mim roçavam outras peles hão de se tornar.
         Se sabia, esqueci, desmereci.
         Hoje o caminho é meio, é escuro e faça-se noite.
         Não sei se acordo eu, se acordo em você ou se é você quem me acorda.
         Venha. Chegue-se. Diga-me da minha maria, conte que me perdi, encontre um nosso de nunca ser achado.
         Ah fica...  
         Estanque aqui cativo a mim. Toque a minha na sua mão, contorne nos meus os teus lábios. Colha com cuidado as lágrimas da minha incerteza,  faça seguro o meu perigo mediato.
         Não sei porque não me ensinas, não sei porque não te amo!
         Moço de ausências e cantos ande, ande a me encantar.
         Almiscarei seus escândalos.
         Não queres incensar sonhos, escovar meus cabelos ou desvelar meus medos? Não queres vir fazer, moço que gosto de gostar?
         Importune a aflição, a minha, não me habitue e jamais desista.
         Presunçosa que sou concretizo e cismo. Idealizo muda mudanças, inconstantes pelo caos.
         Engano, ledo desacerto o meu. 
         Dúvidas? Faço fé.
         Caminho entre definições.
         Como se brinca. esqueci.

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domingo, julho 18, 2004

        Tempo, há o tempo, faz tempo...
         Eventualmente indefinido, temporal, certeza que sim.
         Mesmo quando eu nele não me apresente, teima em desistir, consiste e existe.
         Essência e a capacidade de almejar virtudes, oblíquo de atávicos desejos que empanam o desistir, cria o tempo o resistir e ufana o devir.
         Fado relativo, alado, conta histórias, tece alguns triunfos, é enganado e corporifica-se em aprazadas e abstratas meadas.
         Há o tempo, certeza que sim.
         Vez abocanha, outra aprisiona e em certas épocas deixa-se esvaziar. E sobrevive no tempo de não existir
         Atributivo, remunerante, suposto de si, o tempo festeja festas que não as suas.
         Desregrado em menos, fato e feito e nos mais... contemporâneo temporal.
         Traz o vento deleite, alguns enfeites e o tempo de ser-afim.
         Estrutura meu medo o medo de perder tempo.
         Do tempo nada há para surgir.
         Porque o vento nada mais é que o tempo em movimento. 
  
 

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quinta-feira, julho 15, 2004

A criação



Penso que a criação deu-se quando tudo foi desacordado.
Sei que assim aconteceu porque o mutismo dominou a insegurança e foram tais os sentimentos outros que juntos provocaram caras trocadas, E em casos de ocaso os olhos, novamente ladinos, cercaram os dias e os tornam dolorosamente mais dolorosos.
Na verdade vos digo, quase nada aprendi e insuficiente é o meu saber. As emoções, na criação, conflitam quase sempre.
Os rios vão molhar chorosas lágrimas e do riso sangrará a demência.
Para o nada, que entre a sensibilidade.
Em lugar colocado, corações.
Contra estes nem brisa, nem fogo. Terra? Certeza que não. E água só como o mais terno dos fogos, a mais perigosa combustão e a mais indecente das vontades Água para todas as vontades e para estas... só os sentimentos
Ah, sentimentos...
Dias negros virão.
E porque negros, ponderem: não foi da arrumação que se fez feliz o mundo caótico. Foi da segurança, do desencontro, dos males da felicidade e das mágoas ausentes.
Por isso que acordei.
Padecia de entender estas que chegam e se arrojam soberanas de nossas vontades. E desta desarrumação, caotizar meu futuro.
O que não tenho, não me falta. E o que não tenho e sei que outros têm, ausencía em mim.

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segunda-feira, julho 12, 2004

Meu amor hoje sai. Vai aquém do bojador.
Pela janela, teremos as mesmas luas. A do céu e a dos mares.
Meu homem também viaja. Vai ao sul, achar seu norte.
Minhas letras vão vagar em terras por mim desconhecidas.
Letras outras fico esperando, que não vêm, nunca vêm.
O telefone não soa. Os olhos umedecem, regam o colo inaproveitado.
Saudades assim acontecem.
E o suspiro, reserva anterior de minh´alma, gentil que te partiste, diz o que Pessoa fala.
Sentir? Sinta que lê.


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quarta-feira, julho 07, 2004

Transitiva.


Janeiro, pelos ocidentes de cá, versa com água ainda que sem rimas.
Infestação de chuvas, anoiteceres rápidos em dias ensolarados, trovões acordantes fazem assim o tempo verão. Do solstício ao equinócio.
Com toda essa água, no norte é a estação das secas.
Sinto que o meu verão é meio nortista. Por mais que a água queira me lembrar de amores, calmos e sem remorsos, é esta a mesma água que me deixa ir. Nem abstrato, nem desesperançado, meu amor em estado latente de apavoramento, supera até as águas de março e reserva-se.
Não há quem não tenha ouvido falar do amar. Mas há quem não ame.
Sou dos leves gostares que de tão leves fazem ficar. Ficam em ventos. Alíseos, pacientes, evaporam-se no inverno. É a pressão do contato.
Nem tão serena, anseio por um outono onde quem sabe, amores terríveis aconteçam, incompatíveis com meus verões e primaveras. E é então que lembro a ordem das coisas. Primavera, verão, outono, inverno. E descubro a inconciliável causa do meu coração espartano. Que perde batalhas, não ganha guerras, mas teimoso, segue em frente.
Há uma concordância explícita que o prazer é controverso. E por não saber amar ofereço-me para cultuar as infelicidades da caça. Os prazeres.
E quando em inverno, floreio primaveras, pintadas de escaldantes veranicos, que ao chegar do outono, repousam, vivas, em estrondosos amarelos esperançosos de vermelho.
É do rubro que se faz o amor.
E por deixar passar, sigo a ordem das coisas. Procissão de reza, estação de madalena. Implorar a nada leva. Verão, outono, inverno, quem sabe um dia pule a primavera e desponte amante.
Quem sabe?

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domingo, julho 04, 2004

ando escrevendo pouco, bem sei e às vezes coloco aqui textos antigos. Porque para mim o blog nada mais é que um bom lugar de escrever não levando em conta tempo, pessoas, acontecimentos, nada disso. Em alguns escritos, claro, trago meu cotidiano, em outros, o cotidiano alheio - coisas que ouvi, coisas até que imaginei. Mas aqui tenho sempre como minha casa de escrever.
Assim e só.
Por isso coloco para vocês um dos meus antigos, que foi selecionado para entrar numa oficina de literatura internautica.

Homem meu objeto.


Homem!
Quando te pedi, seja meu objeto, foi por necessitar realmente de ti.
E dessa necessidade maltratar-te.
Privado dos sentidos, a você somente a escuridão.
A mim tudo será permitido... meus sentidos estarão em você, na descoberta deste novo prazer.
Num singelo aceito, meu pedido veio.
Enrubescida, apaguei as luzes.
Meu objeto, você, existia naquela hora somente.
Nos meus, os teus dedos serão o despertar das minhas vontades.
Quisera-te objeto, do desejo que em ti despertou o sangue em mim. Não pulso, jamais cresço mas hoje fiz de ti meu pau ereto.
Sentindo-te, roupa contida, calça quase aberta, zíper puxado, explorei teu seio masculino em minha boca ávida por ter-te agora.
Prazerosamente, mordi teus bicos, suguei em teus ombros. Senti teu cheiro e deitei-me em teu colo.
Imóvel, respirava meu objeto. Latejante, entre as pernas adormecido, estava quem eu queria em minhas jornadas. Preso, acuado entre panos e apertado.
Não o solte. Jamais o soltaria. Era meu o objeto e objetos nunca se movem. São movidos.
Movimentando suaves meus dedos na boca, que não coloquei em ti.
Hoje em meus lábios, só o bico crescente dos teus arrepiados peitos.
Desnudei-me escura, certa do meu prazer, abandonada aos não apelos teus.
Respirar, tua única sina.
Não fui à boca, lábios, língua. Objetos não devem ser beijados.
Não abras, não abras tuas pernas. A calça será teu corte, tuas correntes. Atado a elas, nada poderá fazer.
Respiras.
Forte e docemente.
As mãos, aquelas tuas que outrora quis, escapam do meu cerco e ávidas querem meus seios. A estas, dou permissão. Já as queria ali, impacientes, tateando-me.
Selvagem e suave, em ti me enrosco. Desnudada, ofereço-te o peito que jamais beijarás. Roço pela tua boca meu sopro. Em teu seio ofereço meu peito.
Imóvel, não te permito nada. Se queres, não podes.
És meu objeto.
Meu desejo, meu desiderato, minha desídia, minha última indolência.
Sem mágicas, sem sonhos, somente meu e somente objeto.
De ti virá meu prazer.
Frouxamente me recosto, te permito, o nada. Nem o olhar. Somente ouço teu respirar.
Minhas pernas, em ti coloco. E nas nuances dos silêncios não ditos, em ti me acomodo. Pernas abertas, minhas mãos, dedos teus que agora são meus, tocam em mim, levemente.
Nem preciso me abrir. Espero-te há tempos.
Leve, fui tecendo controles.
Sonora, fui ouvindo teu pulsar, latejando em minha mão.
Mãos pequenas as minhas. Não me alcanço, em mim não entro. Não sei me penetrar. Murmuro desesperos, tu ouves, não respondes. Não me entendes.
E as mãos, aquelas tuas, ainda em meus seios, passeiam. Apertam. Te seguro. Não podes me apertar.
É a lei.
É a ordem.
Objetos não devem, não podem.
Meus poucos gemidos, ouço pelos dedos quando te sinto pulsar.
E porque magnânima sou, liberto o teu começar e passeio os dedos, agora meus, em teu eterno desejar.
Sente, ah... como você sente.
Mas como objeto, a ti nada é permitido.
Sou rápida no desejar, lenta no sentir.
Fico a me acariciar, te sentindo em dedos entre leves e apertados.
Não há, não haverá. Encontro das águas. As tuas, seguro e prendo, para que nada sintas.
As minhas só eu saberei. O gosto e os odores do objeto do sentir.
Te fiz coisa.
Mais me inclino, mais me sinto, e meus dedos, outrora dedos teus, entre minhas pernas andam, minha essência, só eu sinto.
Tu respiras, lateja, cresce...
Meu gozo, suave e forte, rápido, atemporal entre dores lancinantes, se apresenta.
Estremecimentos me sacodem.
Em ondas, meus teus dedos, me querem.
As pontas deles sentem o que queria de ti e assim me satisfazem
Meus sons, gritos surdos, te emudecem.
Gozo, gozo e gozo.
A ti, nada permiti.
Como virgem vestal, cubro-te as vergonhas.
Meus dedos lassos do novo prazer adquirido, se perdem entre plumas e espumas, que recheiam meus travesseiros.
Coloco, silenciosamente, minha roupa.
Nua debaixo de um vestido bordado.
Abro as janelas. Preciso ver o dia nascer. Meu novo dia trará tuas eternas marcas.
Por não teres gozado, por teres sido meu objeto, sofrerás a perpétua sina de na dor, ser meu o teu amor.
Sorriso nos lábios, deito-me feliz.
És meu, sempre serás meu.
Tens agora, em ti, todas as minhas marcas.
E a noite, quando vieres, te ensinarei a gozar

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quinta-feira, julho 01, 2004

Um jeito sapo de ser.

Decididamente hoje entendi: sou apaixonada por sapos encantados. Às vezes avestruzes, outras leões, muitas vezes ratos, mas burros encantados? Jamais!
Prezo muito a inteligência.
Esse jeito sapo de ser faz dos príncipes sujeitos ultrapassados. Cacetes eu diria.
Príncipes são aqueles que realizam de tudo um pouco, ótimos amantes, acompanhantes perfeitos. Usam ternos, quando esportivos os mocassins, perfumes da moda, restaurantes das revistas, vão dos quarenta aos cinqüenta e jamais envelhecem. Gostam de vinho, whisky e algumas vezes cerveja. Melhores safras, rótulos escuros e, óbvio, a cerva da temporada. Esse o modo dos príncipes.
Fazem a mulher ser fêmea e na cama querem aquela seja puta — só na cama, dizem — e esquecem, pobres putas, que essas recebem pra gozar e não conhecem o gozo recebido.
Carinho, para os encantados príncipes da vida, é uma boa chupada. Não falam mais em boquete e nem em fazer uma espanhola porque isso, hoje, ficou démodé.
Se dizem ótimos na cama — são aqueles que fazem de tudo um pouco — os amantes perfeitos. Só não entenderam ainda, esses encantadores, que a vida não sabe, não pede e não explica.
Jeito príncipe de ser, o garanhão novo/antigo, é cão que ladra e não fode.
Por isso hoje acordei pensando no quanto gosto de sapos, lobo maus, raposas, estes bichos estranhos em geral.
Sapos não gostam especialmente de jazz ou blues. Alguns, moderados, são roqueiros, curtem uma guitarra bem tocada. Sapos não têm pau grande, nem grosso e no falo — procedem. Não têm gosto assim assado. Preferem, esses sapos jeitosos, saber de beijos, carinhos e amores com fim. Não prometem nem cobram, poetam simplesmente. Fazem chorar, sofrer e de quebra, amar. Não querem turbinadas, loiras, altas, recondicionas, magras ou inovadas. Querem somente a mulher amada. Mesmo para o amor de um só dia.
Descobriram, e também por isso gosto muito deles, que quem muito agrada, mais recebe.
Esses sapos sem idade entenderam que mulheres, as novas balzaquianas, são as competentemente amadas porque na verdade são as mulheres amorosas as criadoras do jeito sapo de ser.


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