segunda-feira, setembro 27, 2004

Opus terceiro


No meu relógio, quase três e ainda madrugada. Nos olhos, as horas que não passam e na escrita uma travada vontade de chegar às letras sublimes.
E penso que de todos os modos estamos ligados, para sempre. Não o eterno de perpetuamente mas o sempre encantado.
Estava para te contar das músicas de janela... pautam-se em novas notas nas horas em que me staccato com letras tuas.
Queria houvesse uma canção dos teus olhos a meus sentidos. Queria fosse essa a música dos momentos.
Can you image
how much I love you
A cada raciocínio, sinto o que não vejo. E por outras imagens, sonho tuas linhas.
Projeto a você uma vontade substantiva e três desejos: que me ligue, que se ligue, que desligue. Sou dos contraditos em diferentes acordados. Digo, desdizendo. E quero mais... e quero à vontade. Zélo regalos tentando escrever e em suas amostras, alojo segredos.
Mais que um querer, tenho na escolha, o criar. E como números não são iguais, o sapato teu fica pequeno no meu e a musa, que desnuda letras e sentimentos, hoje não quis me visitar.
A razão, incompatível na fé, admoesta que homens funcionam amanhã e mulheres, do antes farão um já. Aleatórios, meus sentimentos navegam. A eles o relativo destrato.
Se juntos pudéssemos, conspiraria o incontentado e ociosa, o destino. Tivesse dons, escreveria. Soubesse de coisas, daria de te gostar. Mas o que sei eu de tudo e de fato? Pouco, quase nada.
Então, este pouco que sei e sou, se contenta em dizer que estamos ligados.
No tempo do encantado.
No encantar indefinido.
No indefinir do fogo.
E no fascínio do tempo.

Ou comente aqui:

quarta-feira, setembro 22, 2004

Desculpas


Paulo, meu querido, Paulo escolhido amigo.
Tenho recados, tenho ditos.
Às vezes vontade de estar apaixonada, outras de chorar. Às vezes penso em escrever então sento e venho ver coisas.
Coisas como senso e amizade que aparecem em beijos de tristeza. Coisas de ter nascido para ser Sherazade de desejos e saber que me falta achar sultão que assim me queria.
Por isso tenho vontade de te contar das perdas que fiz.
Seja minha casa.
Sinto ter deixado na casa os sapatos que não calcei, as calças que servem ainda, os abraços de camisas e as bolsas que me levam de lugar poucos a lugar algum.
Os livros, trouxe. Não todos, alguns. E esses, específicos, carrego na ponta dos dedos, são os de fazer e escrever.
Me desculpe não ter levado as coxas de fazer amor, as pernas de enroscar em outras e os seios do sentir. Meu corpo não deveria nunca ser a carcaça de meus amores. Me ouça e releve. Abandono cores e pertences, lápis, canetas, bordados e agulhas. Estava precisando de novos ares, nova vida. Deixo com você os de sempre e os para sempre.
Meu amigo me escute que quero colo. Mas colo de amigo é colo de pele e preciso agora viver, de muda e altercações, preciso colo de fazer ressentimentos.
Não vou conciliar esquecidos, ficados e desatentamente escapados. Minhas portas são cabalas, fazem do qualquer meu destino de ser quase todos.
Desculpar não carecia, mas peço e reitero. A vida que deixo, esqueço-a para você e a que farei, de agora em diante, tenha certeza, outro dia também mudarei.
Meu amigo e confidente, ajoelhe súplicas matutinas em todas as suas missas Ore por mim, murmúrio de poucos quereres e no mais, interprete meus crimes, crie um mea culpa caridoso e por penitência atribua-me distúrbios desmedidos e perdidos.
Não me peça coerência, não deixe que me acometam os remorsos.
Quem semeia quer comprar e quem desdenha vem vender.
Muitos os meus quems, frágeis as vontades.
Tão fáceis os ditados, tão complicada a vida.


Ou comente aqui:

sábado, setembro 18, 2004

Presente das minhas gurias mais novas, quando tinham seis e sete anos.



A escolha não foi minha mas o pai resolveu que seria cremado. No dia baita dúvida, mas os filhos mais velhos decidiram fazer a vontade do pai e foi feita a cremação. Outra vez agoniada. Como explicar a duas meninas pequenas que o pai foi cremado? Fiquei receosa. Didática, aluguei um filme onde Kirk Douglas, um avô de muitos netos, está morrendo e pede aos netos um funeral viking. É um doloroso e lindo filme. As crianças, fazendo a última vontade, seqüestram o cadáver do avó e o levam à praia e em águas rasas o barco queima.
As meninas viram e não falaram nada. Fiquei quieta também.
Dia marcado e fomos pegar as cinzas do pai.
Urna pequena, de bronze. Bonita aos olhos e ainda vem dentro de uma lúgubre caixa de madeira pintada de preto. Pago, pego e já vou dizendo — Olha aqui, todos vão carregar o papai no colo então não quero brigas, nem berros e nem tapas. Mãe é sempre mandona, estou de pleno acordo. Mas bastava a tristeza. Queria silêncio no carro também.
As pequenas, Mamali e Lulu, sentam uma ao lado da outra. No começo carregam a urna metade num colo, metade no outro. Mamali me pergunta:
— Mãe, o papai ta todo aqui?
— Mas é claro que sim, minha filha.
— Como você sabe, mãe?
—É a dignidade e o respeito com que tratam os mortos querida. Jamais tentariam trapacear a gente.
— Ahhhh... sei.
Silencio.
Pelo retrovisor vejo as duas se olhando e digo:
— Mamali, coloca o papai no colo da Lulu.
As duas cochicham novamente.
— Mãe, ô mãe...
— Que é Lulu.
— Papai tá todinho aqui mesmo?
— Tá sim, filha
— Então cresci Mamali... Mamá olha pra mim.... Viu como to tamanhuda? Tô carregando o papai no colo e eu nem caubia mais no colo dele.
— Cabia Lu.
— Você também, mã? Não caubia mais no colo dele? Mas você é tão grande...
Sorri chorando. Minhas filhinhas... sempre inventando histórias mas que tranquilamente aceitam o pai encaixado como disse a pequena Lulu.
Qualquer outro dia eu chorando muito.
Minha Lulu, a filha mais nova, vem conversar comigo. Senta-se no meu colo, coloca a mão em meu ombro e diz:
— Mãe, não chora. Mas se você quer continuar de choro qué me falá por que tá chorando?
— Ah minha filha... e novo desabar de choro materno. Na verdade a mim doía demais ver que minhas filhas cresceriam sem pai. Era pensar e chorar.
— Mãe, cê ta chorando por causa do papai? Por que ele morreu? Faz como eu, mã.
— Parar de chorar, Lulu? Não consigo.
— Não mãe, faz assim, faz de conta que ele ta só durmindo.
E mãe que é mãe, tonta como sou, vou restabelecer a verdade histórica.
— Lu, meu benzinho, papai não está dormindo. Papai morreu.
— Eu sei que ele morreu mãe, mas agora que você não ta agüentando ele morrido faz como eu. Finge que ele tá durmindo e daí quando você conseguí vévi (viver) vida, você morre ele de novo tendeu?


Ou comente aqui:

domingo, setembro 12, 2004

Filosofando, mesmo sem querer, sobre Prozacs literários

“O trabalho é, pela sua natureza, uma solução bíblica. Desenvolve-se em lugares indecentemente feios, onde uma pessoa deve passar muito tempo, gastando muita energia, com rituais inúteis... Será que a mitologia do horário, do controle e da hierarquia é realmente produtiva?” Domenico de Masi, em O Estado de São Paulo

Sabem...Não sou dada a filosofias, e coisas afins. Há mais ou menos, 3 anos, movida do mais puro fastio e irritação, decretei para mim não mais ver TV comercial. Juntei a esse meu decreto particular a não leitura de jornais, quais fossem, revistas semanais e jamais política.
Já sei, já sei. De burra e ignorante, para cima ou para baixo, devo estar sendo chamada. Tanto faz. Parei de ler algumas e ver aquel’outras, as outras coisas.
Sobrevivi e até vivi.
Neste meio tempo tive ganhos e perdas e pratiquei várias voltas. À minha escrita, à música e ao canto, que tinha sepultado por uns 20 anos.
Não fiquei desatualizada por um motivo muito simples. Tenho amigos e estes, agoniados até hoje com essa minha decisão, colocam-me a par de todas as novidades, quer eu queira, quer não. Mas o que me deixa completamente espantada é que andam comentando que o pseudo-governo atacou novamente, fazendo propaganda sub-liminar explícita. Em algum lugar sobre alguma coisa.
Coisas de ano de eleição. Coisas de todas as eleições.
Seria totalmente contra meus novos princípios dizer quem seria este ou aquele. Estaria propagandeando para eles e isso jamais farei.
Sou coerente na minha incoerência.
Vivi, estes últimos tempos, com a pecha de analfabeta política, desatualizada da vida e a suprema... vagabunda porque só sei escrever. Estranho que quem assim me disse... também escreve!
Tenho pouco trabalho. Crio as filhas, escrevo, faço patchwork, bordados, pinturas em madeira. Nada de produtivo, oficialmente falando. E sou preguiçosa.
Vivo bem assim, nesse meu não fazer nenhum trabalho que seja marxistamente reconhecido como produtivo.
Ah sim, em tempo. Recuso-me a ser chamada de rainha do lar – sou muito à vontade para ser considerada uma rainha e também não aceito “dona de casa” - ODEIO arrumar a casa. Gosto de mexer em livros, cozinhar — para os amigos e pessoas queridas do coração — e devo gostar de outras poucas coisas que agora não lembro. Cotidianamente falando, não sou dona-de-casa nem a pau, nem viva e muito menos morta.
Trabalho em casa. Me preparei para isso. Minhas meninas vão para a escola de perua, as menores e a pé a mais velha. Faço compras via telefone e micro. Tenho uma empregada especial que faz seu horário, mas em contrapartida, quando estou perdida em meus textos, olha e cuida das gurias e de mim. Nunca sei como, mas sempre tenho laranjas descascadas a meu lado, fatias de abacaxi com raspas de limão em meio a livros, muitas canetas e mais outros mil papéis perdidos na cama e na mesa.
Quando temos carne, a minha já aparece no prato cortada, salada temperada e suco gelado. Ela não é perfeita, ainda bem, mas aprendeu a trabalhar com quem escreve, três filhas, cã, gata e sogra. Enfim, uma casa de luluzinhas.
Não vivo escrevendo o dia todo. Nem poderia. Leio muito e sempre da minha cama com muitos travesseiros e alguns ventiladores. Minha cama é meu escritório. Por aqui, quando estou escrevendo – e não trabalhando – tenho os dicionários, os livros de gramáticas, os de consulta, os livros de descansar e os de dar idéias.
Saio com as filhas. Não fico enfurnada em casa. Temos nossos horários. Adoramos sair na madrugadas. São filhas tão notívagas quanto a mãe, madrugadas de chocolate-quente às duas da matina ou sanduba das 3 e sopa das 4. Não todo dia, mas em alguns dias chegamos no mercado central com as carnes e os temperos, amanhecendo o sono.
Sou o que há de preguiçosa no quesito arrumadeira, sempre fui, nunca neguei.
Fácil constatar. Até hoje não preparei minha biografia, para lugar nenhum.
Preguiça... dá trabalho...
Coerência, tenho coerências...
Voltando — Fui criada com meu anarquista avô italiano lendo e relendo Lafargue, O direito ao Ócio, que não entendia, mas ouvia, para ficar perto do avó e escutar aquele sotaque italo-abrasileirado.
Estava na FNAC e li:
"O homem que trabalha perde tempo precioso."
Parei... nem pensei, comprei. Este homem não é um filósofo, é um gênio. Cheguei em casa e fiquei cheirando, sugando o Ócio Criativo, Domenico de Masi.
Não sou filósofa, já disse antes e tenho certeza que a minha opinião é mais que tendenciosa, mas vejam... ele não atende mais telefones. Deixa todos na secretária eletrônica. Atende os que interessarem somente. Vezes têm que apaga mensagens sem nem ouvi-las. É completamente a favor do trabalho feito em casa. Não é bem assim como falo, mas quase.
E, pasmem... NÃO LÊ JORNAIS. Ouve as notícias. Jamais as lê — perda de tempo — Eu, nem isso.
E na TV, só assiste filmes. Eu também.
Dorme todos os dias um pouco depois do almoço e outras coisas que só lendo você descobrirá.
Outro dia, procurando outro dele, O Futuro do Trabalho, encontrei o que deve ser um protótipo do professor neo-pós-tudo. Meio hippie, meio intelectualizado, meio bonitão, meio de meia-idade (um pouco mais que meus 47 anos), que me viu olhando o livro e perguntou:
— Você lê? E eu, respondona contumaz disse — não, uso só como segurador de porta. Ele, que nem me ouvia, como todos estes tipos professorais, continuou — Porque você precisa saber... Domenico de Masi não dá certo. Lafargue menos ainda.
Não respondi, não precisava justificar nada a ele e nem aos que falam deste meu modo de vida. Comigo deu certo.
Mas é verdade, leio filosofia aos pulos, cato aqui e ali o que quero ler e nem me preocupo com as conclusões. Do filósofo ou minhas. Simplesmente leio... e depois vou pensar.
É a preguiça. Lembram?
E as filhas, bem, estas me deram Mais Platão, menos Prozac,a filosofia aplicada ao cotidiano, que leio, quando encontro.
As outras, as coisas que gosto, faço com sempre: quando quero.
Leiam Lafargue, que ainda considero difícil. De Masi, que sei de orelhada e quem sabe até este Prozac literário valha a pena. Todos servem para alguma coisa.
Até para que eu ficasse a escrever de madrugada, besteiras.
Beijos. de quem acha que o mais importante é estar apaixonada pela filhas, pela vida, pelas letras e sonhando com novos amores.
E que uma das coisas mais deliciosas da vida é ser feliz escrevendo... até sobre o que não entendo.

Ou comente aqui:

terça-feira, setembro 07, 2004

Do lado de dentro vejo a árvore, vermelho outonal a sombrear os claros que já lhe foram parte. Em alguns momentos o sol chega até ali.
Inda agora o vento levantou a manta verde-mar. Estivesse perto e teria visto a criança. Deve estar adormecida.
A mãe, passos ainda pesados das últimas horas, atravessa a rua amparada por todas as mães, as recém paridas. Desce a escada de cinco degraus como se fossem cinco as vidas da pequena trouxa esverdeada que tem nos braços. Não olha para trás. Não me vê sentada dentro do hospital.
Parecendo cansada, recosta os ombros na cabine dos manobristas. Respira, inspira os sonhos, não aceita ajuda e segue sua nova realidade.
Novamente o vento. O pequeno embrulho quase aparece, mas desce a coberta tal qual reverência. Enternece o semblante, dá mais três passos e chega ao banco.
Olha a árvore pedindo a ela que seja sua protetora, mãe e sombra. Que aconselhe sua criança e seu peito. A árvore ela e os leites. A luz vai direto na trouxinha e o colorido esmaece envelhecido pela tarde. Outra vez o vento espia a criança e eu, lado de cá dos vidros, imagino...
Precisa a moça-mãe retira a manta do chão e sacode a terra e os mantos de luz. Com carinho recobre sua encomenda.
Deita no banco e sai.
Sozinha.
Ninguém se deu conta do abandono, ninguém cuidou da moça, ninguém foi atrás.
Nem eu.

Ou comente aqui:

quinta-feira, setembro 02, 2004

Tenho tanto apreço por este texto, sou de tantas transições... que resolvi dar, a mim e a vocês, essa nova re-leitura. De tansições, de dores e quem sabe, de novos amores.
Que toods fiquem com meus beijos e carinhos.
maria

Transitiva.


Janeiro, pelos ocidentes de cá, versa com água, ainda que sem rimas.
Infestação de chuvas, anoiteceres rápidos em dias ensolarados, trovões acordantes fazem assim o tempo verão. Do solstício ao equinócio.
Com toda essa água, no norte é a estação das secas.
Sinto que o meu verão é meio nortista. Por mais que a água queira me lembrar de amores, calmos e sem remorsos, é esta a mesma água que me deixa ir. Nem abstrato, nem desesperançado, meu amor, em estado latente de apavoramento, supera até as águas de março e reserva-se.
Não há quem não tenha ouvido falar do amar. Mas há quem não ame.
Sou dos leves gostares que de tão leves fazem ficar. Ficam em ventos. Alíseos, pacientes, evaporam-se no inverno. É a pressão do contato.
Nem tão serena, anseio por um outono onde quem sabe, amores terríveis aconteçam, incompatíveis com meus verões e primaveras. E é então que lembro a ordem das matérias. Primavera, verão, outono, inverno. E descubro a inconciliável causa de ser o meu um coração espartano. Que perde batalhas, não ganha guerras e segue, teimoso, passos à frente.
Há uma concordância explícita — o prazer é controverso. E por não saber amar ofereço-me para cultuar as infelicidades da caça. Os prazeres.
E quando em inverno, floreio primaveras, pintadas de escaldantes veranicos, que ao chegar do outono, repousam vivas, em estrondosos amarelos, esperançosos de vermelho.
É do rubro que se pretende o amor.
E por deixar passar, sigo a ordem das coisas. Procissão de reza, estação de madalena. Implorar a nada leva. Verão, outono, inverno, quem sabe um dia pule a primavera e desponte amante.
Quem sabe?

Ou comente aqui: