Filosofando, mesmo sem querer, sobre Prozacs literários
“O trabalho é, pela sua natureza, uma solução bíblica. Desenvolve-se em lugares indecentemente feios, onde uma pessoa deve passar muito tempo, gastando muita energia, com rituais inúteis... Será que a mitologia do horário, do controle e da hierarquia é realmente produtiva?” Domenico de Masi, em O Estado de São Paulo
Sabem...Não sou dada a filosofias, e coisas afins. Há mais ou menos, 3 anos, movida do mais puro fastio e irritação, decretei para mim não mais ver TV comercial. Juntei a esse meu decreto particular a não leitura de jornais, quais fossem, revistas semanais e jamais política.
Já sei, já sei. De burra e ignorante, para cima ou para baixo, devo estar sendo chamada. Tanto faz. Parei de ler algumas e ver aquel’outras, as outras coisas.
Sobrevivi e até vivi.
Neste meio tempo tive ganhos e perdas e pratiquei várias voltas. À minha escrita, à música e ao canto, que tinha sepultado por uns 20 anos.
Não fiquei desatualizada por um motivo muito simples. Tenho amigos e estes, agoniados até hoje com essa minha decisão, colocam-me a par de todas as novidades, quer eu queira, quer não. Mas o que me deixa completamente espantada é que andam comentando que o pseudo-governo atacou novamente, fazendo propaganda sub-liminar explícita. Em algum lugar sobre alguma coisa.
Coisas de ano de eleição. Coisas de todas as eleições.
Seria totalmente contra meus novos princípios dizer quem seria este ou aquele. Estaria propagandeando para eles e isso jamais farei.
Sou coerente na minha incoerência.
Vivi, estes últimos tempos, com a pecha de analfabeta política, desatualizada da vida e a suprema... vagabunda porque só sei escrever. Estranho que quem assim me disse... também escreve!
Tenho pouco trabalho. Crio as filhas, escrevo, faço patchwork, bordados, pinturas em madeira. Nada de produtivo, oficialmente falando. E sou preguiçosa.
Vivo bem assim, nesse meu não fazer nenhum trabalho que seja marxistamente reconhecido como produtivo.
Ah sim, em tempo. Recuso-me a ser chamada de rainha do lar – sou muito à vontade para ser considerada uma rainha e também não aceito “dona de casa” - ODEIO arrumar a casa. Gosto de mexer em livros, cozinhar — para os amigos e pessoas queridas do coração — e devo gostar de outras poucas coisas que agora não lembro. Cotidianamente falando, não sou dona-de-casa nem a pau, nem viva e muito menos morta.
Trabalho em casa. Me preparei para isso. Minhas meninas vão para a escola de perua, as menores e a pé a mais velha. Faço compras via telefone e micro. Tenho uma empregada especial que faz seu horário, mas em contrapartida, quando estou perdida em meus textos, olha e cuida das gurias e de mim. Nunca sei como, mas sempre tenho laranjas descascadas a meu lado, fatias de abacaxi com raspas de limão em meio a livros, muitas canetas e mais outros mil papéis perdidos na cama e na mesa.
Quando temos carne, a minha já aparece no prato cortada, salada temperada e suco gelado. Ela não é perfeita, ainda bem, mas aprendeu a trabalhar com quem escreve, três filhas, cã, gata e sogra. Enfim, uma casa de luluzinhas.
Não vivo escrevendo o dia todo. Nem poderia. Leio muito e sempre da minha cama com muitos travesseiros e alguns ventiladores. Minha cama é meu escritório. Por aqui, quando estou escrevendo – e não trabalhando – tenho os dicionários, os livros de gramáticas, os de consulta, os livros de descansar e os de dar idéias.
Saio com as filhas. Não fico enfurnada em casa. Temos nossos horários. Adoramos sair na madrugadas. São filhas tão notívagas quanto a mãe, madrugadas de chocolate-quente às duas da matina ou sanduba das 3 e sopa das 4. Não todo dia, mas em alguns dias chegamos no mercado central com as carnes e os temperos, amanhecendo o sono.
Sou o que há de preguiçosa no quesito arrumadeira, sempre fui, nunca neguei.
Fácil constatar. Até hoje não preparei minha biografia, para lugar nenhum.
Preguiça... dá trabalho...
Coerência, tenho coerências...
Voltando — Fui criada com meu anarquista avô italiano lendo e relendo Lafargue, O direito ao Ócio, que não entendia, mas ouvia, para ficar perto do avó e escutar aquele sotaque italo-abrasileirado.
Estava na FNAC e li:
"O homem que trabalha perde tempo precioso."
Parei... nem pensei, comprei. Este homem não é um filósofo, é um gênio. Cheguei em casa e fiquei cheirando, sugando o Ócio Criativo, Domenico de Masi.
Não sou filósofa, já disse antes e tenho certeza que a minha opinião é mais que tendenciosa, mas vejam... ele não atende mais telefones. Deixa todos na secretária eletrônica. Atende os que interessarem somente. Vezes têm que apaga mensagens sem nem ouvi-las. É completamente a favor do trabalho feito em casa. Não é bem assim como falo, mas quase.
E, pasmem... NÃO LÊ JORNAIS. Ouve as notícias. Jamais as lê — perda de tempo — Eu, nem isso.
E na TV, só assiste filmes. Eu também.
Dorme todos os dias um pouco depois do almoço e outras coisas que só lendo você descobrirá.
Outro dia, procurando outro dele, O Futuro do Trabalho, encontrei o que deve ser um protótipo do professor neo-pós-tudo. Meio hippie, meio intelectualizado, meio bonitão, meio de meia-idade (um pouco mais que meus 47 anos), que me viu olhando o livro e perguntou:
— Você lê? E eu, respondona contumaz disse — não, uso só como segurador de porta. Ele, que nem me ouvia, como todos estes tipos professorais, continuou — Porque você precisa saber... Domenico de Masi não dá certo. Lafargue menos ainda.
Não respondi, não precisava justificar nada a ele e nem aos que falam deste meu modo de vida. Comigo deu certo.
Mas é verdade, leio filosofia aos pulos, cato aqui e ali o que quero ler e nem me preocupo com as conclusões. Do filósofo ou minhas. Simplesmente leio... e depois vou pensar.
É a preguiça. Lembram?
E as filhas, bem, estas me deram Mais Platão, menos Prozac,a filosofia aplicada ao cotidiano, que leio, quando encontro.
As outras, as coisas que gosto, faço com sempre: quando quero.
Leiam Lafargue, que ainda considero difícil. De Masi, que sei de orelhada e quem sabe até este Prozac literário valha a pena. Todos servem para alguma coisa.
Até para que eu ficasse a escrever de madrugada, besteiras.
Beijos. de quem acha que o mais importante é estar apaixonada pela filhas, pela vida, pelas letras e sonhando com novos amores.
E que uma das coisas mais deliciosas da vida é ser feliz escrevendo... até sobre o que não entendo.