quarta-feira, setembro 22, 2004

Desculpas


Paulo, meu querido, Paulo escolhido amigo.
Tenho recados, tenho ditos.
Às vezes vontade de estar apaixonada, outras de chorar. Às vezes penso em escrever então sento e venho ver coisas.
Coisas como senso e amizade que aparecem em beijos de tristeza. Coisas de ter nascido para ser Sherazade de desejos e saber que me falta achar sultão que assim me queria.
Por isso tenho vontade de te contar das perdas que fiz.
Seja minha casa.
Sinto ter deixado na casa os sapatos que não calcei, as calças que servem ainda, os abraços de camisas e as bolsas que me levam de lugar poucos a lugar algum.
Os livros, trouxe. Não todos, alguns. E esses, específicos, carrego na ponta dos dedos, são os de fazer e escrever.
Me desculpe não ter levado as coxas de fazer amor, as pernas de enroscar em outras e os seios do sentir. Meu corpo não deveria nunca ser a carcaça de meus amores. Me ouça e releve. Abandono cores e pertences, lápis, canetas, bordados e agulhas. Estava precisando de novos ares, nova vida. Deixo com você os de sempre e os para sempre.
Meu amigo me escute que quero colo. Mas colo de amigo é colo de pele e preciso agora viver, de muda e altercações, preciso colo de fazer ressentimentos.
Não vou conciliar esquecidos, ficados e desatentamente escapados. Minhas portas são cabalas, fazem do qualquer meu destino de ser quase todos.
Desculpar não carecia, mas peço e reitero. A vida que deixo, esqueço-a para você e a que farei, de agora em diante, tenha certeza, outro dia também mudarei.
Meu amigo e confidente, ajoelhe súplicas matutinas em todas as suas missas Ore por mim, murmúrio de poucos quereres e no mais, interprete meus crimes, crie um mea culpa caridoso e por penitência atribua-me distúrbios desmedidos e perdidos.
Não me peça coerência, não deixe que me acometam os remorsos.
Quem semeia quer comprar e quem desdenha vem vender.
Muitos os meus quems, frágeis as vontades.
Tão fáceis os ditados, tão complicada a vida.


Ou comente aqui: