sábado, setembro 18, 2004

Presente das minhas gurias mais novas, quando tinham seis e sete anos.



A escolha não foi minha mas o pai resolveu que seria cremado. No dia baita dúvida, mas os filhos mais velhos decidiram fazer a vontade do pai e foi feita a cremação. Outra vez agoniada. Como explicar a duas meninas pequenas que o pai foi cremado? Fiquei receosa. Didática, aluguei um filme onde Kirk Douglas, um avô de muitos netos, está morrendo e pede aos netos um funeral viking. É um doloroso e lindo filme. As crianças, fazendo a última vontade, seqüestram o cadáver do avó e o levam à praia e em águas rasas o barco queima.
As meninas viram e não falaram nada. Fiquei quieta também.
Dia marcado e fomos pegar as cinzas do pai.
Urna pequena, de bronze. Bonita aos olhos e ainda vem dentro de uma lúgubre caixa de madeira pintada de preto. Pago, pego e já vou dizendo — Olha aqui, todos vão carregar o papai no colo então não quero brigas, nem berros e nem tapas. Mãe é sempre mandona, estou de pleno acordo. Mas bastava a tristeza. Queria silêncio no carro também.
As pequenas, Mamali e Lulu, sentam uma ao lado da outra. No começo carregam a urna metade num colo, metade no outro. Mamali me pergunta:
— Mãe, o papai ta todo aqui?
— Mas é claro que sim, minha filha.
— Como você sabe, mãe?
—É a dignidade e o respeito com que tratam os mortos querida. Jamais tentariam trapacear a gente.
— Ahhhh... sei.
Silencio.
Pelo retrovisor vejo as duas se olhando e digo:
— Mamali, coloca o papai no colo da Lulu.
As duas cochicham novamente.
— Mãe, ô mãe...
— Que é Lulu.
— Papai tá todinho aqui mesmo?
— Tá sim, filha
— Então cresci Mamali... Mamá olha pra mim.... Viu como to tamanhuda? Tô carregando o papai no colo e eu nem caubia mais no colo dele.
— Cabia Lu.
— Você também, mã? Não caubia mais no colo dele? Mas você é tão grande...
Sorri chorando. Minhas filhinhas... sempre inventando histórias mas que tranquilamente aceitam o pai encaixado como disse a pequena Lulu.
Qualquer outro dia eu chorando muito.
Minha Lulu, a filha mais nova, vem conversar comigo. Senta-se no meu colo, coloca a mão em meu ombro e diz:
— Mãe, não chora. Mas se você quer continuar de choro qué me falá por que tá chorando?
— Ah minha filha... e novo desabar de choro materno. Na verdade a mim doía demais ver que minhas filhas cresceriam sem pai. Era pensar e chorar.
— Mãe, cê ta chorando por causa do papai? Por que ele morreu? Faz como eu, mã.
— Parar de chorar, Lulu? Não consigo.
— Não mãe, faz assim, faz de conta que ele ta só durmindo.
E mãe que é mãe, tonta como sou, vou restabelecer a verdade histórica.
— Lu, meu benzinho, papai não está dormindo. Papai morreu.
— Eu sei que ele morreu mãe, mas agora que você não ta agüentando ele morrido faz como eu. Finge que ele tá durmindo e daí quando você conseguí vévi (viver) vida, você morre ele de novo tendeu?


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