A Rita levou...
Se tem coisa que dificilmente acontece comigo, é ficar sem graça. Sou risonha e moleca, de bem com a vida. Esquecida e confusa são predicados que vivo me dando, claro, para que todos certifiquem-se da doidivanas que sou. Algo como se falando pudesse ser desculpada das minhas eternas cincadas. Que acontecem aos borbotões
No enterro da tia Odetinha, me acreditem, perguntei pela própria. E na missa perguntei à filha onde estava a mãe. Enterrada a uma semana foi a resposta que recebi. E chamei a prima de bocuda.
Óbvio que não me convidam mais para os deliciosos chás das cinco, que nesta família são feitos às 3 da tarde.
Outro dia, aniversário de meu pai, cheguei ao primo-irmão, que não via há mais de três anos,e perguntei da esposa, mas, inadvertidamente, usei o nome da amante. Bem que reparei que a esposa virou as costas.
Oras.. não me contem segredos. Confundo-os todos.
Mesmo assim nunca perdi o rebolado. Nunca até hoje.
Rita, prima e amiga eventual é da ala rica da família. Ela sim, pirada de dar dó, me chamou para fazer shopping. Fui. Gosto de sair com ela.
– Ta apaixonada, prima, tá?
– Eu? Sempre estou. Mas por que pergunta, hein, prima? Nos chamamos de primas porque nossos nomes foram trocados. Ela era para ter o nome da minha avó, Maria e eu o da avó dela, Rita. Mas como nasci um dia antes, herdei este privilégio. Para evitar os chiliques que ela tem quando falam da troca, quando juntas, não mencionamos nossos nomes. Nos tratamos por prima e prima, somente.
– Tá muito quieta, hoje – continuei.
– É? Oras, não sei por que... quem sabe deva ficar apaixonada? Pelo seu queridinho, o que acha? Seriamos eternas rivais.
Ri da besteira e continuamos conversando. Ela guiando e eu sentada, meio de lado, olhando mais para ela que para a rua. Ela é péssima motorista. Adoro guiar olhando para todos os lados. Menos para a frente.
Num sinal, na maior, ela me diz:
– Ô prima, segura aqui pra mim, e soltando as duas mãos do volante, entrou com a primeira e saiu acelerando o carro. Eu, desesperada, fui segurando a direção, mais branca que folha de impressora, enquanto a louca da prima mexia nas costas e depois, braço por dentro da manga da camisa, começou a puxar... o sutiã, primeiro pelo braço direito, uma alça, depois a outra pelo braço esquerdo e finalmente, pelo decote, puxou a peça rendada, radiante de tão vermelha.
– Pronto, prima, pode deixar que agora eu guio.
Eu, sem fala.
– Prima! Como pôde?!? Tirar o sutiã assim, na rua, na frente dos outros? Tá louca?
– Que na frente dos outros que nada, tirei só na sua frente, prima.
– É, mas com a janela aberta, sua doida.
– Ué, claro, com este calorão acha que eu ia andar com a janela fechada? E depois o sutiã tava me irritando.
Falou já melindrada.
Fiquei quieta. A prima tende a ser meio estúpida, histérica, e o que eu não queria era presenciar um daqueles geniais ataques de geniosidade da dona Rita.
No estacionamento, Rita saiu do carro se saracoteando, empurrando a saia pra baixo. Me deixou tão assustada que sai berrando com ela:
– Prima, pára com isso. Vai tirar a saia também?
– Acha que sou louca? Estou tirando uma pedra do meu sapato. Tenha calma, dona Maria, ou a senhora fica velha antes da hora.
E com a sobrancelha arqueada me olhava arrevesada.
Fiquei quase histérica de tão calma. Melhor não provocar a prima.
E fomos. Passeando e fazendo compras. Eu, falando praticamente sozinha de tão agoniada das doidices da prima Rita, e ela andando mansamente, rebolando, como sempre faz. Até que parou na minha frente e ainda de costas para mim deu outra daquelas gingadas. Aquela do estacionamento. Quase rezando, pensei em não ligar, e me repeti muitas vezes — não vou ligar e continuei andando, vendo, mas sem enxergar. Firme, tracei uma reta em pensamento e fui seguindo. Bem atrás da prima.
Mas a prima tinha mesmo parado.
Estarrecida entendi o que estava acontecendo. ELA ESTAVA TIRANDO A CALCINHA. A prima, ela mesma, estava incomodada e ela não agüenta incômodos então... ela se livra deles, sempre.
Mas não ali, no meio do shopping, cheio de gente indo e vindo. Mas ela o fez e como fez. Tirou mesmo a calcinha.
Fiquei parada, bestificada, colada no chão. Colada não, que continuei andando sem perceber, sem pensar e grasnando, ou gaguejando, resmungando até.
– Prima, prima, pelo amor de deus, Rita... Como você... como você...
Branca, eu estava vermelha, rosada, multicor de tão espantada com o que ela estava fazendo, com a ousadia da prima. Aí ela virou-se e disse, cara de espantada e com a mão cobrindo a boca.
– Maria, minha prima.
Parei. Aliás, parei bem em cima da calcinha da prima.
– Prima, disse ela sorrindo, tua calcinha acaba de cair no chão!
E o segurança me olhou perguntando. empurrando com o pé se aquele afrontoso vermelho amarfanhado no chão, me olhou perguntando se era meu...
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