quinta-feira, novembro 25, 2004

A medida da fama.

Efêmero, alguém disse ou alguém escreveu, são as famosidades.
Como todos, tive direito aos meus quinze minutos de fama. Minha Linda Maria, minha moça que colecionava cinema foi lida e argumentada durante curta oficina de João Silvério Trevisan nos Encontros de Interrogação, do Itaú Cultural.
A malandragem foi entrar como qualquer dos inscritos – se bem que Joãozinho me dissesse que de vestido e saltos altos (malditos saltos altíssimos) não estaria disfarçada, nem no meio do povo, ao que retruquei dizendo que quando é meu o dia de fama, gosto de estar deslumbrante.
Pouco se importaram comigo, afinal João era a estrela da festa.
João fez exercício, explicou coisas e depois me leu. O difícil, juro, foi não poder rir. A crítica gosto de ouvir e só me maltrata a que confunde criatura com criador, que é claro, fizeram, mas poucos a bem dizer. E ser enfocada em novos lugares, lida em olhos estranhos, bocas que nunca me viram, com prós e contras veementes, fizeram da minha uma boa tarde.
Primeira vez de um texto lido ao vivo e em viva platéia. Não foram unânimes as opiniões. As melhores foram a do moço a meu lado que criticou até o que o texto não tinha. Mas incisivo, firme, até que soube que era eu a dona das letras e rapidamente murmurou desculpas, desculpas, tão rápidas e sentidas que saiu rapidinho da sala. Claudinei, preciso em seu conhecimento, acabou sendo meu rápido entrevistador, para o site Capitu, e a veemente Regina, a quem penso contratar como defensora de todas as minhas letras, quase me matou quando perguntei se o texto se sustentava mesmo para quem não goste tanto de cinema.
E surpresas boas, comuns nomes para vocês, mas para mim fãs. Que não são amigos, nem conhecidos e nem colegas. Novos e maravilhosos fãs. Eugênia, Regina e seu marido, a quem fiquei devendo lembrar o nome e um autógrafo, aliás, o primeiro de minha curta vida de famosa escritora de 15 minutos.
E eu que me dei o tempo para ser pouco fiquei num enorme conversê de, tudo e quase nada, vendo pessoas que gosto, leio e nem acreditava conhecer um dia.
E por fim sair.
Retornar à noite, algo escura, azul de alto céu, meio ao movimento das ruas.
Avenida atormentada de carros, gentes e voltas. E, sozinha, atravessar toda fronteira entre os livros e a vida.
Diante, realidade que vivo, e, por fundo, a que aprecio, e este entremeio que não é de solidão mas sim, o estar só. Paredes altas, darkness e vagarosas – como eu a andar com estes malditos saltos – enfrentando minha última fronteira. Tempo de guardar o que me foi bom, tempo de ser famosa e o tempo de me ver e voltar.
E amar o tido e o perdido. Meu tempo de ser escritora.
Administrar este corredor é que me coloca em algum modo de saber.
Maria Odila, aqui uma digressiva maria.

Em tempo o texto está completo no artigo de Claudinei, quando virei escritora.

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sexta-feira, novembro 19, 2004

Maduras Adolescências.

dedicado a quem bem me sabe

São suaves os encantos maduros.
Tão suaves como a paciência infantil e a impetuosidade adolescente. Sendo namorada e, madura, deveria saber seduzir.
E não sei.
Em teus olhos recolho histórias, passagens, marcas sem tempo e empenhos. Guardo nossos antigos outros como passageiros, descansadas memórias. E ainda é por eles que, vampira, vou nutrida de você. Pinço frases e arremesso ao léu, estico palavras em varais, uso dos lápis só os tocos. Novas retóricas.
Tento. Impossível. Não sei fascinar.
Faço inventário para ser gostada.
Sem afinação canto Ave Maria e gosto de óperas fora do chuveiro. Dos gemidos prefiro os libidinosos, gosto em demasia e claudico só para dizer te amo. Tenho o beijo despudorado, boca borrada em vermelho batom. Desfaço roupas quando a ânsia rege a vontade mas sou imprevisível quando tenho fome.
Se chove, faço sauna. Nunca navego quando preciso e colho gerânios na janela.
Se te encontro desordeno os sentimentos, acalanto mocidades.
Mas seduzir é que não sei. Sou impaciente e ansiosa, troco as falas, esqueço e confusiono, desarvorada invento eufemismos, me digo decidida e imediatista.
Despredicados?
Jamais!
À subida, tonalizo nossos inexistentes bemóis, lúdicos, lúbricos, luxuriosos. E se te encontrar, peço a cuca pra dormir, acalantarei dormes e deitarei a rama pelo chão. Batatinha, batatinha...
Advogo intempestiva meu nosso, ainda eu, quase talvez.
E sei que és poeta, das garatujas e dos silêncios não dormidos, dos relentos bordados, das frases vagalume.
Sensato outonar dos orvalhos consentidos e vapores de dois.
Disciplinada, não. E de pouco obedecer. Arrelio tua boca, toco os lábios nas florestas e saracoteio concedendo. Aderente, vou até que canses, exsudado. Libidinosas conjunções.
Feitiços raros, madura a sorte que nos encontrou.
Inconseqüentes todas as escolhas.



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terça-feira, novembro 16, 2004

No dia...

Houvesse um interrompedor, seria acionado.
Injusto, certamente.
Não se estanca tempo, não se tange sentimentos impunemente.
O momento mais-que-perfeito conjuga-se e o pouco uso fomenta antigos predicados.
Não! Não quero o de antes.
Pare e me escute. Isso acontece poucas vezes.
Eletivas, as afinidades. Implícita a simplicidade e sulcadas, todas as letras.
Às luzes, todas de janela e por fundo, os quintais.
Não tenha pressa.
Concessões, faça poucas. E as obscenidades, diga-as mansamente.
Se for para ter gosto, que seja mau, que seja próprio. Se for credo, releve Pilatos. Se for falta, ausente-se também. Se perfume, jamais enjooso. Se fome, que não doa e se doer, alimente-a.
Sumir não suma, apenas não apareça.
Trôpegos, os dedos. As pernas, jamais.
Conte os dias, abertos, se quiser.
Sorrateira, brilhe. Extrapole, afeite-se ao vento.
Ainda é tempo, descoberta.
Rosas, as vermelhas e o lugar, claro.
E se em lamúrias, assemelhem-se novas, como novas.
Sê clara e previdente, ontem foi amanhã.
Pré-sentida, não desdiga os que desamam.
Beligerante, espere e acredite.
Nada a mais, quase ameno, o dia em que festejavam, o tempo dos meus anos.



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sexta-feira, novembro 12, 2004

Adeus

E me disse adeus, um leve tremular nos dedos.
Os mesmos dedos que a cada beijo, marcavam a pele, apertavam os braços e seguiam pelas costas, dedos que hoje, se iam.
Tremulou no ar, sem sentir, o seu já vou.
Não olhei e nem hesitei. Seria um desastre se chorasse.
Pouco pensei, senti o imediato e apenas vi seu sinal.
E como dedos de meu homem, acenaram.
Meia volta, levantei os meus.
Dedos de aceno, dedos de desejo, que penderam do ar aos lábios, meus ou teus. Passeando a forma do aceno à boca, a sentir cheiro e roçar, roucos dedos, a despedida final.
Somente espanto, um imperplexo adeus.
E os dedos quedaram-se, abruptos, à espera de novas voltas.
E olhou os dedos, olhou a mim e disse — me vou, talvez.
Ocasionais idas...

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quarta-feira, novembro 10, 2004

Releituras I

Não foi possível não fazer. Abriu-se para a noite e contra todas as proibições, quis o vento em seu peito. E o vento enamorando a visitante noturna, veio.
Se soubesse fumar, fumaria. Aquela luz merecia todas as fumaças. Soubesse chorar, choraria mais. Fez o que de melhor tinha. Tussiu sua dor como se fosse lobo, como se fosse uivo. E o peito cheio cedeu a seus reclamos, doeu a não mais agüentar.
Incensou-se do perfume nauseante e na beirada da cama, desmilingüiu-se.
A corrente refrescada retirou dos ossos o peso. Fechou pálpebras, cruzou as mãos e suspirou. Queria um momento mais afora. Queria saber em quanto tempo o tempo se perde.
E fez, e foi e pré-sentiu.
Amanheceu tísica das vontades. Fechou a janela e retornou ao que nunca tinha sido seu.
Aplaudida, á noite, fez sua melhor Margueritte.

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sábado, novembro 06, 2004

Por toda a minha vida

ouvindo Vinícius, Toquinho e Tom

Não existe outra comigo quando, desolada, me desapaixono.
Ausento qualquer eu de mim e o descanso em esquinas.
E sento em alpendres alheios, entristecendo as esperadas magoas. Nada atenho em meu peito. Delego a todos, desesperadamente, meus afazeres.
E porque verto a ausência, atravesso estes rios, que passam em nossas as aldeias e corro. Sem você não posso ser, preciso te ouvir.
E sou eu, a mesma, e tu, distraído, é o tempo passante.
Ultrapassei a idade.
Chegada a saudade, desatino a trabalhar reformas.
Substituir na música, melancólicas notas dobradas, vividas ausências, saltados compassos.
Assimilar letras mortas, questionar detalhes nas respostas e passo a passo, ir descaminhando.
Macaquear como os peixes, rastejar feito coruja e claudicar, de galho em galho, quebrados versos.
Sulcar letras vertidas, travar cheiros, abraçar lágrimas.
Por muitos momentos poderia praticar mudanças, chorar ausências a pedir amparo.
Mas sou eu, eu mesma, que eternamente vivo e espero. E que na espera, tardeço ainda. E o tempo é longo quando se faz ainda...
Só sei que vou te amar, desafinadamente eu vou te amar.
E quando enfim, chegar o dia de te rever, definidos olhos, destinados suspiros, desventura a me perpetrar, estarei ao lado teu, por toda a minha vida.
Vida de alguns, vida de dias, vida de verdades, percorridas.
Vai, minha tristeza vai, porque se todos fossem, seriam iguais a você...




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