Pensiero
Chegar é quase sempre em casa. Descalçar sapatos e descer das alturas dos saltos de andar o dia. Algumas vezes a casa sozinha, a maior parte do tempo povoada do sonoro das meninas, irrequietas filhas.
Hoje não dei atenção. Cansada de rua, deixei as vestes e caminhei direto ao chuveiro. Depois, vestido largo e velho, suco geladíssimo e frutas ao redor, sentei na sala de uma só poltrona e me deixei pensar.
A lua aconteceu de me vir junto. Grilos, ás vezes acontecem por aqui. Bêbados e brigas também. Janela de uma rua versátil. A esta hora da noite o movimento é quase pouco. E penso no que faço e me faz gostar.
Sentar aqui.
Com regalias, sandubas da madrugada, sorvetes e café tal qual manhã de mesa farta. E não é o comer. É ter comigo quem é de meu gosto.
Na verdade são aparatos, as coisas.
Sento, deixo no chão as sandálias, recolho e abraço as pernas, só para olhar a lua e ter dela ainda meu gosto de adolescente, quando sentava assim namorando da janela.
Imagino o tempo quando delas crescidas.
Quero da vida meu quase melhor para entregar a elas. E penso em reclamos e dias de tormento que as filhas irão ter e meu coração já hoje se condói tanto que choro hoje a dor de amanhã. Não as queria marcadas pela vida mas a vida não me pergunta e os destinos não se fazem, os seguimos tão somente.
Imagino que em algum tempo não estarei só. Imaginar, hoje, é o quanto me basta. Coração anda cansado de comuns amores.
E penso em trabalhos e crias que nem sei se terão. Em assentamentos e ressentimentos. Tão contra ando casar... preciso cuidar de não passar isso a elas.
E penso que poderia até dormir não estivesse com dor nas pernas enrodilhadas. Levanto e vou ver a casa que agora dorme, arrumar filhas, guardar esquecidos e visitar seus sonhos. De quebra rezo a cada uma e subo as cobertas feitas de infância.
Santa Maria que tudo ocorra como tiver que correr, que eu seja porto e ancoradouro das meninas e imensidão para os que gosto.
Que os anjos agora passem e rezem amém.
Que agora posso deitar e sonhar que estou sentada vendo a lua.
Lá da sala.
9 Comments:
Como amamos nossos filhos e como é bom fazê-lo. Muito bom teu texto, principalmente na colocação clara da mistura de felicidade / preocupações tuas e para com as filhas. Beijo.
Acabo de te linkar. Tudo bem?
Um texto que reflecte na perfeição o amor dos pais para com os filhos. Parabéns
*A
Somos assim.. essa mistura de lua e de dias. E trazemos este amor grande pelas nossas crias. É bonito vê-lo neste texto. Porque bonito demais é tb como vc escreve. Meu beijo moça
Melancólica...
Isso porque há tempos não fala comigo, não me dá aquela gargalhada contagiante.
"Quero ver Maria dar sua risada"...
Beijo.
Você não precisa de anjo, nem amém. Você é uma estrela ao lado da lua, uma rua que segue múltipla, uma mulher que corre com lobos. Beijo.
Maria Maria... Lembro de Milton Nascimento e vejo "uma certa magia" em tuas palavras. Acho que ocorreu um certo engano, pois entrou no meu bogue e deixou um comentário como se há muito nos conhecessemos, porém, não me lembro de ti! Teria sido meu ou teu este engano? Mas tal engano me reservou a surpresa de ler tuas belas palavras, portanto, agora que conheço este canto, voltarei mais vezes, se me permite!
Um beijo, e até logo!
Vi lá um belo comentário sobre um meu arábico. E sorri. É bom ler um beo comentário, bem escrito. Quase tão bom quanto ler esta declaração de amor às meninas. : )
Beijos
Olá, Digressiva! Como vai esta força? E o cotidiano... descalçar, banhar-se, olhar a lua, linda lua... tudo é motivo para ninar sonos de ávidos ouvidos para a poesia - como eu! Belo texto... Um enorme abraço, tá? E beijos... Denilson (www.gerolino.blogger.com.br)
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