terça-feira, dezembro 07, 2004

Pensiero

Chegar é quase sempre em casa. Descalçar sapatos e descer das alturas dos saltos de andar o dia. Algumas vezes a casa sozinha, a maior parte do tempo povoada do sonoro das meninas, irrequietas filhas.
Hoje não dei atenção. Cansada de rua, deixei as vestes e caminhei direto ao chuveiro. Depois, vestido largo e velho, suco geladíssimo e frutas ao redor, sentei na sala de uma só poltrona e me deixei pensar.
A lua aconteceu de me vir junto. Grilos, ás vezes acontecem por aqui. Bêbados e brigas também. Janela de uma rua versátil. A esta hora da noite o movimento é quase pouco. E penso no que faço e me faz gostar.
Sentar aqui.
Com regalias, sandubas da madrugada, sorvetes e café tal qual manhã de mesa farta. E não é o comer. É ter comigo quem é de meu gosto.
Na verdade são aparatos, as coisas.
Sento, deixo no chão as sandálias, recolho e abraço as pernas, só para olhar a lua e ter dela ainda meu gosto de adolescente, quando sentava assim namorando da janela.
Imagino o tempo quando delas crescidas.
Quero da vida meu quase melhor para entregar a elas. E penso em reclamos e dias de tormento que as filhas irão ter e meu coração já hoje se condói tanto que choro hoje a dor de amanhã. Não as queria marcadas pela vida mas a vida não me pergunta e os destinos não se fazem, os seguimos tão somente.
Imagino que em algum tempo não estarei só. Imaginar, hoje, é o quanto me basta. Coração anda cansado de comuns amores.
E penso em trabalhos e crias que nem sei se terão. Em assentamentos e ressentimentos. Tão contra ando casar... preciso cuidar de não passar isso a elas.
E penso que poderia até dormir não estivesse com dor nas pernas enrodilhadas. Levanto e vou ver a casa que agora dorme, arrumar filhas, guardar esquecidos e visitar seus sonhos. De quebra rezo a cada uma e subo as cobertas feitas de infância.
Santa Maria que tudo ocorra como tiver que correr, que eu seja porto e ancoradouro das meninas e imensidão para os que gosto.
Que os anjos agora passem e rezem amém.
Que agora posso deitar e sonhar que estou sentada vendo a lua.
Lá da sala.

9 Comments:

Blogger Milton said...

Como amamos nossos filhos e como é bom fazê-lo. Muito bom teu texto, principalmente na colocação clara da mistura de felicidade / preocupações tuas e para com as filhas. Beijo.

9:08 AM  
Blogger Milton said...

Acabo de te linkar. Tudo bem?

9:20 AM  
Blogger A. Narciso said...

Um texto que reflecte na perfeição o amor dos pais para com os filhos. Parabéns
*A

9:28 AM  
Blogger Loba said...

Somos assim.. essa mistura de lua e de dias. E trazemos este amor grande pelas nossas crias. É bonito vê-lo neste texto. Porque bonito demais é tb como vc escreve. Meu beijo moça

10:59 AM  
Blogger Caçador de Placas said...

Melancólica...
Isso porque há tempos não fala comigo, não me dá aquela gargalhada contagiante.
"Quero ver Maria dar sua risada"...
Beijo.

12:47 PM  
Blogger Ernesto Diniz said...

Você não precisa de anjo, nem amém. Você é uma estrela ao lado da lua, uma rua que segue múltipla, uma mulher que corre com lobos. Beijo.

1:06 PM  
Blogger Cora said...

Maria Maria... Lembro de Milton Nascimento e vejo "uma certa magia" em tuas palavras. Acho que ocorreu um certo engano, pois entrou no meu bogue e deixou um comentário como se há muito nos conhecessemos, porém, não me lembro de ti! Teria sido meu ou teu este engano? Mas tal engano me reservou a surpresa de ler tuas belas palavras, portanto, agora que conheço este canto, voltarei mais vezes, se me permite!
Um beijo, e até logo!

1:24 PM  
Blogger Silvia Chueire said...

Vi lá um belo comentário sobre um meu arábico. E sorri. É bom ler um beo comentário, bem escrito. Quase tão bom quanto ler esta declaração de amor às meninas. : )
Beijos

4:01 PM  
Blogger Lóbulo said...

Olá, Digressiva! Como vai esta força? E o cotidiano... descalçar, banhar-se, olhar a lua, linda lua... tudo é motivo para ninar sonos de ávidos ouvidos para a poesia - como eu! Belo texto... Um enorme abraço, tá? E beijos... Denilson (www.gerolino.blogger.com.br)

5:38 PM  

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