domingo, janeiro 16, 2005

Vida de cidade

Era uma vez um João que vivia sua vida de João.
João mora ali na esquina, na avenida São João.
Sem se importar comigo e com sua segurança, planta salsinha, coentro e cebolinha no canteiro central da avenida. Não atina também esse João com o desespero que fico ao vê-lo atravessar a avenida sem olhar os lados, sem parar nos carros. Ele sobrevive e eu cá me apoquento.
Porque vivia João daquele jeito nunca perguntei. Faltava-me a coragem. Mas por gosto, todas as vezes que podia, passava por ele, dizia um oi sussurrado, quase sem som. E para meu movimento de lábios, ele acenava com seu chapéu só de aba.
Lá para o final da tarde essa sua vida de joão chega ao cotidiano da fome e o joão do nome João, aparecia com sanduíches usados, estragados, azedados. Angustiada, quando o vejo, viro o rosto. Para o intenso tráfego João usa sua melhor corrida e vai zanzando entre os carros, para chegar a sua horta. Senta na calçada, pés para a rua. Estica-se como se em casa estivesse e, tranqüilo, arranca suas salsinhas, sacode e coloca o maço dentro do sanduíche. Um verde intenso carrega a fome e é com gosto que João se farta.
Ver esse João é gostar da minha cidade.
Mudei de emprego e mudei de João. A nova rua, muito asséptica, tem árvores plantadas nas duas calçadas, sinais em todas as esquinas e um calçamento de pedras trabalhadas. A vida de joão quase esqueci.
Outro dia voltei ao centro e encontrei hortas entre as duas pistas, no canteiro central. Eu numa esquina, João colhendo seu tempero na outra, mais adiante.
Depois os dias passaram.
Voltei no inverno, João correndo na frente dos carros, batendo nas portas, nos vidros.
Seus dias de terra eram agora dias de brigas.
Não encarei a novidade. Baixei os olhos e atravessei a rua quieta, absolutamente cega.
Voltei dia seguinte mais cedo. Deixei no canteiro meia, luva e cachecol.
Não mais vi João.
Quando o trabalho mudou, novamente para o centro, novamente procurei por ele.
As hortas eram mato, João era outro. Outra vida de joão, outra história.
Por sensibilidade, minha ou não, deixo um maço de salsinha, às segundas-feiras e de coentro as sextas.
Esperando que um dia algum João volte à horta central.

Maria Odila

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