segunda-feira, fevereiro 28, 2005

O tempo em minha avó.


Na casa de minha avó o tempo era mesurado pelas roupas, perfumes e vozes.
Amanhecia o dia, sons miúdos, crianças dormindo porque o cedo ainda era escuro. Minha avó tinha sua máquina de lavar, mas os lençóis, estes, minha avó lavava no tanque, com Rosa, antes da luz vir. E assim, no quintal, aquelas enormes bandeiras flanavam quase toda manhã e entre elas, nossas corredeiras.
Hora do almoço era anunciada com colher de pau batida na panela. E gritando que era cedo a gente corria esperando a sobremesa.
Quando minha avó chamava whisky, o cachorro do vovô, era hora do lanche, afinal vovô todas as tardes sumia como sumia seu whisky. Vovó sempre reclamava, dos dois.
O jantar vinha com cheiro de comida séria. As crianças de banho tomado, brincando curtinho pra não se sujar nem atrapalhar as mulheres na cozinha. Os homens sentados na sala, conversavam, whisky por perto e os não tão pequenos, nesta hora podiam ligar a vitrola.
Depois do jantar, só restava dormir.
É esta a hora da saudade de minha avó.
Miúda, decidida, brava até, ela vinha cobrar o dia.
— Minha filha rezou?
— Rezei.
— Escovou os dentes.
— Sim, vó.
— Contou os lençóis de hoje?
— Contei.
— Raspou o prato no almoço? Rosa fez biscoitos no lanche? Sua mãe voltou cedo do trabalho? Hoje seu pai não veio, estava operando. Minha filha você sabe como funciona um hospital? Seu avô perdeu whisky como faz todas as tardes. Seu tio Lauro ainda não chegou da escola.
Depois eu parava de responder. Acho que vovó sabia: roncava antes de falar todas as contas. E eu cobria vovó e ia dormir.
Dormia ao lado dela, na cama que minha avó todas as noites perfumava com água de colônia. Descansava da lida infantil cheirando rosas ou alfazema.
Acordava sozinha.
No meio da noite minha avó saia novamente a procurar whisky e vovô.
Fechava os olhos pensando comer sequilhos de nata.

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quinta-feira, fevereiro 10, 2005

O novo ano veio com antigas e desavisadas palavras, e como casa de pouco uso, carece de cuidados diários e por isso dei comigo a limpar desatinos.
Já um ano antigo é sempre uma porca espanada sem conserto. Não pode ser mexido e não consegue ser esquecido. Gira em falso e funciona, se quiser.
Toalhas molhadas ou gostam de chão ou são esquecidas nas camas. Pendurá-las, quase nunca. Pares de meias se desfazem no trajeto entre a lavagem e a volta a gaveta. E os lápis vivem ao léu do chão do quarto para que mães incautas exercitem seu abaixa-levanta ou, tropeçando, fazer um beija-lona filial extremamente sonoro.
Então a vida era isso. Cuidar de filhos, prover suas fomes e cuidar de crescê-los à melhor maneira.
Levei, lavei, limpei inclusive. E depois me deixei.
Sou uma mulher de poucas lágrimas.
Minhas roupas são velhas, meus cuidados se fazem poucos. E à noite imagino, ao deitar, que amanhecerão novas quartas-feiras, poucas de cinza.
Talvez, assim, o sono seja simples e sonhar a cria continue como tempo, cotidiano.

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