quarta-feira, março 30, 2005

Pronto Socorro

— Aonde dói?
— Aqui, aqui e ali. O aqui primeiro era o coração; o segundo, a lateral e o ali final, a traseira do coração. As costas.
— Parece nevralgia intercostal.
Mas me dói o coração, pensou ela.
— Melhor fazer eletro. Ver se o coração está em ordem.
Fez. Tudo bem, tudo normal.
Saiu triste do Pronto Socorro. Como ter dor onde não dói? Calçou os olhos errados, achando tudo nublado demais.
Se não dói melhor parar de chorar, ruminou entre dentes e suspiros.
Não viu a moto.
Morreu com as mãos segurando o coração que naquela hora, parou de doer.
Odila Lobo Goulart

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sábado, março 26, 2005

Um ano e canceriano

Outro dia que me dei conta. Esse blog é de março, canceriano, e já fez um ano e eu, desnaturada proprietária, nem notei. Resolvi que estes próximos dias serão de lembranças.
Obrigada, de coração, a todos vocês que me deram esa felicidades de tantos dias.
muitos beijos, muitas alegrias,
carinhos a todos
Maria Odila
PS: Pensei peixes, lembrei pisciano. Escrevi canceriano de tonta que sou. Ai, ai...
Teimosias literárias

Odeio Joyce. Ele escreveu Ulisses! Sim, é verdade e não posso culpar o homem por isso. Só levo horas para descobrir que não o odeio tanto assim já que amo Os Dublinenses.
Amo o Trevisan. Não o vampiro de Curitiba mas o João Silvério. Tenho o privilégio de saber suas histórias ao vivo. Amo não só Joãozinho como sua escrita. E nunca o li.
Minha leitura de alcance de mão é Shakespeare, que vive mais espalhado pelo quarto que na estante do canto, mesmo tendo prateleira certa. Ou como dizem as filhas, anda em mil bagunças copiado pela casa. Gosto tanto deste homem, que lembro de Pórcia, Much Ado About Nothing, que prefiro mais assim, em inglês, e os outros, bem, preciso sempre parar para pensar.
E do enorme Desassossego, tenho só quatro. Um de meu avô, um que ganhei, outro da brasiliense e o ultimo da Cia das letras. Fernando é Pessoa que não me canso de reler. Mas paixão? Paixão tenho pelas cartas. Dele com Ofélia, até.
Aliás são para as cartas-livros minha estante mais especial. Fisicamente ficam frente a meus olhos, e a verdade é que vivem na minha cama-escritório. Enorme cama de casal que divido com livros, bordados e costuras. Ah, sim, e no inverno com lãs e projetos nunca acabados de arraiolos e casacos para as meninas.
Abaporu não me desce. Entretanto as cartas de Tarsila a Luis Martins me fizeram rever aquele amarelaço. Não amo nem gosto, mas já engulo...
Sou rainha da mitologia. Inda ontem dizia que quem mandou construir o labirinto foi Menelau esquecendo que Helena, a de Paris e do pomo de ouro foi sua esposa e que no ouro, o rei era outro: Minos. Pai de Ariadne, a do fio, de Teseu e das teias.
Adoro encontrar soluções, desde que não me dêem trabalho nem precise pensar muito.
Não sou bonita nem tão enxuta, sou interessante, acho.
Tenho vontade de reabrir a lua só para poder ler na janela sem a luz do quarto
Coisas de doidivanas, coisas do esquecimento coisas de maria que sou e sempre serei.
Saber, eu sei. Só confundo com a convicção da certeza.
Maria Odila

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segunda-feira, março 21, 2005

Herança

Meu pai me contou, disso. E essa semana, num destes seriados policiais, Law and Order SVU, o tema foi esse. O único jeito de aliviar minha agonia foi escrevendo, logo...

Olhos azuis na pele alva. Branca de coco, o apelido na escola. Doce, suave e os olhos cor de profundeza.
Namorava, saía, dançava, como as meninas de sua idade.
Conversava tal qual todos sabem fazer.
Diferenças? Indiferenças? Poucas. Comum entre todos, quase.
Cresceu, estudou e casou.
Queria filhos, mas não tão já. E foi vivendo, fazendo coisas, criando, gostando.
Não apreciava as lides de casa mas trabalhava o necessário: lavar, passar e cozinhar. Afinal casal novo vive apertado.
Estudou e depois, formada, saiu trabalhar.
O marido também. Fazia sua parte no cotidiano universo familiar.
Um dia... um dia bastou, um só, uma só noite.
E para não esquecer, engravidou.
Poucos os anos de casada, logo, não contou nada a ninguém.
A família dos avós, como de praxe, adorou a novidade. Primeiro neto, nos dois lados. Sim, porque eles, os avós, tinham certeza: era um menino!
Nasceu, Sarah.
Linda, alba como sua mãe. Por isso Sarah Alba.
Olhos azuis, mas não profundos. Secos. Sarah não chorava. Sarah era linda. Sarah não dava trabalho.
Na consulta, o pediatra, a notícia.
Tay-Sachs.
Sarah entendeu. Lágrimas, soluços solidários a Alba, a pequena Sarah.
Sarah, mãe, queria ser boa. Sarah, judia, sabia que de seu marido, novo convertido, antigo católico, não portava aqueles genes, tão tipicamente hereditários.
Fenomenal. O sexo, o gozo e o castigo. Divino.
Embalou a filha, colocou na cesta e foi ao parque.
Andou até esfolar a dor e os sapatos cansarem dos pés.
E foi ainda mais adiante.
Não sei de Sarah, não sei de Alba.

Maria Odila

A origem da doença de Tay-Sachs é um erro metabólico (do funcionamento do organismo) com o qual o bebê nasce. Tem como conseqüência o atraso neurológico associado a crises convulsivas de controle difícil. Os sintomas aparecem lentamente, tais como perda da visão periférica e da coordenação motora, dificuldades respiratórias e para engolir. Um ponto vermelho na retina é um forte indicador da doença, que não tem cura

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quarta-feira, março 16, 2005

Há mais de oito anos escrevi essa coisinha, quase boba, quase real, quase conto, quase tudo. Porque Ariane vive me dizendo que é dos que ela mais gosta e porque a tendinite anda danada, resolvi que vou correr o risco de colocar aqui, também essa antiguidade.
beijos
Maria Odila


Visitando um Sex Shop

Bem, a gente nessa vida deve fazer ou saber de tudo um pouco. Não sei bem se é esse o ditado, mas é algo parecido. Ano passado, na esteira dos enta resolvi conhecer um SEX SHOP. Com o digníssimo, é claro. Naquele local tranqüilo que é a 23 de maio, avenida pouco movimentada de SP. Pintado de roxo, letreiro em neon piscante, SEX SHOP 24 HORAS. Não queria ser aparecida mas a verdade é que fui naquele... porque não conhecia outro.
Toquei a campainha e uma linda morena abriu a porta.
— Vocês já conhecem a loja? Apesar daqueles olhares de te-mato-se-disser-que-não do dig (digníssimo) claro está que disse não conhecer. Porque sou sempre honesta. E não conhecia mesmo.
— Pois então vou mostrar e demonstrar a loja a vocês.
A moça, gentilíssima. E minha cabeça já estava na sessão besteira. Fazer demonstração, como ela havia isso, era uma coisa que eu queria saber como funcionava, aliás como, se ali era um sex shop? Mas como eu não conhecia, fui ouvindo a moça e vendo as coisas.
Nem pensei, nadica de nada.
Juro.
Ela falando, falando e vou dizer, quer dizer, serei honesta: meu queixo ia caindo... de onde diabos tinha saído tanta coisa só pra transar? Devo ter pensado alto porque ela me disse, quase brava:
— Transar, só? Não, não! Porque transar tem um sentido... e a vida... ainda poetava, a moça.
Entendam. Não menosprezo uma transa, fazer amor, afinal estava ali para isso mesmo, mas o que me deixava abismada é como tinha conseguido chegar aos 40 anos completamente virgem de sex shop. Estava era boba comigo mesma e novamente devo ter demonstrado. A moça, a bonita morena, sempre gentil, disse:
— Espere, que tenho uma coisa para você. Eu, deslumbrada com a loja nem ouvi direito o que ela disse mas como sou cordata, provavelmente devo ter respondido um hum,hum qualquer. Sou cordata e educada também. Ela veio com uma coisa gelada e colocou na minha mão.
— Já usou isso? Já usaram? A morena olhou para ele, para mim. Eram bolas. Não sei bem até hoje para o que servem, e na dúvida, perguntei ao dig.
— Conheço? Nós já usamos? Esqueci de falar que sou bem esquecida? Acho que sim...
Ele sem graça, e bravo, irritado e emburrado, coisa bem típica dele, foi indo para trás e acabou batendo num stand quase encostado na parede.
Nem vou falar nada... quer dizer, vou sim... eram, segundo eu penso... bem... ai, como vou dizer? Bem eram cópias de... não. Eram próteses... não, também não eram. Eram umas coisas assim, tá vendo? Pois é, assim, feitas de plástico, que eu acho que... bem, como eram ocas por dentro... ai, meus sais... que coisa mais difícil de explicar. Eram, na verdade vários pênis de borracha, enormes. De muitos tamanhos, largura, desenhos e coloridos. Contaram-me que se chama ciborgue, mas naquele dia eu ainda não sabia disso. Para mim eram pintos de borracha.
O caso é que batendo lá o Dig fez com que todos caíssem em cima dele. Era uma chuva de pintos nele e ele rebatendo e o negócio, que era de plástico, quicava, batia e subia e voltava para ele e ele re-rebatia aqui e ali e os pintos iam subindo e descendo.
Eu segurei a risada porque sei que ele fica muito bravo quando riem dele, mas depois... depois a moça com a mão na boca, e as outras pessoas disfarçando. E eu ri. A moça, olhos arregalados e lábios apertados, tentava ajudar tirando de cima dele os tais... ciborgues. Era muito solícita a moça e foi ajudar o Dig retirando a pintaiada de cima dele. Daí que ele me saiu com essa pergunta:
— O que é isso? Com um pintão enorme na mão. Respondi batido:
— Se não sabe o que é isso, é melhor a gente ir embora porque a visita à loja não vai valer para nada. E ri mais ainda. A moça riu também, mas como era o trabalho dela, ainda respondeu - Isso são próteses que o senhor pode usar para satisfazer melhor a sua mulher. Pra que ela foi falar aquilo? O homem, agora roxo na sua dignidade e com um daqueles negócios na mão, também roxo, foi ter um ataque. Mas quando abriu a boca não saiu palavra. Quis dar a tal da prótese que estava segurando para a moça, mas arranhou ou esfregou na mão que estava segurando... já imaginaram? Um homem com aquilo na mão, mas era um outro aquilo? Roxo? De plástico? Enormão? Tremendo na mão dele? Às vezes acho que ele teve razão em ter ficado meio bravo comigo, mas que era engraçado, era.
— Doeu, perguntei? Eu estava pensando na queda dele e dos pintos, mas a moça achou que estava falando da ralada do tal ciborgue.
— Imagina, olha só como o plástico é suave e esfregou no dorso da mão dele e depois na minha. Para não atritar temos um óleo especial, indiano, e também é ótimo para massagem. E o Dig se viu sendo massageado... na mão, é claro, segurando aquela gororoba enorme e ela mandando ele passar o óleo na gororoba. E ele bravo, fechando a mão e esquecido da coisa que estava lá dentro. Custo foi fazer o homem abrir a mão e soltar a coisa. Coisa forte, nem se abalou em ser tão amassada.
O Dig é forte pra caramba. A coisa também.
Bem, para sairmos da loja levamos o tal do óleo de massagem... o ciborgue era caro demais. E depois, ainda sou a favor do natural. Só não consigo entender porque o Dig fica bravo quando canto uma música que era do seriado que tinha um tal de Zé borgue... a associação de idéias do Dig eu nunca entendo.

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quarta-feira, março 09, 2005

Curtos.


Dia outro Deus estava assim, cansado.
Dia ontem, eu também.
Não que seja eu Deus ou qualquer ser divino, mas me sinto melhor quando tenho alguma afinidade com Ele.

E então ele vem e senta. E pede novas histórias e antes que eu comece, pergunta o que é gostar. Respondo que amor é privilegio dos outros. Levanta os ombros, muxoxa os olhos, revira a boca, levanta-se quase inteiro e sai. Esqueceu que seu outros sou eu.

O dia se arrasta esquecendo das horas. Se assim acontece, já sei: é a filha esperando o namorado ligar. Quando reclama, é porque o tempo correu. E quando vai vê-lo, resmunga que o tempo será pouco. Esse é o tempo de um relógio apaixonado.

Quando te disser adeus, não olhe, aliás, nem se vire. Pensando melhor, nem ouça. Esqueça. Apague ou defenestre. Na verdade eu nem queria ir. Na verdade nem queria dizer nada. Por isso quando te disser adeus, ria. Era bobagem. Talvez fosse só a vontade de te beijar hoje de manhã.

Outro dia fui pedra, sem caminho e sem sopa, Pedra simples, de andar no bolso do casaco de filha caçula. E filha chegou e me deu banho, com escova de dente, com sabonete de pele seca e me hidratou, com creme de mãe. Ser pedra é assim, rotineiro.

Filha sanduba, dizem, é terrível de ser. Nem bem aqui, nem bem lá. Não digo a ela que mais gostoso é o recheio, porque a minha do meio, só come bordas.

Estava lendo cartas antigas, novas, também chamadas de emails. Algumas diziam: ainda bem que passou. Já outras... uma pena. Sorrisos vi em muitas, ora de alívio, ora de melancolia. Mas nenhuma me quis de volta. Aquele passado não condena, só não me quer presente.

Ali a esquina da corredeira. À esquerda, muitas travessas pra bem depois, a estrada do rio acima. Caminho para a clareira das cobras. Dizia meu avô — cobras não ficam no descampado. Gostava de ir por lá, repicando sua bengala no chão e nas pedras — para espantar cobras. Nunca pensei na razão do nome. Vai ver os picados de cobra fossem até a clareira para morrer, não sei. Esqueci lá a bengala de vovô e nunca mais voltei.
Maria Odila

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sexta-feira, março 04, 2005

Descompasso

Primeiro o susto, as horas, brincar de estátua!
Respirar pesa e sentir é desarmônico.
E depois o choque. Dias e noites, inclementes em sua normalidade.
Fazer-se à vela, sair da cama, sair da casa, entrar no dia.
E seguir a hora, temporariamente extinta.
Respiro como se sustos fossem.
Passional, peço que a noite não acabe e ela me enrola, nos lençóis.
Deslizar, dar-me conta que o comum de dois é agora conta de um só.
Sair seguinte ao dia...
A memória falha, recorda, re-sente.
Peço que a dor acabe, súbita, que deixe de acontecer.
Preciso sentar e pensar e entristecer.
Bem sei o dia, e nas horas o tempo vai.
Preciso fazer descompassos, ladainhas, silvar de jeito.
Preciso que o insuportável seja menos.
Novidades, não as quero bem-aceitas.
Desejos, já não os tenho


Maria Odila

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