quinta-feira, abril 28, 2005

Brincando com letras e histórias

I

Sherazade

Reza a lenda que a linda sherazade contava historias.
Diz a história que a linda sherazade é lenda.



Quisera ser sherazade, ela falou.
Mais tu es, disse ele.
Nem tanto, retrucou ela, não consigo te seduzir nem com palavras.
Mas para seduzir, ele explicou, tu não precisa de palavras.



Maria Odila

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domingo, abril 24, 2005

Alumbramento

V

Nem bem desce, sobe a desatar no peito meu coração.
Retoma indefinido e cativo, as tosquias, o tempo e as tatuagens.
Deslumbres de pele, inteiros desfeitos, partidos.
E o ar respira, pleno de intactos intentos.
Ele descansa e eu perco-me a velar.
Descoerente, mais uma vez, tenciono. Ele, perto, determina.
Meus os seios, dele os pelos.
Rubra a pele e as marcas tintadas a lilás.
Cuida ele que eu desfrute, cuido que sonhe o depois.
E quando me penso cansada, aporta e clama:
— Vem, te quero.


Maria Odila

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terça-feira, abril 19, 2005

Manoel, do Agrestino, está com um corrente literária deliciosa, que veio da Mica, de As coisas de Micas, que está blogada lá no Agrestino. Fui uma das escolhidas dele e aqui está meu sempre confuso trabalho.
Lulu está bem melhor, mas ainda com febre e curativos. mas melhor. Obrigada a todos os carinhos, boas intenções e boas melhoras.

Ex-Libris da Tugosfera

Não escrevo com conhecimento de causa, escrevo com o que sinto e o que gosto e espero que isso baste. Odila

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

Engraçado que Fahrenheit 451 é um livro, de Ray Bradbury, aquele dos Marcianos e das histórias de ficção científica. E um filme de François Truffaut que eu diria obrigatório, isso se eu gostasse de obrigações. Mas como necessito ser um livro, gostaria de ser qualquer um que ao ser lido acordasse memórias e sentidos.


Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?

Minha primeira paixão foi Emília, de Monteiro Lobato. Paixão que melhorou ao reler todo o sítio depois dos 30 anos. E como era de ler muito ao mesmo tempo que queria ser Emília brigava com minhas irmãs para ser a Jô de Mulherzinhas da Louisa May Alcott. Acho que nasci para ser teimosa, qualidade destas duas personagens.

Qual foi o último livro que compraste?

Eu ando refazendo minha biblioteca por isso comprei os contos de Hemingway, volumes 1 e 2, Caçando novos diários e correspondências, minhas paixões de sempre, me dei as Cartas de Caio Fernando de Abreu e ganhei o Almanaque dos anos 80 e Incidente em Antares que já foi para a pilha dos que devem ser relidos.

Qual o último livro que leste?

Se eu lembrasse até que seria fácil... Manoel de Barros e Rubem Alves que ando lendo com as filhas. A Clarice de Aprendendo a Viver e a Descoberta do Mundo. Estudando a análise do Zé Miguel Wisnik sobre Cajuína – devo ser completamente tapada porque leio e ouço a música e ainda fico sobrevoando, boiando, cruzes! Organizando meus livros de história da alimentação por isso dando nova espiada em todos. E porque sempre digo inverno e quando penso no outono e vive versa, minha eterna paixão, Shakespeare, porque não seria este o inverno da nossa desesperança?
O inverno da nossa desesperança já se transformou em um glorioso sol de York. E todas as nuvens que pesavam sobre nossa casa jazem sepultadas nas profundas entranhas do oceano. Ricardo III

Que livros estás a ler?

Manias, manias. Livros são também manias então estou dando outra espiada no Dicionário de Lugares Imaginários – VEREDAS MORTAS, que você chega descendo a Vereda do Porco-Espim até um lugar chamado Coruja, um retiro taperado. Meu único e eterno volume 3 do Thesouro da Juventude, ainda escrito com agá, herança de meu avô. Poemas de Severo Sarduy Destruir? No.Olvidar? No: borrar. Devolver a su vacio inicial. Al espacio sin limites de lo no manifestaaado, lo que ocurrió la víspera de la víspera, a lo largo de lãs imaginarias y Del tiempo sin bordes, hasta volver a la violeeencia inmóvil Del estallido germinador. Pórcia a mais maravilhosa advogada que conheço na literatura de O Mercador de Veneza de Shakespeare, claro, meu fiel topo de pilha de livros. E dos mais novos, Diários de Silvia Plath e aquele livro do menino da biblioteca que não sei onde perdi, aqui em casa, ai, ai, me perdoe o autor mas até o título esqueci. Maria Teresa Horta, para mim a poeta dos melhores eróticos e Antonio Tabuchi, Está ficando tarde - Minha Querida, sei que você se dedica ao passado, é a sua profissão. Mas esta é uma outra história, acredite. O passado é mais fácil de ler, a gente se vira para trás e, podendo, dá uma olhada.


Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?

Acho que Shakespeare, todos, todos. Fernando Pessoa que nunca abandono e sempre esqueço de citar, alguns mistérios, em letras e contos, Algumas memórias e os livros que conseguisse encaixotar a tempo de ir.

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê?

Thimóteo Rosas do Via Oral porque é um dos homens mais inteligentes, cultos e de bom humor que conheço. Além do mais realista e crítico a respeito de si mesmo.

Daniel lá da Teoria do conceito, meu mais novo filho, de coração e literatura, porque tem o dom das letras e sempre as inova, recria e sedimente entre dores e carinhos

E Nora, que além de me ensinar letras deu-me novos corações, todas as esperanças em dias nebulosos. Sua criação é sempre feliz, toujours amoureuse, se eu ainda lembrasse de meu parco francês, letras amorosas as de Nora
Beijos a todos
Maria Odila

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segunda-feira, abril 11, 2005

Inventário

Ainda as letras de um ano.
Gosto desse inventário e este vem por conta do Agrestino amigo Manoel. Foi quem primeiro me leu, quem incentivou em todos os dias a constância e a persistência na escrita. Se bem que Manoel também goste de boxe, optei por este... a história de boxeando cartas matutinas... já passou.
Lulu, bem, minha espertinha tem estado bem calada, com febre e muitas dores. Estamos voltandoao médico.
Beijos a todos.
Odila

Árvores? Diversas, indefinidas, nenhuma. E dependendo do terreno onde planto, florescem, fenecem e ás vezes crescem.
Filhas, algumas paridas, outras quase criadas.
Livros? Em gênero e número indeterminados, li, guardei e vendi, a maior parte.
Tecidos, entre azuis e vermelhos, para um dia, sempre um dia, fazer costuras, entremear linhas e cerzir pontas.
Agulhas, contas, linhas e miçangas de se perderem nos dedos, caídas em minha caixa de vidrilhos.
Alany me ensinou, sou uma mulher de princípios. Principio cortes, costuras, tricôs e crochês. Bordo mais que Penélope sem nunca desfiar fio algum. Cuido de levar dez, dois, cinco anos em trabalhos que nunca hei de findar.
E ainda me perco no tempo, nas tramas e na memória.
Distraída, sou quase esquecida. Confusa até.
No mais, me sinto perdida.
Cachos, tenho alguns.
Hoje os cabelos são ruivos mas foram nascidos pretos para depois, com o tempo, acastanharem-se.
As mãos só sabem escrever. Minto. Os olhos escrevem. As mãos acariciam, quando alguém quer delas se apropriar.
Falta-me o alguém.
Os olhos foram perdidos. Quem souber, devolva, se os encontrar.
Sou mulher de prendas, dadivosa.
Dou sorrisos e gargalhadas como o sol de fim de tarde, nos dias e nas horas.
Dou cantos e encantamentos a quem acredita em meus pedaços.
Dou chuva e concedo o sol para os olhos de quem me vê.
Entrego o vento de presente a quem ventar, mas que seja vento de ventania, que troca tudo e nunca volta ao mesmo lugar.
Gosto de achar bocas que praticam beijos e ficar com os lábios inchados de beijar.
Mas aí também já são vontades e hoje me propus a inventariar.
E assim termino aqui, inventários de maio, mês de Maria, primeiros de alguns, pouco de todos.
Maria Odila, maio de 2004

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quinta-feira, abril 07, 2005

Coisas de Lulu

Lulu é a minha mais nova, a Maria Roberta. Essa semana Lulu teve apendicite aguda e foi operada de emergência na terça. Este é outro texto antigo, de 2001, mas entra como homenagem a arteira Lulu que desde terça tem sido a silenciosa Lulu.
Chá no museu

Por três vezes, nesses feriados, tentei levar as meninas à exposição dos Faraós. Impossível. Filas quilométricas. Filhas pequenas e irrequietas.
Para evitar a frustração das moças, fomos a outro museu, o Maria Luisa e Oscar Americano. Lindíssimo, com um imenso gramado para as minhas vândalas correrem, sem perigo algum, para as outras pessoas e as artes.
A visita foi... diferente.
Enquanto eu vagarosamente subia até a casa, as meninas demonstravam como a física funciona.
Um trem, no caso eu, e uma abelha, no caso elas, saem ao mesmo tempo de estações opostas. Enquanto o trem vai a uma velocidade de me deixar constantemente irritada, a maldita abelha fica naquele vai e vem variável de torrar o saco.
Perguntas:
a) Na velocidade do trem-mãe, ainda eu, quantas vezes a abelha, minha dupla, consegue ir e voltar?
b) Qual a velocidade constante e qual a velocidade variável, dos objetos. Como professor de física gosta de eufemismo, minha nossa! Primeiro uma abelha e um trem e depois velocidade constante e variável...
b') Calcule a velocidade do trem-mãe, das abelhas-filhas e a distância entre os dois pontos, mãe e filhas, nas várias vezes em que se encontrarem. (Pergunta bê linha é outra coisa bem típica de professor de física.)
c) Calcule também em quanto tempo seria percorrida essa distância se o trem corresse como a abelha e a abelha corresse usando metade da velocidade variável.
Basicamente minhas respostas seriam básicas.
Em primeiro lugar, que merda de abelha corre mais que um trem? Naquele tempo, quando eu fazia o científico, não sabia e nem tinha coragem de perguntar ao professor. Hoje já sei, se forem abelhas filhas, correm mais que qualquer trem mamãe. Portanto, primeira de algumas respostas, respondida.
Depois, descobri que um poderoso trem não é páreo, nem na subida e muito menos na descida para fogosas filhas com-muito-fôlego-pra-gastar. Descobri ainda que a velocidade é a coisa mais relativa que existe entre as abelhas-filhas. Se for a abelha-Mamali, vai correr sem nunca ficar cansada, porém se for e abelha Lulu-dengosa uma só corrida bastará enquanto com a abelha-Teté, nem uma ida será feita, muito menos uma volta. Ela estará andando com o cansado e nunca potente trem-mãe. E entre abelhas-filhas, jamais existirá velocidade variável e constante e sim ímpeto corretivo, de correr. E ímpeto cansativo, de cansar. A distância entre o trem e a abelha, nem Deus sabe, muito menos um mero professor de física de segundo grau e menos ainda uma mãe de família. Queria estar vendo a cara do meu professor quando dissesse tudo isso.
Mas vendo de longe, porque ele era bravo pra dedéu.
E depois, no museu...
— Filha, cuidado, esse é um tapete muito antigo.
— Mais antigo que você, mamãe? pergunta a Lulu. Não vou responder, juro que não vou. Fiz um muxôxo, levantei a beiradinha da narina e só. Fomos andando e eu explicando. Isso é um tocheiro, muito antigo que as pessoas usavam quando não tinha luz elétrica para iluminar. Eram tochas...
— O que eram tochas, mã? quer saber Mamali. Tochas eram uns canos mais ou menos assim que tinham fogo dentro.
— E pegava fogo? Dentro de casa?
— Claro que não, minha filha.
Se fosse lá em casa, pegaria fogo, diz sabiamente Mamali, porque a Lulu nunca para quieta, fica correndo o dia sempre.
— Dia sempre, filha?
— É, o dia todo e todo dia, ela me explica, e eu olho para Teté que tem a mão apertando os lábios para segurar o riso... quem corre é a Mamá, se estou bem lembrada, mas como mãe, tenho que ficar séria.
A visita continua, contando à minhas filhas sobre as viagens do Franz Post ao Brasil.
— Mas porque ele não foi pra Santos, mãe? pergunta a Lulu. Em tempo, as meninas adoram Santos e para elas a melhor coisa do mundo é viajar para lá, depois do Orogoai, para mim, ainda Uruguai, que é depois do Brasil, que para elas é São Paulo.
O povo que ouve essas patacoadas morre de rir mas eu de mãe, tenho que ficar séria. Até que Lulu se vira para todos nós, olha muito brava e diz:
— Mãe, vâmo pará com essa engraçada? Dá as costas para a sua pequena platéia e vai embora, rebolando. Tentei segurar a risada e quase consegui. Quando ela vira para trás e diz:
— Mãe, se você rir nóis vai ver, convosco. Ela está numa mania doida de aprender pronomes, porque a irmã mais velha está aprendendo.
Sai contendo as risadas.
Como prêmio pelo ótimo comportamento das duas, fomos tomar chá. Um chá bem inglês.
— É docinho?
— Como Mamali?
— O doce, mãe. Essa menina parece que tá meio gira. Claro que é doce, Mamá. Porque não seria?
— Não sei. É chá do museu. Elas estavam babando com a louça do museu. As peças de prata, e os aparelhos de porcelana da Companhia das Índias, que elas já conheciam porque eu tenho um armário de antuiguidezas, diz Lulu. Muito gentis para comigo, estavam doidas para fazer de casa um museu, e quando eu disse que não dava porque tinha pouca coisa, elas foram pedir para uma das moças de lá se poderiam levar um pouquinho de cada coisa pra casa. Dei tamanha bronca nas duas que elas acabaram ressabiadas demais.
— É do museu? perguntava Lulu se referindo ao açucareiro de prata.Se eles roubam de lá pra fazer chá, a gente pode dizer que vai fazer chá e levar também?
— Não, Lulu, claro que não, responde Mamali.
— É? Como você sabe? A gente não viu um desse lá em cima?
— Vimos sim, mas esse é falsificado de verdade.
— Até a serviceira?
— Serviceira?
As mesas todas ocupadas. Feriado. Muita gente, poucas mesas, a conversa particular torna-se pública.
— Meninas. Chocolate quente. Não berrei, nem precisava. Guloseimas as filhas ouvem de longe, mesmo quando murmuradas.
Sentadas, começam as três na conversa de sempre. Cada uma fala o que quer, responde o que não interessa e briga com o que não deve.
Mamali falando das corridas, Lulu querendo saber porque o Oscar Americano morreu, Teté rindo e a única a aproveitar o chá, eu, a poor little mother, filosofando para as meninas pequenas sobre mortes, museus, cemitérios, caixões e o chá inglês.
E a conversa ouvida de orelhada, na mesa ao lado.
— Pois é, precisamos colocar segurança... mesmo?... vovó... no túmulo...é, para assegurar a segurança da vovó.
— Mãe, pergunta Teté bem baixinho, assegurar a segurança, é certo?
— E eu sei, Té? A segurança é delas.
E a conversa continuou.
— Segurança... não sabia? Foi isso o que aconteceu...nesta ordem? Que coisa...Segurança...a vovó... no túmulo.
Lulu saiu da cadeira e foi cutucar a moça da "avó segura".
— Tua avó tá no cimitério?
A moça, com jeito de quem nunca tinha nem ouvido criança falar, quanto mais palpitar, olhou bravíssima para mim. A mim ela não assustava, muito. Ela olhou também para a Lulu e nada, caiu do burro. Porque o que amendronta Luli é Beto, o irmão.
Lulu, vendo que a moça não respondia e que as duas mesas estavam em silêncio, armou um bico de cara de séria e disse:
— Sabe. Meu vô ta doente. Muito doente, e minha mãe tá com medo que ele morra. Levou a gente no cimitério, mostrou as velas, as flores, os caixotes (caixão, para ela ficou como caixote) e nem deixou eu entrar nas casinhas de morte dos morto porque tava com gradinha. A minha mãe me disse que meu irmão tá lá e que ele morreu nenê e que ele é mais velho que eu, mesmo tendo morrido nenê e mesmo tendo ficado no escuro sozinho, ele é mais velho, ele é nenê. Ele é morto, você sabe. Nem com água pelando fogo ele fica quente. Ele tá frio de morte de morto.
Parou para tomar fôlego e olhou para mim. Continuou.
— A sua avó é velha? E tá morta? Eu sei porque tem guarda. É pra ela não fugir.
Sabe por que eu sei? continua Lulu. Minha mãe ensinou direitinho o meu irmão. Ele nunca saiu do cimitério no caixote dele e ele é nenê e mais velho. Tira sua vó do guarda que segura. Meu irmão ensina ela a ser morta quietinha. E o escuro não dá medo, porque u Deus faz a gente quando morre ficar sem respirar e sem medo de escuro de noite. A gente dorme que num dá pra ver nada, igual cobra cega que é cega.
U Deus cuida do meu irmão e da tua vó tudo junto, sabia? Ele não tem medo de muita gente.
Uma das senhoras da mesa pergunta:
- Como sabe disso tudo, menininha?
- Porque meu avô vai morrer e minha mãe foi no cimitério chamar U Deus para cuidar dele.
- Deus no cimitério?
- É. Ele tá amarrado lá dentro do museu no tocheiro (a cruz) sangrando. Mas como não tinha caixote pra ele, você pode ir falar com ele nas casinhas do cimitério (túmulos). Saiu correndo, depois voltou, de marcha ré e disse:
- E se você falá com a tua avó, pede pra ela trocar as fraldas do Tonico mermão, que a mamãe nunca trocou, dá um beijo nu Deus e manda ele cuidar do meu vô senão minha mãe chora mais. Tiau.

Final de mãe

Beijos, ao Deus da Lulu, que aos 5 anos entendeu mais de morte, cemitério, museu e câncer que a cansada mamãe dela.
OdilaGoulart, férias de julho de 2001.

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segunda-feira, abril 04, 2005

Do re-sentir.


Este foi meu primeiro texto a sair no Balaio Vermelho do Moacy . Voltei a colocar por conta do aniversário. Beijos especiais a Moacy sempre presente, sempre amigo.
Maria Odila


Guardar ressentimento é como tomar veneno e querer que a outra pessoa morra.
Shakespeare


Afetar, sentir, o re-sentir.
Viver. Verbo, ação, um estado. Sentimentos, que no re-torno sempre são re-sentidos.
Retrocesso, regresso, recuo. Revolta
Quando me volto, para dentro, para pensar, é sempre comigo que me penso. Assim, erradamente, mas bem dentro de mim.
Inferir. Bem melhor que deduzir, que é palavra de detetive. Pré-sinto tal e qual, encontrando aqui chagas invisíveis que me avisam desse dês-sentir.
Acordar. Das dores e ressentimentos. Não estar atada. Tanger a dolorosa tecla e fugir da dor. Iguais se tocam, refletem, enganam. Na verdade refratam, quebram as direções, desviam os sentimentos.
Quem se permite dor imposta, vive sujeito a viver do outro, de alheia dor, de alienada amargura.
Libertar-se é mais dor que sofrer de dor. Sofredor sofre calado. É padecente de predicados.
O assistido cria vínculos. Trans-cria. Entende-se.
Dor e sentir não têm a mesma unicidade. Mas provêm de mesma unidade. Meu só sentir. Meu inconsciente bondoso que foge de mim atribui culpas ao meu impossível, potencializa minha necessidade.
Um sentir que se faz intenso. Que bem se assemelha a todo o meu re-sentir.
Enquanto não sei de mim, careço de ajuda. Mas quando sei do que careço, me auto-ajudo. Me deixo crescer.
Por isso perdôo. Porque sou egoísta, graças a mim.

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