Lulu é a minha mais nova, a Maria Roberta. Essa semana Lulu teve apendicite aguda e foi operada de emergência na terça. Este é outro texto antigo, de 2001, mas entra como homenagem a arteira Lulu que desde terça tem sido a silenciosa Lulu.
Chá no museu
Por três vezes, nesses feriados, tentei levar as meninas à exposição dos Faraós. Impossível. Filas quilométricas. Filhas pequenas e irrequietas.
Para evitar a frustração das moças, fomos a outro museu, o Maria Luisa e Oscar Americano. Lindíssimo, com um imenso gramado para as minhas vândalas correrem, sem perigo algum, para as outras pessoas e as artes.
A visita foi... diferente.
Enquanto eu vagarosamente subia até a casa, as meninas demonstravam como a física funciona.
Um trem, no caso eu, e uma abelha, no caso elas, saem ao mesmo tempo de estações opostas. Enquanto o trem vai a uma velocidade de me deixar constantemente irritada, a maldita abelha fica naquele vai e vem variável de torrar o saco.
Perguntas:
a) Na velocidade do trem-mãe, ainda eu, quantas vezes a abelha, minha dupla, consegue ir e voltar?
b) Qual a velocidade constante e qual a velocidade variável, dos objetos. Como professor de física gosta de eufemismo, minha nossa! Primeiro uma abelha e um trem e depois velocidade constante e variável...
b') Calcule a velocidade do trem-mãe, das abelhas-filhas e a distância entre os dois pontos, mãe e filhas, nas várias vezes em que se encontrarem. (Pergunta bê linha é outra coisa bem típica de professor de física.)
c) Calcule também em quanto tempo seria percorrida essa distância se o trem corresse como a abelha e a abelha corresse usando metade da velocidade variável.
Basicamente minhas respostas seriam básicas.
Em primeiro lugar, que merda de abelha corre mais que um trem? Naquele tempo, quando eu fazia o científico, não sabia e nem tinha coragem de perguntar ao professor. Hoje já sei, se forem abelhas filhas, correm mais que qualquer trem mamãe. Portanto, primeira de algumas respostas, respondida.
Depois, descobri que um poderoso trem não é páreo, nem na subida e muito menos na descida para fogosas filhas com-muito-fôlego-pra-gastar. Descobri ainda que a velocidade é a coisa mais relativa que existe entre as abelhas-filhas. Se for a abelha-Mamali, vai correr sem nunca ficar cansada, porém se for e abelha Lulu-dengosa uma só corrida bastará enquanto com a abelha-Teté, nem uma ida será feita, muito menos uma volta. Ela estará andando com o cansado e nunca potente trem-mãe. E entre abelhas-filhas, jamais existirá velocidade variável e constante e sim ímpeto corretivo, de correr. E ímpeto cansativo, de cansar. A distância entre o trem e a abelha, nem Deus sabe, muito menos um mero professor de física de segundo grau e menos ainda uma mãe de família. Queria estar vendo a cara do meu professor quando dissesse tudo isso.
Mas vendo de longe, porque ele era bravo pra dedéu.
E depois, no museu...
— Filha, cuidado, esse é um tapete muito antigo.
— Mais antigo que você, mamãe? pergunta a Lulu. Não vou responder, juro que não vou. Fiz um muxôxo, levantei a beiradinha da narina e só. Fomos andando e eu explicando. Isso é um tocheiro, muito antigo que as pessoas usavam quando não tinha luz elétrica para iluminar. Eram tochas...
— O que eram tochas, mã? quer saber Mamali. Tochas eram uns canos mais ou menos assim que tinham fogo dentro.
— E pegava fogo? Dentro de casa?
— Claro que não, minha filha.
Se fosse lá em casa, pegaria fogo, diz sabiamente Mamali, porque a Lulu nunca para quieta, fica correndo o dia sempre.
— Dia sempre, filha?
— É, o dia todo e todo dia, ela me explica, e eu olho para Teté que tem a mão apertando os lábios para segurar o riso... quem corre é a Mamá, se estou bem lembrada, mas como mãe, tenho que ficar séria.
A visita continua, contando à minhas filhas sobre as viagens do Franz Post ao Brasil.
— Mas porque ele não foi pra Santos, mãe? pergunta a Lulu. Em tempo, as meninas adoram Santos e para elas a melhor coisa do mundo é viajar para lá, depois do Orogoai, para mim, ainda Uruguai, que é depois do Brasil, que para elas é São Paulo.
O povo que ouve essas patacoadas morre de rir mas eu de mãe, tenho que ficar séria. Até que Lulu se vira para todos nós, olha muito brava e diz:
— Mãe, vâmo pará com essa engraçada? Dá as costas para a sua pequena platéia e vai embora, rebolando. Tentei segurar a risada e quase consegui. Quando ela vira para trás e diz:
— Mãe, se você rir nóis vai ver, convosco. Ela está numa mania doida de aprender pronomes, porque a irmã mais velha está aprendendo.
Sai contendo as risadas.
Como prêmio pelo ótimo comportamento das duas, fomos tomar chá. Um chá bem inglês.
— É docinho?
— Como Mamali?
— O doce, mãe. Essa menina parece que tá meio gira. Claro que é doce, Mamá. Porque não seria?
— Não sei. É chá do museu. Elas estavam babando com a louça do museu. As peças de prata, e os aparelhos de porcelana da Companhia das Índias, que elas já conheciam porque eu tenho um armário de antuiguidezas, diz Lulu. Muito gentis para comigo, estavam doidas para fazer de casa um museu, e quando eu disse que não dava porque tinha pouca coisa, elas foram pedir para uma das moças de lá se poderiam levar um pouquinho de cada coisa pra casa. Dei tamanha bronca nas duas que elas acabaram ressabiadas demais.
— É do museu? perguntava Lulu se referindo ao açucareiro de prata.Se eles roubam de lá pra fazer chá, a gente pode dizer que vai fazer chá e levar também?
— Não, Lulu, claro que não, responde Mamali.
— É? Como você sabe? A gente não viu um desse lá em cima?
— Vimos sim, mas esse é falsificado de verdade.
— Até a serviceira?
— Serviceira?
As mesas todas ocupadas. Feriado. Muita gente, poucas mesas, a conversa particular torna-se pública.
— Meninas. Chocolate quente. Não berrei, nem precisava. Guloseimas as filhas ouvem de longe, mesmo quando murmuradas.
Sentadas, começam as três na conversa de sempre. Cada uma fala o que quer, responde o que não interessa e briga com o que não deve.
Mamali falando das corridas, Lulu querendo saber porque o Oscar Americano morreu, Teté rindo e a única a aproveitar o chá, eu, a poor little mother, filosofando para as meninas pequenas sobre mortes, museus, cemitérios, caixões e o chá inglês.
E a conversa ouvida de orelhada, na mesa ao lado.
— Pois é, precisamos colocar segurança... mesmo?... vovó... no túmulo...é, para assegurar a segurança da vovó.
— Mãe, pergunta Teté bem baixinho, assegurar a segurança, é certo?
— E eu sei, Té? A segurança é delas.
E a conversa continuou.
— Segurança... não sabia? Foi isso o que aconteceu...nesta ordem? Que coisa...Segurança...a vovó... no túmulo.
Lulu saiu da cadeira e foi cutucar a moça da "avó segura".
— Tua avó tá no cimitério?
A moça, com jeito de quem nunca tinha nem ouvido criança falar, quanto mais palpitar, olhou bravíssima para mim. A mim ela não assustava, muito. Ela olhou também para a Lulu e nada, caiu do burro. Porque o que amendronta Luli é Beto, o irmão.
Lulu, vendo que a moça não respondia e que as duas mesas estavam em silêncio, armou um bico de cara de séria e disse:
— Sabe. Meu vô ta doente. Muito doente, e minha mãe tá com medo que ele morra. Levou a gente no cimitério, mostrou as velas, as flores, os caixotes (caixão, para ela ficou como caixote) e nem deixou eu entrar nas casinhas de morte dos morto porque tava com gradinha. A minha mãe me disse que meu irmão tá lá e que ele morreu nenê e que ele é mais velho que eu, mesmo tendo morrido nenê e mesmo tendo ficado no escuro sozinho, ele é mais velho, ele é nenê. Ele é morto, você sabe. Nem com água pelando fogo ele fica quente. Ele tá frio de morte de morto.
Parou para tomar fôlego e olhou para mim. Continuou.
— A sua avó é velha? E tá morta? Eu sei porque tem guarda. É pra ela não fugir.
Sabe por que eu sei? continua Lulu. Minha mãe ensinou direitinho o meu irmão. Ele nunca saiu do cimitério no caixote dele e ele é nenê e mais velho. Tira sua vó do guarda que segura. Meu irmão ensina ela a ser morta quietinha. E o escuro não dá medo, porque u Deus faz a gente quando morre ficar sem respirar e sem medo de escuro de noite. A gente dorme que num dá pra ver nada, igual cobra cega que é cega.
U Deus cuida do meu irmão e da tua vó tudo junto, sabia? Ele não tem medo de muita gente.
Uma das senhoras da mesa pergunta:
- Como sabe disso tudo, menininha?
- Porque meu avô vai morrer e minha mãe foi no cimitério chamar U Deus para cuidar dele.
- Deus no cimitério?
- É. Ele tá amarrado lá dentro do museu no tocheiro (a cruz) sangrando. Mas como não tinha caixote pra ele, você pode ir falar com ele nas casinhas do cimitério (túmulos). Saiu correndo, depois voltou, de marcha ré e disse:
- E se você falá com a tua avó, pede pra ela trocar as fraldas do Tonico mermão, que a mamãe nunca trocou, dá um beijo nu Deus e manda ele cuidar do meu vô senão minha mãe chora mais. Tiau.
Final de mãe
Beijos, ao Deus da Lulu, que aos 5 anos entendeu mais de morte, cemitério, museu e câncer que a cansada mamãe dela.
OdilaGoulart, férias de julho de 2001.