Jeito sapo de ser.
Um jeito sapo de ser
Decididamente hoje entendi — sou apaixonada por sapos encantados. Às vezes avestruzes, outras leões, muitas vezes ratos, mas burros encantados?
Jamais!
Prezo muito a inteligência. A minha e a que está a cotê de chez moi.
Esse jeito sapo de ser faz dos príncipes sujeitos ultrapassados.
Cacetes eu diria.
Príncipes são aqueles que realizam de tudo um pouco, ótimos amantes, acompanhantes perfeitos.Usam ternos, com pregas ou barras italiana e quando esportivos, mocassim. Perfumes da moda, restaurantes das revistas. Vão dos quarenta aos cinqüenta e jamais envelhecem. Gostam de vinho, whisky e algumas vezes cerveja. Melhores safras, rótulos escuros e, óbvio, a cerva da temporada.
Esse o modo dos príncipes.
Fazem a mulher ser “fêmea” e na cama querem a puta — só na cama, dizem — e esquecem, pobres putas, que essas recebem pra gozar e não conhecem o gozo recebido.
Carinho, para os encantados príncipes da vida, é uma boa chupada. Não falam boquete e nem em fazer uma espanhola porque isso, hoje, ficou démodé.
São imperativos, com carinho, mas querem!! Só não sabem se dar.
Se dizem ótimos na cama — são aqueles que fazem do tudo, muito pouco — os amantes perfeitos. Só não entenderam ainda, esses quase-encantadores, que a vida não sabe, não pede e não explica.
Jeito príncipe de ser, o garanhão novo-antigo, é cão que ladra e não fode.
Por isso hoje acordei pensando no quanto gosto de lobos, raposas, sapos, estes bichos estranhos em geral.
Sapo não gosta somente de jazz ou blues. Alguns são roqueiros, curtem uma guitarra bem tocada. Outros cantam deixa a cidade formosa morena como se Sinatras fossem. Sapo que é sapo saboreia feliz um transbordante xis-salada acompanhado da amada, sorrindo da maionese que escorrega queixo abaixo, das batatinhas que vão ao chão e dos dedos lambuzados.
Gostam do estar e bem pouco do aparecer.
Não têm eu gosto assim ou eu gosto assado. Preferem, esses sapos jeitosos, saber de beijos, carinhos e amores com fim.
Sapos não têm pau grande ou grosso. Não dizem, e no falo, — procedem.
Não prometem nem cobram, poetam simplesmente.
Fazem chorar, fazem sofrer e de quebra, realizam vontades e amam.
Não precisam de turbinadas, loiras ou altas, recondicionas, magras ou inovadas.
Querem somente a mulher amada.
Mesmo que seja para o amor de um dia só.
Descobriram, e também por isso gosto muito deles, que quem muito agrada, mais recebe.
Escrevem cartas modernas, se declaram e ainda se dizem... morridos de saudades. Gostam de fazer tudo, até ouvir, cantar e transar.
Têm tempo, têm barriga, não escondem rugas ou cansaço mas sempre oferecem um abraço de espera. E um sorriso de promessa.
Esses sapos sem idade sabem que nós, as quarentonas - novas balzaquianas - são as mulheres completamente amadas.
Porque na verdade... essas mulheres, essas amorosas mulheres são as criadoras... do jeito sapo de ser.
Maria Odila