domingo, maio 29, 2005

Jeito sapo de ser.

Um jeito sapo de ser


Decididamente hoje entendi — sou apaixonada por sapos encantados. Às vezes avestruzes, outras leões, muitas vezes ratos, mas burros encantados?
Jamais!
Prezo muito a inteligência. A minha e a que está a cotê de chez moi.
Esse jeito sapo de ser faz dos príncipes sujeitos ultrapassados.
Cacetes eu diria.
Príncipes são aqueles que realizam de tudo um pouco, ótimos amantes, acompanhantes perfeitos.Usam ternos, com pregas ou barras italiana e quando esportivos, mocassim. Perfumes da moda, restaurantes das revistas. Vão dos quarenta aos cinqüenta e jamais envelhecem. Gostam de vinho, whisky e algumas vezes cerveja. Melhores safras, rótulos escuros e, óbvio, a cerva da temporada.
Esse o modo dos príncipes.
Fazem a mulher ser “fêmea” e na cama querem a puta — só na cama, dizem — e esquecem, pobres putas, que essas recebem pra gozar e não conhecem o gozo recebido.
Carinho, para os encantados príncipes da vida, é uma boa chupada. Não falam boquete e nem em fazer uma espanhola porque isso, hoje, ficou démodé.
São imperativos, com carinho, mas querem!! Só não sabem se dar.
Se dizem ótimos na cama — são aqueles que fazem do tudo, muito pouco — os amantes perfeitos. Só não entenderam ainda, esses quase-encantadores, que a vida não sabe, não pede e não explica.
Jeito príncipe de ser, o garanhão novo-antigo, é cão que ladra e não fode.
Por isso hoje acordei pensando no quanto gosto de lobos, raposas, sapos, estes bichos estranhos em geral.
Sapo não gosta somente de jazz ou blues. Alguns são roqueiros, curtem uma guitarra bem tocada. Outros cantam deixa a cidade formosa morena como se Sinatras fossem. Sapo que é sapo saboreia feliz um transbordante xis-salada acompanhado da amada, sorrindo da maionese que escorrega queixo abaixo, das batatinhas que vão ao chão e dos dedos lambuzados.
Gostam do estar e bem pouco do aparecer.
Não têm eu gosto assim ou eu gosto assado. Preferem, esses sapos jeitosos, saber de beijos, carinhos e amores com fim.
Sapos não têm pau grande ou grosso. Não dizem, e no falo, — procedem.
Não prometem nem cobram, poetam simplesmente.
Fazem chorar, fazem sofrer e de quebra, realizam vontades e amam.
Não precisam de turbinadas, loiras ou altas, recondicionas, magras ou inovadas.
Querem somente a mulher amada.
Mesmo que seja para o amor de um dia só.
Descobriram, e também por isso gosto muito deles, que quem muito agrada, mais recebe.
Escrevem cartas modernas, se declaram e ainda se dizem... morridos de saudades. Gostam de fazer tudo, até ouvir, cantar e transar.
Têm tempo, têm barriga, não escondem rugas ou cansaço mas sempre oferecem um abraço de espera. E um sorriso de promessa.
Esses sapos sem idade sabem que nós, as quarentonas - novas balzaquianas - são as mulheres completamente amadas.
Porque na verdade... essas mulheres, essas amorosas mulheres são as criadoras... do jeito sapo de ser.

Maria Odila

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sexta-feira, maio 20, 2005

Algumas vezes.

Às vezes encrenco, outras emburro. Mas em todas às vezes, pego a tela, separo novas linhas e começo mais um bordado.
Nunca trago bordados lá para fora.
Se vai ficar pronto, se ficará bom, se o avesso será perfeito são razões sobre as quais jamais divago.
Tenho por obrigação, única, o bordado.
Outros os tempos e sentaria na porta do quintal para pensar, tomando sorvete direto do pote. Cheguei a gostar destas subversões não muito graves.
Sento, sim... sentava. Sentava encostada no batente esquerdo, para deixar a porta sempre aberta e com as pernas esticadas, segurar o outro lado. E assim, do jardim, perceber só as laterais.
Jardim pouco cuidado, vezes desfeito em tantas mudas, outras, infestado de pragas.
Nos finais de tarde, quase acolhedor. No começo da noite, aterrador.
O sol amanhece como morte para a grama já esturricadamente estéril. Deixei de cuidar desde... desde que resolvi não cuidar mais do jardim.
Entretanto gosto de ver que nem meu desgostar devastou esses poucos verdes.
Aqui venho maquiar meu tédio. Disfarço-o de jardim. Um estranho jardim plantado em cirílico para que eu jamais possa lê-lo. Guardo as tardes para decidir. O sol vai, o sol vem e nunca chego a nada.
Penso nas razões adequadas. Penso.
Penso que gostaria de ser Anna K. forte, mas quem sabe entregue a poucos desmaios. Lembro do conde, do trem da história, mas fiquei com a imagem, docemente juvenil, que desmaios devem resolver quase tudo
Acontece que se desmaiar aqui, aqui ficarei desmaiada até acordar, sozinha
Pedi dias para decidir. E decidir, não sei se ainda sei.
Passei noites bordando. A dama de azul, a moça da saia vermelha, o céu desbotado e as terras claras. As linhas sobraram. Alcancei meu aquário de linhas e coloquei as novas sobras. E só assim percebi que meu vidro, no batente de todas as cozinhas que sou, reúne cores que o sol traz e leva.
Segurei firme meu arco íris envidraçado, entrei e decidi.
Amanhã começo a te amar.


Maria Odila

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sexta-feira, maio 13, 2005

Coisas III

Ventoinha nos cabelos, hidráulica solta nas mãos, luzes e pés que rápido fazem música nos pedais.
Guiar é sair, assar tomates, plantar laranjas e rosas, cavalgar jumentos azuis.
Guiar na noite era sonho, meu consumo, minha porta, folha de letras escritas no ronronar do motor.
Algumas habilidades não somem.
Tenho certeza — ainda engato a quarta no taco... a velocidade, olhos ardidos, secados, ressequidos de janela. Corda de vento, enlaça e leva.
Pior é pilotar pela casa, comendo pêra sumarenta de lembranças que de tal modo e maneira me esqueço das crias. Delas me desatrelo.
Silencio, estrondos, sons de quem guia.
Sangria de quem lembra, cambio atemporal.
Pior, pior...
Não, não mesmo! Criar não é guiar e guiar, bem... guiar não era assim importante.
São minhas essas crias, ciscadoras de terreiro, sustento, meus seres.
Pena carro não pular carniça, pena tristeza não saber inventar, desperdício de letras: até agora as mesmas.
Há os que seguem, viajam.
Não fui passageira...
Restaram domingo, terças, os dias quase todos.
E ela... ainda bem que ela não era eu.

Maria Odila

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segunda-feira, maio 09, 2005

Domingo de Mãe.

Um domingo, como sempre será, um domingo dedicado às mães.
Sou mãe de filhos, avó de cães e bonecas, tia-mãe da gata e eventuais novas criações das filhas pequenas.
E porque mãe pode quase tudo, pedi a elas, neste dia, um dia de silêncio. Não sem antes desmarcar o almoço familiar porque hoje me apetecia ficar de pijama, janelas fechadas e cama desarrumada. Por conta de decisão preguiçosa, entupi a casa de arroz doce e litros de coca cola, minha parte nos acepipes de mana na casa do irmão.
Eu queria descansar, elas queriam farra! Enzonaram minha cama enquanto eu tentava dormir.
Quando a tentativa se revelou realmente infrutífera, resolvi aderir. Desliguei o telefone ainda pensando no que faria com o presente que mandei fazer especialmente para minha mãe... um coração que não sei se dava agora ou esperava os quase 70 que serão en dezembro, mas como era domingo e domingo não pede decisões. Coloquei o pacote na gaveta e tentei novamente deitar.
Café na cama da mamãe é bagunça pra três dias e lençol pleno de migalhas de pão, que reclamo direto. Outro motivo para elas ficarem estapeando o colchão como se fossem limpar alguma coisa. A migalha subia e descia e nada mais.
Limpeza mesmo era trocar o lençol, e elas assim fizeram.
O debaixo verde, o de cima rosa e as fronhas, uma de cada jeito, estampavam outras flores. Não era carnaval mas minha estação, quase mangueira, se mostrava verde e rosa. Para elas, como canta a música, eu estava de flor, rainha das rosas. Que recebi, todas desenhadas e nenhuma cor-de-rosa.
Tomei leite quatro vezes. Minto. Primeiro foi o meu café, que me abre os olhos e o dia, o segundo foi o leite como foram também o terceiro e o quarto. Leite com toddy, leite com farinha láctea e leite com aveia. O gosto de cada uma delas feito especialmente para mim. Dia de mães? Mãe tem que tomar todas. E tomei os leites e ganhei xícaras novas. Uma de cada.
Depois me deram livros. Sobre balé, joaninhas e crocodilos, crimes e mistérios juvenis e alguns clássicos de vestibular. Para não ser injusta, ganhei novelos de lã. Bem da cor das pelerines que elas pediram para fazer.
Assim um dia silencioso ao jeito delas.
Porque mãe deve ser mimada... colocaram para mim Vacas tussindo, Monstros, Poderosos tubarões e é claro, porque era meu dia, Nemo, Nemo e mais Nemo. Continuaram com filmes de dar-certo. Sob o sol da Toscana, Chocolate e Nottig Hill. Pedi Il Gato Pardo. Um Alan Delon sempre cai bem para mães que passaram dos quarenta.
Pois as filhas preferiram Perfume de mulher. Só o tango. My Fair Lady, só as corridas e a valsa. Filme inteiro nem pensar.
Cozinharam cachorro quente. Com direito a batata frita de pacote.
E um monte de sorvete, todos os sabores que elas gostam.
No final do dia vieram as surpresas. Os contos americanos, o terceiro dos contos de Hemingway, outro volume de bordados em patchwork e alguns pockets de mistério. Algumas músicas e alguns DVDs.
Dormimos cedo.
Às vezes domingos são domingos e assim se fazem dias de mães, dias de filhas, dias cotidianos. Não soubemos da vida lá fora, não saímos da penumbra. Comecei os tricôs coloridos, fiz pilha dos livros, os que eram meus, na cadeira e levantei fazer canja, a preferida delas.
Nem só mimo, nem só filhas. Silencio? Quase perfeito. E a cama, desarrumada o dia todo, na madrugada foi recebendo, uma a uma, as filhas que amanheceram, como de praxe, amontoadas e empurrando pernas e braços umas das outras.
Um domingo bem de mãe.
Maria Odila

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sexta-feira, maio 06, 2005

Quando meu filho não se formar.


Quando meu filho não se formar, tal qual todas as mães, pensarei nele pequeno. Gordinho, bochechas vermelhas e a pele branquinha de seu primeiro inverno. O vento frio o fazia sorrir. Este o filho que sempre lembrarei.
Quando meu filho não se formar contarei que foi arteiro, menino impossível! Que a avó até pensou em re-batizar -i ver assim este guri se emenda, dizia. E ela, impaciente, com o primeiro neto, seu outro homem.
Quando meu filho não se formar estarei cansada, catando no chão a roupa que ele, toda vida, guardou amassada em cantos de seu quarto e da casa. Fazendo pares das grossas meias coloridas e tentando entender como tantas meias da mesma cor nunca se encontram emparelhadas nos pés do menino.
Quando meu filho não se formar... não, não me lembrarei de nada disso.
Esse menino, que era tão precioso, perdeu-se, nas malhas da criação. Não, não morreu, foi somente mau-criado pelo pai, desleixadamente criado pela mãe e abusadamente alimentado pelos avós.
Nunca nos preocupamos em educar. Menos ainda com sua psique.
Por isso, não estranharei quando meu filho não se formar. Nunca criou-se, como saberá ter dentro de si outros eus tão necessários para sermos um só?


Maria Odila

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domingo, maio 01, 2005

Para passar o tempo.

Para passar o tempo


Conta a lenda que ela queria ser Sherazade e para isso treinava contando números matemáticos, pontos de bordado e letras em poemas.
Reza a mesma lenda que ele, o Sultão, casava todos os dias. Mas já estava cansado de ter tantas novas esposas, todas tão iguais.
Um dia o Sultão cansou-se de acordar cedo, de escolher esposas que durassem um só dia e de ver as execuções e resolveu parar de casar, mas esqueceu-se de retirar a lei das execuções conjugais.
E a família de Sherazade cansou de suas histórias e a mandou como presente no aniversário do Sultão.
Ela chegou como Cleópatra, enrolada no tapete. Mas como ele não era nem César nem Marco Antonio, não deu a mínima e mandou o tapete enrolado para a sala de presentes. Sherazade saiu meio atordoada, meio lanhada, porque àquela época os servidores não eram mais tão prestativos e cuidadosos e jogaram o tapete enrolado na sala cheia de cacarecos.
Injuriada berrou a não mais poder e ficou sem voz, como sempre acontece com todos que se excedem oralmente.
O Sultão, que teve outra festa, foi caçar um destes presentes que a gente ganha-mas-não-gosta e quer passar pra frente, tendo o cuidado de não presentear quem nos havia presenteado com o mesmo regalo oferecido e agora devolvido.
Encontrou Sherazade espirrando sem parar porque os tiradores de pó estavam em greve e aquela sala já tinha dado tudo o que podia como exemplar sala de presentes reais.
O Sultão gostou de Sherazade assim de cara mas também não podia casar direto porque as esposas ainda eram sacrificadas. Entre espirros ela resolveu lhe contar que gostava de contar, até histórias.
E o Sultão sacou que era uma boa isso dela contar.
Primeiro lhe deu a sala de presentes e ela contou tudinho. Depois mandou-a para a cozinha, para o setor de armazenamento e em seguida, os estábulos, as salas de troféus, contar quartos até que Sherazade chegou ao seu quarto com todas as contas.
E contou, contou tanto que o Sultão que andava com insônia desde a ultima esposa, dormiu. E se esqueceu de mandar matar Sherazade.
No dia seguinte acordaram na mesma cama e aconteceu aquela coisa de homem e mulher, e o mais não digo.
E o Sultão que tinha achado Sherazade tão diferente das outras... ela sabia fazer aquela coisinha... resolveu lhe dar mais um dia.
Para todos os efeitos dizia que Sherazade contava, mas o que gostava era dos acordamentos e das coisinhas.
E quase foram felizes para sempre... até o filho deles crescer e pedir moto, computador e lancha, coisas de filho rico de sultão falido. E Sultão, cansado, mandou Sherazade, que nem contava mais e nem fazia aquelas coisinhas, andar.
Moral da história, nem o Sultão nem Sherazade foram feitos para casar.
Só serviam para contar... e para aquelas coisinhas.


Maria Odila

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