Algumas vezes.
Às vezes encrenco, outras emburro. Mas em todas às vezes, pego a tela, separo novas linhas e começo mais um bordado.
Nunca trago bordados lá para fora.
Se vai ficar pronto, se ficará bom, se o avesso será perfeito são razões sobre as quais jamais divago.
Tenho por obrigação, única, o bordado.
Outros os tempos e sentaria na porta do quintal para pensar, tomando sorvete direto do pote. Cheguei a gostar destas subversões não muito graves.
Sento, sim... sentava. Sentava encostada no batente esquerdo, para deixar a porta sempre aberta e com as pernas esticadas, segurar o outro lado. E assim, do jardim, perceber só as laterais.
Jardim pouco cuidado, vezes desfeito em tantas mudas, outras, infestado de pragas.
Nos finais de tarde, quase acolhedor. No começo da noite, aterrador.
O sol amanhece como morte para a grama já esturricadamente estéril. Deixei de cuidar desde... desde que resolvi não cuidar mais do jardim.
Entretanto gosto de ver que nem meu desgostar devastou esses poucos verdes.
Aqui venho maquiar meu tédio. Disfarço-o de jardim. Um estranho jardim plantado em cirílico para que eu jamais possa lê-lo. Guardo as tardes para decidir. O sol vai, o sol vem e nunca chego a nada.
Penso nas razões adequadas. Penso.
Penso que gostaria de ser Anna K. forte, mas quem sabe entregue a poucos desmaios. Lembro do conde, do trem da história, mas fiquei com a imagem, docemente juvenil, que desmaios devem resolver quase tudo
Acontece que se desmaiar aqui, aqui ficarei desmaiada até acordar, sozinha
Pedi dias para decidir. E decidir, não sei se ainda sei.
Passei noites bordando. A dama de azul, a moça da saia vermelha, o céu desbotado e as terras claras. As linhas sobraram. Alcancei meu aquário de linhas e coloquei as novas sobras. E só assim percebi que meu vidro, no batente de todas as cozinhas que sou, reúne cores que o sol traz e leva.
Segurei firme meu arco íris envidraçado, entrei e decidi.
Amanhã começo a te amar.
Maria Odila
4 Comments:
Amanhã é o teu hoje feliz!
Os dias para decidir permitiram que te encontrasses.
O teu arco-íris é a luz que te traz da escuridão.
O teu jardim vai ficar de novo bem cuidado, macio como o cheiro que exala.
Querida Maria
Amanhã talvez... será que a incerteza de hoje pode ser a certeza de amanhã? talvez...
Um beijo
Daniel
Gostei. De verdade
beijos
Ilidio
Do domínio do genial a tua escrita, a cada dia mais apurada e bela.
Um beijinho, Maria
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