domingo, maio 01, 2005

Para passar o tempo.

Para passar o tempo


Conta a lenda que ela queria ser Sherazade e para isso treinava contando números matemáticos, pontos de bordado e letras em poemas.
Reza a mesma lenda que ele, o Sultão, casava todos os dias. Mas já estava cansado de ter tantas novas esposas, todas tão iguais.
Um dia o Sultão cansou-se de acordar cedo, de escolher esposas que durassem um só dia e de ver as execuções e resolveu parar de casar, mas esqueceu-se de retirar a lei das execuções conjugais.
E a família de Sherazade cansou de suas histórias e a mandou como presente no aniversário do Sultão.
Ela chegou como Cleópatra, enrolada no tapete. Mas como ele não era nem César nem Marco Antonio, não deu a mínima e mandou o tapete enrolado para a sala de presentes. Sherazade saiu meio atordoada, meio lanhada, porque àquela época os servidores não eram mais tão prestativos e cuidadosos e jogaram o tapete enrolado na sala cheia de cacarecos.
Injuriada berrou a não mais poder e ficou sem voz, como sempre acontece com todos que se excedem oralmente.
O Sultão, que teve outra festa, foi caçar um destes presentes que a gente ganha-mas-não-gosta e quer passar pra frente, tendo o cuidado de não presentear quem nos havia presenteado com o mesmo regalo oferecido e agora devolvido.
Encontrou Sherazade espirrando sem parar porque os tiradores de pó estavam em greve e aquela sala já tinha dado tudo o que podia como exemplar sala de presentes reais.
O Sultão gostou de Sherazade assim de cara mas também não podia casar direto porque as esposas ainda eram sacrificadas. Entre espirros ela resolveu lhe contar que gostava de contar, até histórias.
E o Sultão sacou que era uma boa isso dela contar.
Primeiro lhe deu a sala de presentes e ela contou tudinho. Depois mandou-a para a cozinha, para o setor de armazenamento e em seguida, os estábulos, as salas de troféus, contar quartos até que Sherazade chegou ao seu quarto com todas as contas.
E contou, contou tanto que o Sultão que andava com insônia desde a ultima esposa, dormiu. E se esqueceu de mandar matar Sherazade.
No dia seguinte acordaram na mesma cama e aconteceu aquela coisa de homem e mulher, e o mais não digo.
E o Sultão que tinha achado Sherazade tão diferente das outras... ela sabia fazer aquela coisinha... resolveu lhe dar mais um dia.
Para todos os efeitos dizia que Sherazade contava, mas o que gostava era dos acordamentos e das coisinhas.
E quase foram felizes para sempre... até o filho deles crescer e pedir moto, computador e lancha, coisas de filho rico de sultão falido. E Sultão, cansado, mandou Sherazade, que nem contava mais e nem fazia aquelas coisinhas, andar.
Moral da história, nem o Sultão nem Sherazade foram feitos para casar.
Só serviam para contar... e para aquelas coisinhas.


Maria Odila

5 Comments:

Blogger Manoel Carlos said...

1001 desinventos?
Você consegue ser engraçada de forma muito peculiar.

11:07 PM  
Anonymous Anônimo said...

Gostei muito Maria... E Manoel tem razão... é engraçado de forma bem peculiar... Abraço,

5:56 AM  
Anonymous Anônimo said...

Passando para um oizinho... E pra ficar um tempão te lendo. Bom isso, né? Beijos...

5:15 PM  
Anonymous Anônimo said...

hahahaha.. muito legal essa versão tempos modernos das mil e uma noites. ando sumido de todo, por isso não tenho aparecido. beijo

2:06 PM  
Anonymous Anônimo said...

Uma forma nova de contar as 1001 contas da noite... E atual, pois não? Sultão falido é mais do que uma realidade em tempos d´agora... Um abraço fraterno, digressiva Maria! Paz e bem sempre.

2:28 PM  

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