terça-feira, junho 21, 2005

Assim, tempo.

Caminho.
Quase todos os dias conto calçadas, casas e jardins. Mania antiga essa de contar coisas. Não saio nem com hora certa, nem com caminho marcado, mas ando para esquecer, para lembrar e guardar.
E nas andanças encontrei rubro sol vespertino numa praça largada pelo mato e esquecida das flores, silente.
Vou lá levar meu tricô passear. Às vezes o crochê também. Também os cães me acompanham. Gostam, bem sei.
Estes têm sido dias, sim, dias. Melancólicos, mesmo que eu não os soubesse assim.
Meus olhos não viram, os sentidos sim.
Hoje pela praça passou um antigo encantamento. Não tenho outras palavras. Este homem aconteceu. Sorri para o que vi. Troquei pontos da agulha, contente pelos poros, coração latejando em todos os bancos do jardim. Aqueci o momento, alegrei.
A lembrança me procurava. E ele... ele... ele passou. Olhou para trás como quem deixa tudo pesado e continuou andando. Não lembrou-se de mim, não me via mais. Ficamos eu e as agulhas olhando seu vácuo. Elas caídas, eu em tralhas, enredada em teias antigas, abstratas.
Entre quatro meias e cinco tricôs teci aquela malha de tempo.
E o presente vazou, voltou e os antigos amores ficaram antigos, somente.
Cruzei as agulhas e restei-me silenciosa.
Respirei meu silêncioso porvir.
Nada a explicar, nada. Nada a entender. Nada somente, nada
E voltei. Voltamos. Agulhas, cachorros e eu à procura da antiga apaixonada, que ainda sorria ao vulto passeante, no banco da praça.

Maria Odila

11 Comments:

Blogger Blue Woman said...

Acho q já passei por aqui, não me lembro quando. Mas gostei demais daqui e agora não vou perder mais esse endereço. Posso te linkar no meu blog?

um beijo

1:44 PM  
Blogger Manoel Carlos said...

O passado é bom como lembrança, como carga de aprendizado, como referência para a construção do futuro, no presente.
Respondendo ao seu comentário: o nome do doce está no texto, ameixinha de queijo, típico de Uberlândia.

8:35 AM  
Blogger Ilidio Soares said...

Adoro snapshots, Odila. Adoro! Esse, então, é pra se guardar bem guardadinho. Em álbum.
beijos
Ilidio

10:26 AM  
Anonymous Anônimo said...

A lembrança me procurava - bem o meio do texto, o nó de onde parte tudo mais. Muito lindo, Maria. Beijo. Adelaide

11:59 AM  
Blogger Blue Woman said...

hahhaa Eu quis dizer q "continua outro dia...." eu escrevi isso hj pela manhã, mas tive q parar e não consegui continuar. postei pela metade mesmo, mas logo, logo, continuo a história que eu nem sei como vai terminar..srrrsr

Beijo!

ps: já tá linkada!
;)

1:47 PM  
Blogger Peter said...

Aqui há uns anitos houve um mal-entendido. Se não te importas volto a incluir-te nos links.

2:39 PM  
Blogger Blue Woman said...

Querida, terminei a história no mesmo post q vc leu hj. Volte lá qdo puder para ver o final e me diga o q achou, ok?

Beijo!

3:13 PM  
Blogger Amaral said...

"Aqueci o momento", com agulhas, cachorros, no banco da praça… Muito bom de se ler…

6:42 PM  
Blogger hfm said...

Obrigada pela visita.
Gostei deste blog - voltarei seguramente.

5:20 AM  
Blogger C. said...

Maria, tenho passado algum tempo aqui entre as suas palavras. Preciso dizer que adoro o que vc escreve e que admiro muitíssimo esse seu dom. Obrigada por leitura tão agradável em minhas horas pedantes de labuta.

um beijo grande!

11:38 AM  
Blogger Manoel Carlos said...

Em busca de atualização, deixo o abraço agrestino.

8:35 AM  

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