segunda-feira, agosto 29, 2005


Meu querido

Hoje é quinta, dia de acordar mais cedo, dia da feira aqui na rua. Desde a madrugada os sons chegam, corriqueiros, algo indistintos. Os ônibus sobem a rua ao lado e eu a tudo ouço com preguiça de sair da cama.
Embaixo da nossa janela gritam os preços da banana e da batata.
— Porque banana e batata ficam lado a lado? Você perguntava, eu ria.
— Coisas da feira meu bem.
Acreditar você não acreditava, mas fazia sins com a cabeça e interrogações nas mãos.
— Cidade enervante, irritante, resmungava. Feira no meio do transito, ruas paradas e frutas com batatas...
Mesmo que não queira o despertador me chama pela segunda vez. Levantar neste frio... bem que poderia deixar de trabalhar em dias gelados. Infelizmente não encontrei até hoje chefe que pense assim, então levanto e mais cedo, porque é dia de feira.
Desci correndo.
As laranjas estão secas, as verduras murchas, por isso trouxe papaias e abacaxi, maçãs, pepino e aipo. Queijo não, porque ainda temos alguns e bolachas deixei para comprar no chinês ali da esquina. Não se esqueça que já desidratei a hortelã para teu suco. Estão na caixinha azul, terceira prateleira do frezzer. Os morangos estão lavados, e as batatas cozidas com a mandioquinha, ainda em cima do fogão.
Adoro sopas nas quintas.
Lúcio manda avisar que seu pastel de banana veio a meio termo hoje. O vidro caiu na perua que agora está perfumada à canela mas os pastéis, hoje, só açúcar.
Ovos vermelhos, grandes, nenhum. Alias acho que precisamos viajar para Minas, trazer doces e ovos de duas gemas. Como será que sabem que as galinhas duplicam as gemas nesse ou naquele ovo? Para mim isso sim que é enervante... loteria de ovos e gemas.
Mamãe fez seu bolo de fubá. Mandou uvas também. Já as meninas arrumaram a mesa e a sala. Não estranhe o excesso de flores... são todas para você.
Sua mãe e seu pai chegaram, cansados e mandaram lembranças. Marquei almoço com ele no clube. Espero que goste.
Quando acordar, me ligue. Prepare seu café que sai um pouco corrida.
Ah sim, eu que calcei suas meias, seus pés estavam gelados, gelados.
Boa quinta, meu bem querido. O pão deve estar quase pronto quando acordar. Deixei no forno fraco, só para ele acabar de subir e dourar. Desligue antes que eu novamente queime a casa.
Beijos
Maria Odila

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terça-feira, agosto 23, 2005

Constatações

Ficar viúva tem complicações, claro, regalias é que eu não sei.
Sinto falta, enorme falta de ter alguém com quem conversar. Tenho as filhas, mas são crianças que mesmo crescendo, continuarão filhas... e crianças. Coisa de mãe, penso, que tem nos filhos sempre seu contingente mais novo, qualquer seja a idade deles.
Espero que elas cresçam e cresçam bem, mas esta espera não tira o meu despovoamento das palavras.
Espero muitas coisas, mas enquanto espero, fico assim quieta, sem um alguém que me conte seu dia, sem dar meus contos para outro que não seja eu.
Então vou me fechando, até nas letras, até ficar sem sentindo. E fico mais e mais sozinha. Recolhida como diz um amigo
Não que me recolha, pelo menos eu não acho. Mas aquieto-me bordando, relendo o que gosto e vendo romantismo na tela. Só essa semana revi Hamlet seis vezes e em múltiplas versões.
Sim, sim, alguns açucarados quebram Shakespeare vez em quando.
Melhor criar novos campos de conhecimento, retruca novamente esse amigo. É, seria melhor... melhor se pelo menos eu soubesse o que procuro.
A vida é indistinta.
Solidão não vende livro nem dá prestígio, mas dói pra cacete. Já falar abobrinhas cansa mas parece ter algum retorno.
Não que eu esteja pensando em fazer ou vender livros... estava só pensando como é difícil não ter com quem falar.
Diz o mesmo amigo que isso é solidão. Não acho. É não ter com quem falar, oras!!
Mas meu amigo é teimoso e reitera – SOLIDÃO.
É porque ele tem com quem conversar. Mas já se sentiu muito só mesmo tendo e amando esse alguém.
E na verdade nem deveria falar nada... as pessoas não querem saber da sua solidão, diz aquele amigo.
A solidão é perversa e não perdoa a ilusão de se estar acompanhado. Das coisas que fala Paulo, esse meu precioso amigo.
Não há solidariedade entre solitários, outro de seus ditos.
Continuo dizendo... é complicado conviver, viver então...

Maria Odila

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quarta-feira, agosto 17, 2005

Passeios Italianos

I

Firenze.
Águas turvas, quase fétidas, que extraem memórias como gôndolas em tênues e curvos caminhos. Novamente alvenarias, nuas de braços que há muito esperam. Outra vez, outra vez... mudar... outra vez descontinuar.
Indagar, hesitar respostas. Diga-me o que quero que não te ouvirei jamais.
Acusa-me o peito, mãos esgarçam o decote, ansiosas. As pernas que descruzam, incomodadas.
Ontem houve inverno. Hoje, não.
Você saiu e eu ouvi.
Hamlets circundam, famílias que hei de não ter.
Heranças italianas.
Herdar... e deixar de ser a mesma.

Maria Odila

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domingo, agosto 07, 2005

Lendo Mario Benedetti

Não gosto da eternidade, do comprometimento do sempre, do nunca raivosamente escutado, do adeus eternamente dito. Pesam mais as palavras, o sentido a elas atribuído? Não sei, não gosto nem de ouvi-las.
Talvez suporte algumas mudanças; talvez a escrita, talvez o tempo que circunda e a arenga que o devolve.
Mesmo nas coisas, de igual modo com os sentidos.
Crio como meus os lugares, como incontínuas as águas. Acorrento os encadeados sentimentos, fluentes as dúvidas.
Pensamentos submetidos e vinculados.
Para fluí-los é mister fazer poços, na água e nos céus; furos no véu e nos ventos e escavovar redores, muitos redores. Cair livra-me dos aprisionamentos.
Havia um tempo, havia... habitavam em mim eu e meus sentimentos.
E então a vida.
Não sei ler, não tenho compromissos, vazo continuamente as posses.
Estou carente, carente de livros, carente de ser lida, carente de tentar, carente de ser Maria.
Vejo, leio Mario Benedetti... abro o livro e aprendo... as atas do rancor.

Maria Odila

As atas do rancor
Do livro "Perguntas ao acaso"
Tradução de Julio Luís Gehlen

Pouco a pouco o rancor vai me invadindo
animaliza minha anima lisa
me empresta garras iras maldições
me sobressalta a paciência boba
dá brilho ao ódio como para abutres
me põe em áscuas e ascos

abro o livro e aprendo
a história do rancor seus pormenores
seus desenvolvimentos e suas pautas
seus herdados instrumentos

Mario Benedetti

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segunda-feira, agosto 01, 2005

O dia que nunca...

A lua, que em Minas nunca é azul, aturde o céu, difusa.
Dizem que a lua não tem luz própria. Que engano... não sabem que a lua carrega destinos?! Leva-os, não porque queira, mas por incumbência do vento que os abriga, cioso, ora atrás das nuvens, ora trás-os-montes.
Convém a esta hora partilhar sortilégios, desalembrar de onde se partem os encontros, enumerar os silencios bissextos .
Restritivo, o dia em Minas lentamente se aquece de pretextos e passos. Olvida, sometimes.
O véu que aperta a noite, por lá carrega, cansado, minérios, mineiros, cismas e montanhas. Espreguiça em Minas seu lavor depois de escurecer o sol e esclarecer a lua.
Indistinto o dia passa, como passam pelas estradas muares, enxaquecas, sabendo que ao norte, o cristo, sempre ele.
Minas é de Gerais idiossincrasias, subterrâneos misteriosos, rios cercados em águas.
Lá estava, lá fiquei, sentei, li e reli, perdida nos dias.
Fosse o que fosse, meu ar é um Pessoa, Fernando ou Alberto. Diria José, até assim, Ricardo. Como toda saudade é um cais de pedra onde os encontros não se fazem.
Nada acontece em Minas. Nada se deixa acontecer... nas minas.

Maria Odila

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