quinta-feira, setembro 29, 2005

La Noche Caliente

Nada de diferente neste convite... estava na Argentina representando o Brasil e fui informada que precisaria ir a uma festa Beneficente. Festas? A d o r o então concordei.
Estava sem meu tradutor mas portunhol... quem não entende? Convite tradicional, formal. Sondei o motorista e ele me disse
- La bruja, ah la bruja...
Claro, bruxa, finados, era um haloween, logo uma festa à fantasia. Fui me certificar relendo a invitaticion
El Gobierno... tarátátá... la Casa Rosada...(como se eu não soubesse o que é a casa rosada).. invitamos la señora Odila Goulart.. tátátá... La noche caliente...nem continuei a ler
Convite padrão. Prova do meu bom portunhol é que ontem tinha saído com Juan: ele conversando em frânces e espanhol e eu em português e quase italiano. Nos saímos muito bem. Quase entendi o que ele falava a maior parte das palavras troquei... mas isso é de somenos importância. Tinha certeza que me sairia bem na festa, mesmo estando sozinha.
A festa, no dia de finados ...e dos mortos também, como dizia minha avó italiana, era hoje.
E eu, atrasada cheguei na camareira e perguntei onde poderia alugar uma roupa de festa. Ou comprar uma hacienda - como vocês não sabem ensino, hacienda é fazenda em espanhol - porque se não encontrasse a fantasia eu mesma costuraria uma.
- Una fiesta? Hacienda?
- Ahãã??! Não! uma festa... hoje...Na casa... longe. É uma missão que recebi.
- Las Missiones? Hacienda? Su novio? Ah, su padre, su madre mira que barbaro
- Que missa que nada. Sem madre. Sem padre sem novo.
- Su padre? Novio? Bodas?
- Ô meu Deus do céu. Guria vê se me entende... Una fiesta, hoje, na casa da mulher aquela lá... rosada
- La Bruja?
- Isso, isso, onde posso alugar roupa?
- Mira que bárbaro. Hoy?
Falando comigo há tanto tempo e só agora lembrou de dar um oi? Por isso que a Argentina não vai pra frente, povo mais distraído.
HO-JE TE-NHO UMA FES-TA NA...
- Entiendo, entiendo. Na Recoleta ... su ropa..
- Tendi. E lá alugo?
- Alquilo?
- Kilo? Ai meu caramba FES-TA... A-LU-GUEL... entiendes? Como estava quase berrando com a moça achei melhor ir até o Boulevard. Pateo como falam... Shopping Center, hum! nem isso eles conhecem.
Fui e voltei de táxi porque estava sem paciência para esperar o moço da embaixada chegar.
Alquilei una fantasia linda. Decidi que seria a mais bonita da festa que estaria cheia de fantasmas e caveiras.. seria a bruja sensual.
Corpete preto, e meia rendada, saia rodada, presa do lado esquerdo na cintura, mostrando bem as pernas, saltos altíssimos, decotadíssima. Uma capa preta de fazenda transaparente e para finalizar um enorme chapéu pontudo, com véu... acabei misturando as fantasias. Meio bruxa, meio fada, mas tudo em Negro.. Queria ser a melhor. The Best. Primeira e única. Afinal, representava o Brasil nesta reunião argentina.
Oito em ponto desci. Pontualmente atrasada já que a festa começava ás sete e minha idéia brilhante era chegar atrasada só para ver o frisson do pessoal daqui.
O motorista me olhou de rabo de olho... eu sabia que estava ótima.. ele resmungou quedaste loca?... não disse? estava estonteante... o motorista confirmava minha ótima idéia.
Cheguei na casa Rosada... todos me olhavando... Não pensei que estivesse assim maravilhosa. Mas os olhares masculinos, estranhos, confirmavam o meu bom gosto.
Entrei ... e entrei maus... era uma festa black-tie para los carentes e eu, uma tola, ao ler La Noche Caliente achei que fosse uma festa a fantasia e associei a bruja do motorista com a bruxa de bruxa. Como ía saber que era esse o apelido da Presidente Isabelita?!?
Porque não me avisaram? O motorista e a camareira?
Tive que permanecer a festa toda sendo “comida” pelos olhos daqueles gáuchos tarados... que ficavam me dizendo:
ó se le gusta hacier una tonteria..
uma bruja? hoy? Vienga...
pero se le gusta tomar un trago en mi habitación..


se pego aquela camareira... mato o motorista

Maria Odila

Ou comente aqui:

sexta-feira, setembro 23, 2005

Inventário de quarta

Cansada, às três da madrugada não consigo pensar em mais nada a não ser escalda-pé e massagem.
E dias, dias sem trabalhar. Com pés desdoloridos.
Mas bem antes falhei e dormi.
Dormi para acordar novamente em saltos altos.
Mas de hoje não passou.
Chá para os pés e de erva doce. Não sei bem se é do gosto deles mas para mim foi excepcional... até consegui andar sozinha pro banho...
E voltei pra cama quase arrastada. Incrível que pés doloridos signifiquem tanto.
Durante vinte anos, obedientemente, saltos nos pés, maquiagem e cabelos impecáveis. Um primorzinho de esposa para ser vista e pouco ouvida.
Mas aí veio a vida e estou viúva.
Também estou cuidando de outras como eu, quase 450.
E por isso os sapatos, os sapatos, a saia e os cabelos.
Creio que se chegar de tênis, jamais serei atendida no Tribunal. De calça nem pensar, não chego nem nas escadas.
E no entanto adoro esse meu trabalho, mesmo porque estou criando essa nova assessoria.
Mas não podia ser sem salto?
Seria mais crível... até para os amigos ouvirem minhas histórias.

Maria Odila

Ou comente aqui: