sábado, dezembro 31, 2005

2005

Depois de um certo dia o tempo cansa e o ano muda. Não necessariamente no primeiro dia do ano porque no primeiro de janeiro muda o ano datado. E no entremeio mudam os aniversários de vida, os de conhecimento, os de casa nova, os de morte até.
A cada final dizem que o ano foi mais corrido, adiantado. Impressão, impressão.
Este ano, ao soar a primeira badalada saibam: — ele chegará atrasado de um segundo... Coisa de astrônomos. Ou quem sabe a terra tenha se perdido no meio do caminho, quem sabe?
E assim desejo que no novo ano vocês invertam.
Tudo e a todos.
Troquem velhas idéias conhecidas por outras desconhecidas, anônimas, casuais e alheias.
Invertam as palavras, os sentidos, as sensações.
Desfaçam feitos, refaçam desfeitos.
Criem conceitos - o abstrato como concreto, a posse como perda e o real como etéreo.
Jamais pergunte, jamais explique, vá vivendo, siga sentindo.
Saudade é só de quem partiu. Dos outros leve nostalgia, enfrentamento e incompletude.
Maturidade, descarte. Responsabilidade, passe ao largo. Certezas? Mude, mude. Não, jamais apregoaria irresponsabilidades. É que a vida pede tanto que temos em demasia todos estes conceitos. Troque os antigos pelos recém-chegados, conceitos de nada como determinantes de tudo.
Leve a vida como conhecida de outrora, tal qual coisa lontana, como um quase que.
E no mais desejo a vocês as letras e os carinhos que tenho.
Insubmissa decido: não desejo nada a ninguém!?!
Construam seus votos e venham me contando até o último ano do dia do ano que vem.

Maria Odila

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quinta-feira, dezembro 01, 2005

Querido Papai Noel

Meu aniversário é em novembro, meio do mês. Comemoro há quase meio século sempre sabedora que depois dele, chega Natal.
Mas este ano, não sei... em outubro, panetones. Antes que mudasse meus anos, as ruas iluminadas, as árvores enfeitadas.
Mais que perdida, senti-me desarvorada.
Como Papai Noel saberá de mim se a hora ainda não é essa? Será que antes da época ele também lê as cartinhas? Ou será que preciso correr e fazer pedidos antes que perca o prazo?
Na dúvida, melhor pecar pelo excesso. Escrevo agora e escrevo em dezembro, novamente.
Querido Papai Noel.
Se o natal corre assim, sentir-me-ei mais velha mais rapidamente. E se os anos não cumprirem seu prazo de durar um ano, Papai Noel, como poderei decidir o que quero?
Rapidamente penso e escrevo, antes que o tempo seja senhor de mais senhores.
Desejo uma casa. Pequena não quero. Que vivam confortavelmente as meninas e eu, portanto 4 quartos se fazem necessários. Da sala, sentada, (quero sofá também que não tenho um há mais de 3 anos) quero ver o por do sol, essa novidade de todos os dias e á noite. Quero sonhar com a lua, namorada solitária, como eu. Quero saber que os carros andam, mas tão vagamente que sentirei os sons, não os verei. E que a casa seja ali pelos lados da rua Morás e apartamento, daqueles novos.
Depois da casa, queria pedir Papai Noel para que o senhor dê, vez em quando, uma espiada nos meninos. Andam tão perdidos da vida estes meus guris... Acho que é a falta do pai, mas como o pai está no céu com o senhor, pergunte que ele saberá como lhe ajudar, nos cuidados com nossos meninos.
Não sou de muito pedir. Como todos, adoraria quitar as dívidas que nem são tantas, mas aquelas corriqueiras. Devo atenção às meninas, devo mais trabalho às minhas outras moças, as que trabalham comigo. Devo cozinhar mais em casa, devo também ouvir mais a vida dura de Nice, a minha desordenada ordenadeira.
Devo ainda algum dinheiro para ter todas as partes do carro. A viagem que dividi em módicas muitas prestações e o aluguel que aumenta, aumenta...
Me deixe continuar recebendo o justo salário de todo trabalho que faço.
Gostaria ainda Papai Noel que o juiz do inventário acabasse com essa agonia. Segurar um morto por tanto tempo é no mínimo, cansativo.
E por quase fim, desejo Papai Noel não terminar sozinha os meus dias. Tenho as meninas, bem sei, mas elas farão suas vidas, seus amores. Tenho os meninos, mas estes há tempos estão em novas casas, fazendo suas outras famílias. Tenho pai e mãe e estes sabem... eu que saí fazer minha outra família.
O marido não tenho. Está bem aí, a seu lado, olhando as crias crescerem. Mas não será ele, Papai Noel quem me deixa assim sozinha? Vai ver continua ciumento, vai ver...
Não me dê namorado nem outro marido, mas conceda amigos sinceros, conversadores como eu, passeadores nas madrugadas e de tantas outras afinidades. E quando a solidão chegar, me dê o carinho das lembranças. Elas ainda me aquecem os olhos e molham as memórias
Mas se com tudo isso o senhor ainda achar que mereço me apaixonar, que seja logo Papai Noel que ando me sentindo tão sozinha...

Maria Odila

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