sexta-feira, maio 12, 2006

Outono

Outonos.
Camomila, cidreira, doces ervas em meu chá.
Correntes fazem a areia permear olhos que mal entreabrem. Vestido, qual bandeira, animava-se entre cabelos, pernas e braços. Os pés reclamam às pedras, são ásperas.
Os olhos pedem água apesar do céu que nem é escuro, nem está acinzentado.
Somente o vento que carrega a areia.
Não é uma tarde ensolarada. Com alguma dificuldade, iluminada.
Só.
Nas alamedas nem amoras, nem framboesas, arbustos aqui e ali. Nas folhas, verdes bichos da seda conversam com seus galhos, tecem seus segredos, criam novos pontos, tricotam outras frutas. Mais adiante as pedras estouram junto às ondas. Não é o mar, novamente a areia a criar imagens. E o vento assovia entre os dedos, entre os cachos, entre as pernas desnudas.
Corria protegendo os olhos com o braço.
A cada passo um segredo, era inevitável.
Correu até chegar e bater, com empenho, portas e janelas.
Fôlego curto deixou-se cair no chão da cozinha.
Chamou os cães. Nem som, nem sinal. Só o zunido das frestas.
Não era de assustar-se com facilidade, porém quase sentiu a nuca arrepiar.
Na cesta amarela encontrou pêras, morangos e folhas de hortelã.
Ainda no chão sacudiu a areia dos cabelos, mastigou duas folhas de hortelã.
Vagarosamente subiu até a mesa. Carregava no braço a cesta e na mesa espargiu os morangos.
Não sei no que pensava. Acho que nem ela.
Acontece que a ausência foi chegando e os olhos foram saindo, assim, dali, de lá, esgazeados.
Quando vi, estavam a desaparecer, fechados, piscando, pouco abertos. Morangos dançavam nos dedos, nos lábios, até os olhos avermelhavam. Os dedos miúdos apertavam a fruta, desapercebida. O chão de areia, salpicado de vermelhos, era como as luzes, vespertino. Às vezes comia um, às vezes caiam entre seus pés. Sem vontade, comia outro.
Não sei nem se viajavam os olhos ou o pensamento, não sei.
Os morangos pela mesa, triturados em sua mão, a boca manchada, o colo vazado, a roupa respingada, os pés rolando a areia.
Ruído irritante.
Alisava um seio, o outro, os cabelos, os lábios e os dedos faziam do caminho, cor de morango.
Mastigava devagar, deslizava a língua, outra fruta, a mordida, outro bicho fazendo seda.
O vento abriu a porta que bateu na bancada. Levou ao alto a saia, cabelos e os morangos voaram
Ela não se moveu.
Os cachos escuros, a boca saboreando, as mãos fazendo tinta a escorrer entre dedos, manchavam e desenhavam no vestido e na areia.
Do colo às pernas uma sinuosa estrada rubra.
Distraída, ela não via. Distraída, comia.
Comia morangos, no outono.
Maria Odila

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